Jornalismo Regional sobrevive em meio a desertos de notícias

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Mais da metade dos municípios brasileiros não possui cobertura jornalística significativa, de acordo com estimativas do Atlas da Notícia, projeto que faz um levantamento de veículos de comunicação em todo o país. Apesar dos desafios, a imprensa local resiste no interior gaúcho.

Cerca de 30 milhões de pessoas, no Brasil, vivem em cidades que não têm nenhum veículo jornalístico, consideradas desertos de notícias. Outras 34 milhões de pessoas estão em municípios com apenas um ou dois veículos de informação, classificados como quase desertos de notícias. No total, uma população superior à da Itália (com pouco mais de 60 milhões de habilitantes, segundo estimativas de 2018) está desassistida pela imprensa local.

Em geral, os desertos de notícias são municípios com poucos habitantes, como Alto Alegre e Bom Progresso, no Rio Grande do Sul, com cerca de 1,8 mil e 2,2 mil habitantes, respectivamente. Mas, há exceções, como as cidades de Charqueadas (quase 40 mil moradores) e Capão do Leão (mais de 25 mil). Nenhuma dessas quatro cidades possuem veículos de comunicação, de acordo com levantamento feito pelo projeto Atlas da Notícia, entre 2017 e 2018.

A situação é mais crítica nas regiões Norte e Nordeste, onde há cidades com mais de cem mil habitantes sem veículos jornalísticos. É o caso, por exemplo, de Santana (Amapá), Paço do Lumiar (Maranhão) e Maranguape (Ceará), com populações de 115 mil, 122 mil e 126 mil pessoas. O Atlas da Notícia aponta que 70% dos municípios do Norte e 64% dos municípios do Nordeste são desertos de notícias, não têm nenhum veículo mapeado. Nas regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste esse percentual cai para 38%, 47% e 48%.

O projeto Atlas da Notícia realizou levantamentos nos anos de 2017 e 2018. Em novembro de 2019, será lançada a terceira edição do estudo. Os dados mais recentes contabilizam 2.860 municípios (52% das cidades brasileiras) como desertos de notícias e mais 1.648 (30%) em que há apenas um ou dois veículos de informação. Assim, 80% do território nacional é composto de localidades com uma cobertura insatisfatória.

Rádio: o principal meio de comunicação
A cidade de São Luiz Gonzaga, na região das Missões, com uma população de cerca de 35 mil habitantes, tem o rádio como principal meio de comunicação. Possui duas emissoras AM – a rádio São Luiz e a rádio Missioneira – que acabam atuando, também, nos municípios vizinhos, sobretudo, naqueles em que não há cobertura significativa da imprensa.

Genaro Caetano – Rádio Missioneira

“A rádio Missioneira abrange nove municípios”, conta Genaro Caetano, jornalista que trabalha para a emissora. “Tem cidades muito pequenas no entorno, com uma população entre 5 a 12 mil habitantes, e nós acabamos atuando bastante nessas localidades.” A audiência e os contatos comerciais são muito bons nessas localidades, acrescenta, por isso a cobertura, especialmente de eventos, não pode ser deixada de lado.

Duas características marcantes nos veículos do interior gaúcho estão presentes nas rádios de São Luiz Gonzaga: as equipes reduzidas e o baixo número de profissionais formados. “Eu sou o único jornalista formado da rádio Missioneira; na rádio São Luiz tem dois formados”, detalha Caetano.

Emerson Scheis – Rádio São Luiz

Emerson Scheis, um dos jornalistas formados que atuam na rádio São Luiz, avalia que a quantidade baixa de profissionais é reflexo tanto das dificuldades econômicas enfrentadas pelas empresas de comunicação quanto do fim da obrigatoriedade do diploma. “Temos uma safra reduzida de jornalistas e não há renovação de profissionais; há cinco anos são os mesmos que atuam na área.” A perspectiva é a de que a situação não melhore, já que o número de estudantes também reduziu. “Havia uma quantidade maior de estagiários de comunicação, hoje, as vagas estão sendo preenchidas até por estudantes de outros cursos, pede-se apenas que esteja cursando ensino superior”, revela. Assim, são selecionados não só alunos de jornalismo, mas também de administração, ciências sociais, direito, entre outras áreas.

Para Scheis, o desinteresse reflete a desvalorização da profissão, que, segundo ele, tem sido muito atacada e passa por um processo de desconstrução. Sobre o mercado de trabalho, Caetano cita que os veículos de comunicação não conseguem pagar o piso. “Aqui em São Luiz desconheço empresas que pagam o piso, mas sei de cidades do interior que pagam”, afirma Caetano. Atualmente, o piso da Capital é de R$ 2.454,73, e de R$ 2.090,27 no Interior, de acordo com o Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul (Sindjors).

Diante da dificuldade financeira, empresas de comunicação e jornalistas de São Luiz Gonzaga costumam aderir ao sistema de prestação de serviços. Os profissionais se registram como microempreendedores individuais (MEIs) e conciliam mais de um trabalho. Caetano, além de atuar na rádio Missioneira, presta serviços de assessoria de imprensa para o time de futsal de Cerro Largo, cidade da mesma região. Scheis, que também está inscrito como MEI, concilia o trabalho na rádio São Luiz com a prestação de serviços como assessor de imprensa na área política.

São Luiz Gonzaga é representativa quando observados os dados apresentados pelo Atlas da Notícia. A cidade é rodeada por desertos ou quase desertos de notícias, como Dezesseis de Novembro, Rolador e São Miguel das Missões, por exemplo. Além disso, tem o rádio como principal meio de comunicação. De acordo com o levantamento feito em 2018, o rádio representa mais de 32% da base de veículos mapeados, seguido de jornais (27%), televisão (22,2%), online (18,2%) e revistas (0,4%).

“As rádios, mesmo com equipes reduzidas, oferecem o melhor jornalismo que tem na cidade”, sustenta Caetano, acrescentando que a população costuma ouvir as duas rádios e participa bastante da programação, tanto musical quanto jornalística. “O rádio é o veículo que possui mais acesso e credibilidade na cidade”, complementa Scheis. Na parte jornalística, há mais entrevistas e boletins do que reportagens.

Na “terra dos presidentes”
Pequenas empresas familiares, estruturas reduzidas, número baixo de jornalistas diplomados e profissionais multitarefas. Essa é uma realidade que se repete nos veículos de comunicação estabelecidos em quase todo o Interior do Estado. A consequência é uma cobertura jornalística com poucas reportagens, principalmente investigativas. É difícil direcionar pessoal para esse tipo de atividade, além de ser operacionalmente caro.

“Tem muito assunto que não é coberto como poderia”, observa o jornalista Rafael Vigna, que deixou a capital gaúcha e se mudou para São Borja, na Fronteira-Oeste do Rio Grande do Sul, em 2016. A cobertura policial, exemplifica, reproduz dados dos boletins de ocorrência, mantendo, inclusive, o mesmo linguajar.

Especializado em economia, Vigna, que por 10 anos integrou a equipe do Jornal do Comércio (em Porto Alegre), cobre, hoje, assuntos variados para o jornal Folha de São Borja e para as rádios Cultura AM e Fronteira FM. Um dos ambientes por onde mais transita é a Câmara dos Vereadores de São Borja, onde a presença da imprensa, até há pouco tempo, não era muito frequente. “Aparecia muito pouco conteúdo sobre a atividade legislativa e, quando aparecia, era por conta de material de assessoria de imprensa mesmo”, conta.

Além da cobertura política, questões cotidianas, economia e agronegócios também entram na pauta do jornalista. “A ideia é sempre regionalizar o conteúdo”, descreve. A população é vigilante em relação às matérias políticas, sinaliza. Na “terra dos presidentes”, a polarização faz parte das tradições locais e se manifesta nas cobranças à imprensa, para que não favoreça um partido mais do que o outro. “É como se fosse uma eleição sempre”, resume Vigna.

Proximidade com o leitor
A jornalista Lilian Martins também fez a transição da Capital para o Interior. Saiu de Porto Alegre, onde trabalhava como diagramadora no Jornal do Comércio, e se mudou para São José do Inhacorá, no noroeste gaúcho. O município tem 2,2 mil habitantes e nenhum veículo de comunicação. “Mudei para o Interior mais por causa da questão da violência”, contextualiza.

Lilian Martins – Jornal Semanal – Três de Maio

Hoje, Lilian trabalha como jornalista no Jornal Semanal, da vizinha Três de Maio. O impresso circula apenas às sextas-feiras, por isso, a cobertura não é tão focada em hard news. “Abordamos assuntos gerais, agricultura, agropecuária e histórias sobre as pessoas, que são nossas reportagens especiais”, conta. Entre as páginas mais lidas estão as colunas sociais e as reportagens especiais.

As pessoas querem se ver no jornal, percebe a jornalista. “Vai muita gente no jornal. Ainda é comum aparecer pessoas, com fotos, pedindo para publicar o aniversário de alguém”, demonstra. O jornal assume, assim, o papel de representar seus leitores. Isso pressupõe, inclusive, amenizar a cobertura política quando o assunto contraria as preferências dos eleitores locais.

“Temos bastante liberdade na questão editorial, mas ficamos meio engessados, às vezes, por conta das preferências políticas dos habitantes”, justifica explicando que a região tem um viés antiesquerda e elegeu o presidente Bolsonaro com 80% dos votos. Há, portanto, sempre um cuidado sobre o que será noticiado e como as informações serão produzidas.

Seguindo o padrão encontrado nos jornais do Interior, o Jornal Semanal também funciona com uma estrutura enxuta e uma equipe polivalente. “A gente faz de tudo: escreve, revisa, diagrama e dá apoio até na área administrativa”, revela. A publicação conta com apenas duas repórteres (Lilian é a única com diploma de jornalista), uma editora e o dono do jornal. “É uma experiência legal. Os desafios são maiores, mas oferece a oportunidade de uma experiência mais abrangente também.”

Imprensa gaúcha resiste à crise
Com 497 municípios, o Rio Grande do Sul tem, aproximadamente, 300 jornais sediados no Interior, projeta o presidente da Associação dos Jornais do Interior do Rio Grande do Sul (Adjori/RS), Renato Cesar de Carvalho. Nem todas as publicações são associadas à entidade, mas o número está aumentando, revela o dirigente. “Somos 270 associados, no momento, mas estamos elevando a base com a eleição da nova diretoria (biênio 2018-2020)”, detalha.

Renato Carvalho – Presidente da Adjori-RS

Carvalho foi eleito, em julho, como presidente da Associação Nacional dos Jornais do Interior do Brasil (Adjori Brasil), que tem uma base de mais de 780 associados. “Em geral, são jornais pequenos”, diz. Nessas publicações, algumas características se repetem: os leitores procuram mais a redação, a produção de matérias do gênero reportagem é baixa e a quantidade de profissionais formados é reduzida. “As notícias, basicamente, são locais, relacionadas ao trabalho da câmara de vereadores e aos eventos sociais”, declara.

Ainda que essas publicações também enfrentem desafios econômicos, Carvalho salienta que a crise está afetando mais os jornais das capitais do que os impressos regionais. Ele exemplifica citando que os grandes jornais reduziram a cobertura nas áreas mais afastadas dos centros metropolitanos. “A Zero Hora era enorme, e, hoje, não tem mais páginas dos municípios.” As sucursais dos principais veículos nacionais no Interior também estão desaparecendo, gradativamente.

Como os jornais do Interior são mantidos por empresas pequenas em cidades com poucos habitantes, a tiragem é menor, assim como as estruturas operacionais e administrativas. Outro ponto que favorece esses periódicos é que a maior parte deles circula entre uma a três vezes por semana. As cidades que têm jornais com cobertura diária são exceções.

Assim, com custos reduzidos, os veículos de comunicação regionais têm resistido à crise. Carvalho nota que o fechamento de publicações tem sido mais recorrente nos grandes centros; no Interior, o número de jornais tem se mantido estável. Essa percepção se alinha aos apontamentos feitos pelo Atlas da Notícia, que reportou o fechamento de 81 veículos jornalísticos, no Brasil, desde 2011. São Paulo é o Estado com a maior quantidade de encerramentos (31), seguida por Minas Gerais (27) e Rio de Janeiro (9). No Rio Grande do Sul, foram fechadas quatro publicações no mesmo período.

Carvalho elenca alguns fatores que têm contribuído para a sobrevivência dos jornais no Rio Grande do Sul. O primeiro aspecto é que o gaúcho, mesmo quando sai da cidade em que vive, continua buscando informações sobre a localidade. “A gente tem leitores online em quase todo o país e até fora do Brasil.”

Um fator adicional é que, em alguns municípios, as prefeituras costumam comprar jornais para distribuir nas escolas. “São cidades como Tupanciretã, Canela, Gramado, Petrópolis, entre outras”, cita, frisando que a aquisição é sempre de publicações sediadas nos municípios.

Expansão pelo digital
A Gazeta de Rosário, jornal impresso com quase 30 anos de história, prova que, apesar das dificuldades, as publicações do Interior estão conseguindo se reinventar recorrendo aos novos recursos oferecidos pela Internet e pelas redes sociais. O periódico da cidade de Rosário do Sul (sudoeste gaúcho) circula a versão impressa duas vezes por semana e tem em torno de mil assinantes, detalha a editora-chefe, Caroline Motta. “No digital, no Facebook, chegamos a 40 mil pessoas, que é mais do que a população da cidade”, compara. “Pela internet temos a dimensão de muitos leitores de fora da cidade.”

Caroline Motta – Editora-Chefe da Gazeta do Rosário

Caroline conta que o veículo começou a apostar no digital há cerca de quatro anos, investindo no site e nas redes sociais. “Temos um grande alcance nas redes, mas seguimos com o impresso”, avisa. “Diferentemente do que muitos jornais grandes enfrentam, a Gazeta e outros jornais do interior não enfrentaram tanta dificuldade com a base de assinantes. As pessoas gostam de receber o jornal no Interior; esse ainda é um hábito comum.”

É outra rotina, revela. “A cidade é menor, muitas pessoas vão para casa almoçar, têm um intervalo de duas horas de almoço, conseguem tempo para ler.” Por isso, o jornal não sentiu uma queda muito grande de assinantes. O desafio maior é com os anunciantes, pondera. “Observamos que tem surgido interesse muito grande no publieditorial nas redes sociais. Algumas empresas manifestam interesse em colocar anúncio no Facebook e algumas no site”, explica. “No nosso primeiro ano de site atingimos um milhão de acessos, o que é enorme para um jornal do porte da Gazeta.”

Caroline dá extrema importância para os assinantes da publicação e descreve iniciativas para fortalecer ainda mais o vínculo com o público. “Realmente, nos mantemos pelos leitores que acreditam no nosso trabalho. Apesar de o poder econômico da população não ter aumentado, estamos tentando implementar novos cadernos”, revela. A intenção é lançar um caderno para área da saúde e outro voltado para temas rurais. A aposta também deve atrair mais anunciantes.

Na parte digital, uma iniciativa que está gerando resultados é a transmissão de eventos pelas redes sociais. Depois de testar a ferramenta, a equipe da Gazeta passou a transmitir as sessões da Câmara dos Vereadores ao vivo pelo Facebook. Na cidade, as sessões já são transmitidas pela rádio da cidade, mas nas redes é possível ver em tempo real. “Foi uma alternativa bem interessante.”

Apesar das boas perspectivas, a Gazeta enfrenta desafios diários, comuns aos jornais do Interior, além das dificuldades financeiras que preocupam empresas do setor, independentemente do porte e da localização. A equipe é reduzida, são cerca de 10 pessoas, entre entregadores, repórteres e diagramadores. Além disso, há pouca quantidade de profissionais diplomados na região. “Nossa vontade é aumentar tanto a equipe de redação como a equipe de marketing”, projeta a editora da Gazeta de Rosário.