Jornalismo em tempos de pandemia

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Mais de 75% dos jornalistas passaram a trabalhar em esquema de home office, segundo pesquisa feita pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), mas o contexto é de preocupação para a maior parte dos profissionais

As necessárias medidas de isolamento adotadas para evitar a propagação do novo coronavírus afetaram a prática jornalística em uma de suas principais características: o contato com as pessoas. A presença do jornalista no local do fato é uma das premissas da profissão, mas não a única. A interação presencial com fontes e outros colegas da área, também, é fundamental para construir a identidade dos profissionais e produzir as informações que, diariamente, abastecem a sociedade.

ANDIARA PETTERLE
Vice-presidente de Produto e Operações do Grupo RBS

Em meio à pandemia, essa lógica precisou ser repensada. A saída para a maior parte dos profissionais foi trabalhar no esquema de home office. Foi o que aconteceu, por exemplo, no Grupo RBS, onde 73% dos jornalistas foram direcionados para o sistema de teletrabalho. O novo formato funcionou bem para a companhia e seus funcionários, avalia Andiara Petterle, vice-presidente de Produto e Operações do Grupo RBS.

“Ficamos muito bem impressionados com a eficiência do modelo de trabalho em home office para a maior parte das equipes. Ao contrário do que imaginávamos, a produtividade aumentou e muitos se sentem mais seguros e motivados por poderem ter rotinas mais flexíveis”, detalha. “Descobrimos que o modelo pode funcionar bem para o jornalismo.”

Apesar disso, Andiara reconhece que esse sistema de trabalho é desafiador. Ela cita que, para os profissionais, as principais dificuldades são “equilibrar na rotina as atividades de casa, especialmente com filhos, e a ausência da troca mais intensa com colegas de trabalho, que ajudam na criatividade e na pluralidade de visões”.

MARCELO LEITE
Diretor-executivo de Marketing e Pessoas do Grupo RBS

Como mecanismo pontual e necessário para evitar o risco de contágio pelo novo coronavírus, o home office tem cumprido seu papel e garantido que as operações de empresas de comunicação como a RBS permaneçam ativas. Mas ainda é cedo para definir se a prática será mantida, revela o diretor-executivo de Marketing e Pessoas do Grupo RBS, Marcelo Leite. “Nos surpreendeu muito positivamente a forma orgânica e natural com que a empresa tem operado durante esse período de pandemia”, admite.

“Estamos aprendendo muito e entendemos que podemos ganhar produtividade e eficiência com algumas atividades sendo feitas de forma remota, como reuniões recorrentes de trabalho, por exemplo. No entanto, é pouco tempo ainda para sabermos como esse modelo impacta aspectos mais subjetivos, como engajamento, criatividade e formação de cultura”, pondera Leite.

O executivo acrescenta que o grupo está aberto para “para avaliar quais práticas podem ser perpetuadas”. “Mas, neste momento, não temos uma visão estruturada sobre áreas, atividades ou profissionais que poderiam adotar esse regime de forma definitiva.”

Sedentarização do jornalismo pode aumentar
Ainda é cedo para sacramentar que as redações ficarão mais esvaziadas como efeito do momento atual e se o home office será ainda mais disseminado. Os efeitos dessa nova rotina, entretanto, são conhecidos por estudiosos que pesquisam o mercado de trabalho dos jornalistas. O doutor em comunicação e professor associado da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Fábio Henrique Pereira, lembra que o jornalismo já passa por um processo de sedentarização, que pode ser aprofundado.

FABIO PEREIRA
Doutor em comunicação e professor associado da UnB

O que o professor chama de sedentarização é a redução da apuração dos jornalistas na rua, com profissionais fazendo mais contatos por telefone ou e-mail do que presencialmente. “Esse processo se intensificou com as novas tecnologias, mas no contexto pandêmico encontra uma justificativa para virar uma prática disseminada”, avalia. “Essa cobertura sedentária que antes era feita na redação agora é feita em casa. Havia um terreno livre para esse tipo de prática e que a pandemia só intensificou.”

Essa situação é fruto da precarização do jornalismo. “A sedentarização permite a redução de pessoal”, comenta Pereira, lembrando que boa parte das empresas de comunicação enfrenta dificuldades financeiras, há anos.  Para compreender essa lógica basta imaginar que um repórter em cobertura externa realiza um menor número de reportagens do que se fizesse as apurações de dentro da redação. O contato com uma fonte pode ser encurtado pelo telefone, já que dispensa o deslocamento, a disponibilidade de veículo e outros aspectos que podem reduzir a produtividade.

A sedentarização do jornalismo vai na linha do “fazer mais consumindo menos recursos”, mas esse é um cenário que aumenta a pressão pela produtividade, fazendo com que o jornalista fique cada vez mais dependente de fontes intermediadas por assessorias de imprensa, por exemplo. Até que ponto a relação de força com as fontes está sendo alterada. “Quanto mais sedentário for o jornalismo, mais ficará dependente das fontes. Isso dá uma margem de manobra maior para as fontes, sobretudo as que estão mais preparadas.” Esse é um exemplo dos efeitos decorrentes da redução de custos nos veículos de comunicação.

O contexto atual de trabalho, em home office, favorece as medidas de redução dos custos, constata Pereira. “Com o home office, as empresas não arcam com os custos de manter a estrutura do local e podem até reduzir o tamanho da redação. Se isso vira uma tendência, a prática poderá ser usada como instrumento de redução de custos.”

Pereira pondera que para alguns profissionais, a prática pode significar ganho de tempo para os que fazem longos deslocamentos de casa para o trabalho. Entretanto, ele frisa que há prejuízos que precisam ser considerados. Um deles é a dificuldade que os profissionais enfrentam para se desconectarem do trabalho.

“Nos trabalhos que fiz sobre isso era muito claro o depoimento de jornalistas que diziam que não conseguiam desligar das atividades e que costumam acompanhar o noticiário o tempo inteiro”, exemplifica. “Com o home office isso tende a ficar pior, porque não se tem nem o espaço físico para delimitar o profissional do pessoal.”

Pereira destaca que é difícil avaliar se a cobertura jornalística melhorou ou piorou, mas há efeitos mais evidentes que podem mudar a forma como os jornalistas se desenvolvem na profissão. “O primeiro prejuízo é a perda da redação como espaço de socialização”, ressalta. “Na prática é que se aprende. Boas redações podem ser locais de trocas interessantes.” Caso o home office passe a ser uma prática mais disseminada e permanente, será necessário “repensar outras formas de aprendizado”.

Home office aumentou ritmo de trabalho
O home office não é bom para o jornalismo, argumenta a doutora em Ciências da Comunicação e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo (USP), Roseli Figaro, que há 20 anos estuda o jornalismo sob a ótica do trabalho. Ela lembra que a profissão é voltada para o bem comum e depende do contraditório. “O contato presencial é indispensável para criar identidade, construir a cultura e submeter os temas relevantes ao crivo do debate da redação.”

O deslocamento geográfico do mundo do trabalho para a casa implica mudanças significativas para os profissionais. “É outra instituição; é a família, tem crianças. Aí se percebe um gap entre aquela cultura que se desenvolve na empresa e a cultura e ritmos da casa. É preciso fazer uma gestão desse novo contexto.”

ROSELI FIGARO Doutora e Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da USP

Em abril deste ano, a professora Roseli coordenou a pesquisa “Como trabalham os comunicadores em tempos de pandemia da Covid-19”, desenvolvido pelo Centro de Pesquisa Comunicação & Trabalho, credenciado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O estudo considerou diferentes funções e profissões relacionadas à área da comunicação, como docência, jornalismo, relações públicas e publicidade.

O principal resultado identificado pelos pesquisadores foi o aumento no ritmo de trabalho dos jornalistas. Dos 557 profissionais entrevistados para o estudo, 36% relataram que o ritmo de trabalho ficou um pouco mais pesado e 34% citaram que o ritmo ficou muito mais pesado. Do total, 15% disseram que a rotina ficou um pouco mais tranquila e para 9% não houve mudança nesse ponto.

As principais preocupações dos profissionais envolvem riscos relacionados ao contágio pelo novo coronavírus e de perda do emprego ou da renda. Entre os entrevistados, 57% citaram medo de contágio da doença e 20% temem perder o emprego (ou continuar desempregado). Quando demonstram preocupação com a renda, os trabalhadores não se referem apenas à própria renda, mas, também, à saúde financeira das empresas em que trabalham.

A doutora salienta, ainda, que a limitação das interações com colegas foi outro aspecto sinalizado pelos jornalistas entrevistados. Em um dos relatos coletados pelos pesquisadores, usa o termo “saudade do cotidiano” para expressar o sentimento decorrente da perda do convívio tradicional. Sobre esse ponto, Roseli comenta que é preciso desenvolver nova cultura sobre os relacionamentos.

“Se o jornalista não está mais no presencial e vai para uma mediação virtual, aquelas interações pessoais não existem mais. A mente tem que reaprender a captar outras formas de sinais, de signos.” Essa é uma questão latente para a profissão, que tem a conversa como o cerne da sua atuação. “A profissão se fortalece com o discurso da racionalização, da racionalidade”, frisa Roseli.

Mais de 75% dos jornalistas realizaram trabalho remoto
A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) também estudou os efeitos da pandemia sobre o trabalho dos jornalistas e constatou que 75,2% dos profissionais passaram a atuar no sistema de home office. Quase 80% dos entrevistados disseram que as empresas/organizações em que trabalham garantiram as condições de saúde e segurança dos trabalhadores, sendo a principal delas o afastamento preventivo.

Por outro lado, mais de 55% dos jornalistas relataram que aumentou a pressão no trabalho (elevando estresse, cobrança por resultados e sobrecarga/acúmulo de funções). A presidente da entidade, Maria José Braga, comenta que o estresse se dá tanto pelo medo de contaminação pelo novo coronavírus (cujo padrão de contágio e agravamento ainda são desconhecidos) quanto pelas mudanças nas condições de trabalho. O medo de perda de emprego e redução na renda é outro fator que potencializa o estresse. “O levantamento mostra que a categoria foi muito afetada pela pandemia”, destaca.

 

A pesquisa da Fenaj revela que em quase 21% das empresas do setor houve demissões e que 28,8% citaram que houve redução de salários. Cerca de 25% dos profissionais disseram que sofreram redução na jornada de trabalho.

Sobre o retorno às atividades, Maria José reforça que é preciso restabelecer a presença do jornalista nos locais do trabalho ou na rua assim que possível. “Jornalismo se faz na rua”, afirma. “É preciso entender que estamos numa situação de excepcionalidade. Desejamos que passe o mais rapidamente possível e que a organização do trabalho possa ser amplamente discutida.”

Lives podem ganhar mercado corporativo
Se ainda é imprevisível dizer como será a nova configuração do trabalho dos jornalistas no pós-pandemia, o mesmo não se pode dizer a respeito das ferramentas adotadas nesse período, que tendem a se aprimorar e consolidar presença na rotina das pessoas. Um desses recursos é a live, que tem sido usada para produção e distribuição da notícia, mas também por empresas; entidades empresariais e de classe; artistas; e até pelo e-commerce.

O cenário ainda não está claro e poucos analistas arriscam fazer previsões, pois há diferentes universos abrangidos pelo fenômeno das lives, pois elas estão substituindo interações que, hoje, não podem ser realizadas, como entrevistas feitas por jornalistas, eventos corporativos, ações solidárias e espetáculos culturais. Ou seja, pode haver público interessado em determinados nichos, como os shows musicais.

Um estudo feito pela empresa de pesquisa MindMiners identificou que 76% dos brasileiros têm interesse em continuar assistindo transmissões ao vivo mesmo depois que a pandemia passar, sinalizando que o mercado das lives pode ser um caminho interessante para fortalecer o engajamento e o relacionamento com público.

Mais do que isso, o recurso já está sendo usado para vendas. Em julho, o canal Shoptime informou que vai adotar o formato “live commerce” para realizar vendas, contando com a participação de 100 influenciadores que vão integrar o grupo de apresentadores no novo formato.

A assessoria de imprensa da marca comunica que o projeto faz parte das estratégias do Shoptime para o longo prazo e será mantido independentemente do fim da pandemia e da quarentena. Outra companhia que está associando as lives às vendas é a Lojas Americanas, que recentemente lançou o projeto Americanas ao vivo para promover, semanalmente, lives reviews com demonstração de produtos no app da marca.