Jornalismo cultural: reflexão e informação em tempos de mudanças

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Até há pouco tempo, cadernos semanais dos grandes jornais e revistas especializadas eram as grandes vitrines da produção cultural. Livros, espetáculos, filmes, exposições e artistas de todas as áreas disputavam um espaço editorial limitado, mas consagrado por fomentar a cultura.

Assim, a imprensa especializada em cultura não só promovia reflexões acerca de obras e movimentos artísticos como também construía a agenda semanal, guiando a decisão de muitos leitores. Mais do que isso: essa editoria assumiu um papel essencial na preservação da nossa memória.

“O jornalismo cultural é um lugar muito importante de gestão da memória: vai nos dizendo o que lembrar, o que é importante”, avalia Cida Golin, professora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

É, portanto, uma função social fundamental e que nunca perdeu a relevância, mesmo em face das transformações trazidas pela internet. Mas, nesse novo cenário, o jornalismo cultural é afetado pela crise jornalística e pelos múltiplos agentes que passaram a produzir conteúdo sobre cultura.

O aprofundamento não cabe mais nos jornais
Quando o jornalista e crítico musical Carlos Calado ingressou na Folha de S.Paulo, em 1986, o jornal vendia mais de um milhão de exemplares aos domingos. Foi o período em que a publicação exerceu “a maior influência nos meios culturais do país”, lembra. Esse poder se concentrava na Ilustrada, o tradicional caderno de cultura da Folha.

Nessa época, a editoria conseguia se aprofundar nos temas que abordava. Calado exemplifica citando a cobertura feita pelo caderno para a estreia da quinta edição do Free Jazz Festival de 1989 (na época o principal evento do gênero no país). “Publicamos um caderno especial de oito páginas com reportagens, entrevistas com os músicos do elenco, análises musicais, gráficos explicativos e resenhas de livros e discos de jazz que estavam sendo lançados no país”, elenca.

A comparação com o espaço atual é inevitável. “Trinta anos atrás, a Ilustrada podia dedicar a um festival de música um espaço equivalente ao que cadernos culturais dos jornais brasileiros dispõem hoje para cobrir todas as áreas da cultura e do entretenimento. O atual encolhimento dos cadernos culturais e de suas redações praticamente impede uma abordagem tão aprofundada como essa.”

Antes de ingressar no jornalismo, Calado estudou saxofone e clarinete, tocou em uma pequena orquestra, fez alguns shows e concluiu um mestrado em artes. Em meados dos anos 1980, começou a escrever resenhas de discos para a revista “Som Três”, editada por Mauricio Kubrusly. Pouco depois, começou na “Folha”, como colaborador regular, depois, redator, editor-assistente e repórter. Colaborou, também, com várias revistas especializadas, escreveu livros (entre eles, “Tropicália: a História de Uma Revolução Musical” e “A Divina Comédia dos Mutantes”) e desde 2009 mantém um blog sobre música, que, atualmente, concilia com a colaboração para os jornais Folha de S.Paulo e Valor Econômico.

Ao longo de sua trajetória, o crítico sempre esteve atento às discussões sobre o perfil do público interessado em informações sobre músicas. “Mesmo antes do advento da internet, lembro de ter participado de debates que levantaram uma questão importante para a qual não tenho uma resposta definitiva até hoje: por que revistas brasileiras especializadas em música, como a ‘Som Três’, a ‘AudioNews’ ou a ‘Bizz’, não tiveram vidas tão longas quanto às de suas similares no exterior?”, questiona. “Ao que parece, o leitor médio brasileiro interessado em música não se dispunha a comprar regularmente essas publicações. Os leitores pareciam se satisfazer com a cobertura musical, geralmente mais rasa, dos jornais diários.”

Se antes da internet o interesse dos leitores já era alvo de preocupação, com o surgimento das redes sociais, isso só se agravou, demonstra o crítico. “Tenho a impressão de que as redes sociais, especialmente, têm grande responsabilidade nessa mudança de padrão para os leitores em potencial. Hoje, é comum ver alguém até se desculpar, no Facebook, ao postar textos com mais de três ou quatro parágrafos, que chegam a ser tachados de ‘textões’. É como se as pessoas já não tivessem mais interesse, ou mesmo não fossem mais capazes de manter a atenção concentrada em um texto que aprofunde qualquer tema ou discussão.”

Modelo de negócios mudou
Com mais de 40 anos de trajetória no jornalismo cultural, o jornalista e crítico musical Juarez Fonseca também avalia que a cobertura especializada na área ficou mais rasa, embora o interesse do público por produtos culturais nunca tenha decaído. As pessoas ainda consomem livros e música, e continuam frequentando teatros, cinema, exposições e espetáculos, mas o espaço para a informação sobre todas essas vertentes se dissipou. O artista, que antes se comunicava com o público por intermédio de jornais, revistas e programas de rádio e televisão, hoje, interage diretamente com seus fãs pelas redes sociais. “Há uma diversidade maior de fontes”, afirma.

Juarez Fonseca – arquivo pessoal

Fonseca foi editor de cultura da Zero Hora por 23 anos (de 1974 a 1996), atuou como jurado em dezenas de festivais musicais e premiações, além de ter trabalhado como produtor musical e capista de discos para vários artistas locais. Entre os livros que escreveu, destacam-se a biografia de Gildo de Freitas e “Ora bolas – o humor de Mario Quintana”. Atualmente, Fonseca mantém uma coluna sobre música na ZH. No decorrer de sua carreira, viu o jornalismo cultural se profissionalizar, ganhar relevância e se expandir em inúmeras publicações segmentadas por todo país.

Muitas das revistas especializadas criadas nessa época, sobretudo entre 1997 e 1998, já deixaram de existir. Foram lançadas nesses anos a Caros Amigos (1997), a Cult (1997), a Bravo! (1997) e a gaúcha Aplauso (1998), por exemplo. Destas, só a Cult se mantém em circulação até hoje – as demais deixaram de ser impressas em 2012 (Aplauso), 2013 (A Bravo!) e 2017 (Caros Amigos).

“A Aplauso teve um papel muito importante, circulou por 10 anos cobrindo todas as áreas da cultura”, frisa Juarez, que já assinou colunas na publicação. Assim como as revistas tiveram dificuldade de se sustentar a partir da transição para o digital, os jornais impressos também sentiram o impacto.

Claudia Laitano – Crédito Adriana Franciosi

As antigas estruturas das grandes redações e os custos de produção para fazer volumosas edições impressas já não são mais viáveis. “Houve uma mudança no modelo de negócios”, declara Claudia Laitano, editora de cultura da ZH de 2000 a 2018. A diminuição do espaço, lamenta, seria inevitável nesse contexto. “Esse novo modelo de negócios não comporta aquela estrutura. Mas, infelizmente, isso também tornou as coberturas mais pobres”, destaca;

“O determinante para o declínio das publicações é a questão econômica”, resume Franthiesco Ballerini, autor do livro “Jornalismo Cultural no Século 21”. “Hoje, o leitor acha que pode consumir conteúdo sem pagar, que vai entrar no Twitter ou Facebook e estar informado. E não é assim, só que isso impacta a indústria jornalística.”

Ballerini pondera que, apesar do diagnóstico, o conteúdo continua sendo importante para o consumidor e tende a voltar a ser priorizado. “O conteúdo prevalece sobre a forma”, diz. “Eu quero acreditar que, uma hora, o público vai cansar de um produto que tem só forma e não conteúdo, mas o conteúdo tem que estar bem empacotado.”

Jornalista cultural deve ser cada vez mais especializado
É fato que as mídias digitais contribuíram para a redução dos grandes cadernos culturais. “Vivemos, realmente, o ocaso dos suplementos semanais dos jornais. Teve uma época em que a gente podia fazer observatório de suplementos. Lembro que a gente recolhia pelo menos cinco ou seis suplementos do país, dos que saem nos fins de semana, e fazíamos comparações, analisávamos as políticas editoriais”, relata a professora Cida Golin.

Atualmente, esse trabalho não é mais possível, detalha. “Não tem mais como fazer, porque eles estão realmente sumindo, tem só um ou dois que ficaram de um tempo muito áureo dos suplementos semanais.” Por outro lado, as novas mídias abriram novas possibilidades para a produção de conteúdo. “Eu nem me lembro mais [dos suplementos] porque eu consigo encontrar tantas outras coisas bacanas que fazem outra medição da cultura, só que nem sempre elas estão sob o domínio do campo jornalístico”, acrescenta.

É nesse ponto que a crise do jornalismo atinge em cheio a cobertura cultural da imprensa. No digital, a produção de conteúdo multimídia é rápida, barata e acessível a todos, mas leva vantagem quem conseguir entregar informações relevantes e cada vez mais segmentadas. “O perfil do jornalismo cultural sempre foi de formação de repertório e, hoje, isso é mais importante ainda”, adverte Cida. Para ela, um profissional multitarefas não se encaixa nesse perfil. “Eu não consigo conceber nessa área um multitarefas. Por que o que ele vai fazer? Repetir, repetir e repetir o material da fonte, o release. Vai ser um entregador de mercadorias, um garoto de recados.

Franthiesco Ballerini

“O jornalista cultural, antes de mais nada, precisa entender um pouco de história, sociologia, filosofia e até de esporte, que eu não gosto muito, a gente tem que ler, porque temos que entender o mundo ao redor”, descreve Franthiesco Ballerini. Essa formação é importante porque o profissional “vai analisar obras que falam do mundo ao redor”. Além disso, Ballerini defende que o jornalista tenha conhecimento sobre a parte técnica da área que cobre. “Eu acho desejável que um crítico de cinema tenha feito algum filme; tem muitos críticos que nunca chegaram perto da prática, mas eu acho isso importante.”

A crítica, avalia Calado, foi a área do jornalismo cultural mais impactada pelo ambiente digital. “No caso específico da crítica, área em que eu ainda tento atuar, o estrago foi devastador. Como é possível analisar com profundidade um disco, um show, um filme ou um espetáculo teatral, contando com um espaço tão reduzido? Não foi à toa que os jornais aderiram ao formato da ‘cotação’ – a discutível avaliação de uma obra expressa em número de estrelinhas ou mesmo em categorias reducionistas, como ‘ruim’, ‘regular’ e ‘bom’, a exemplo do que se faz na área da hotelaria ou dos restaurantes.”

Carlos Calado – Crédito: Katia Medaglia

Esse padrão contribuiu “para a extinção do exercício da crítica”, reclama, chamando de “supostas críticas musicais” alguns conteúdos que ainda aparecem nos jornais. “Não passam de meras expressões do gosto pessoal do jornalista; tornou-se comum dedicar mais espaço à descrição das roupas, dos cabelos, dos gestos ou das coreografias dos artistas em questão do que à música, propriamente.”

Por isso, reforça, é essencial que o crítico entenda a área que cobre e, no caso da música, “conheça a fundo não só a história do gênero sobre o qual escreve, mas que também tenha dedicado pelo menos alguns anos à audição das obras e gravações mais importantes desse gênero”.

A segmentação é uma tendência, reflete Cláudia Laitano. “Vai ter cada vez mais coisas para quem gosta de literatura, música, enfim, coisas fechadas.” Mas para que o jornalismo cultural se desenvolva, depende dos investimentos do mercado e do público. “A cultura, em qualquer lugar do mundo, não sobrevive sem interesse do mercado; quem tem grana tem que saber que é uma área relevante.”

Cult sobrevive promovendo a reflexão
Com uma história de 23 anos, a Cult se posiciona como a mais longeva revista cultural do Brasil. A internet começava a avançar em acesso e relevância quando a primeira edição da publicação entrou em circulação, em agosto de 1997. De lá para cá, o acesso à internet se disseminou, chegou aos smartphones, surgiram as redes sociais e diferentes plataformas de conteúdo, mas a revista mantém, até hoje, suas impressões mensais – contrariando o recente movimento de encerramento de títulos.

Para Fernanda Paola, responsável pelo departamento digital e novos negócios da Cult, a revista se mantém no mercado porque pratica um jornalismo de reflexão. “Nossa proposta é trazer a reflexão cultural e o pensamento crítico; essa proposta está nos ajudando a vencer as dificuldades”, pontua.

Fernanda Paola – Crédito Arquivo Pessoal

A revista passou por transformações ao longo dessas mais de duas décadas, inclusive nos temas que são abordados, conta Fernanda. “A Cult nasceu como uma revista de literatura. Hoje, trabalhamos muito com psicanálise e filosofia.”

Os leitores podem assinar a revista impressa ou digital (ou ambas), mas encontram ainda outros pontos de contato com a publicação, como os cursos apresentados no Espaço Cult, abrangendo questões como economia, política, sociologia, jornalismo, filosofia, literatura e psicanálise. Os cursos são promovidos desde 2012 e, atualmente, contemplam de três a quatro turmas por mês.

“Como marca, tentamos ocupar vários tipos de espaço, de mídia. A ideia é usar todas as alternativas e não ficar só no impresso”, detalha Fernanda, frisando que a Cult nunca dependeu de incentivos de nenhum tipo, como a Lei Rouanet. “Temos independência e a exercemos de um jeito responsável.” Para manter a publicação, o grupo é cauteloso com a gestão. “Somos pequenos, conservadores na administração”, admite. Enquanto controla os custos, o Grupo Cult segue focado nos temas que interessam aos seus leitores, mantendo-se atento, também, aos novos formatos.