Imprensa e pandemias no Brasil

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A primeira pandemia registrada pela imprensa no Brasil foi a da febre amarela em 1849-1850. Somente no Rio de Janeiro, de uma população de 166 mil pessoas, faleceram 4.160. O comércio ficou paralisado, o embarque desembarque de navios nos portos proibidos, e até o parlamento imperial teve seus trabalhos interrompidos.

As polêmicas sobre a doença foram narradas pela imprensa, como mostra um artigo publicado no Correio da Tarde, em 9 de março de 1850: “Que confusão! Quantas disputas! Quantas teorias vãs ou absurdas! … Ninguém se entende, nem sobre a natureza da febre, nem sobre sua origem, nem tão pouco sobre os meios preventivos; e, o que é pior, sobre o curativo! ….Calomelanos e sangrias, diz um; sodoríficos e purgas, diz outro; não, diz um terceiro, acônito, arnica em doses infinitésimas; fora charlatões, grita um discípulo de Galleno, o que unicamente pode salvar são altas doses de sulfato de quinina.”

Cinco anos depois, era a vez da epidemia de cólera aparecer no Brasil. A doença matou ao menos 200 mil pessoas em todo o país entre 1855 e 1856.

Diante da catástrofe, os jornais colaboravam para disseminar as novidades milagrosas. Por exemplo, o Diário de Pernambuco, em sua edição de 18 de fevereiro de 1856, publicou uma nota revelando que um escravo do senhor do Engenho de Guararapes descobrira uma fórmula que havia curado muita gente de cólera, fato que foi desmentido pela Junta de Higiene local. Nessa mesma edição, o jornal trazia uma fórmula “infalível” de ervas trituradas em azeite de carrapateira com a qual se devia untar todo o corpo.

Em 1904, os debates jornalísticos sobre a saúde popular chegaram a fomentar uma rebelião: a Revolta da Vacina. Encarregado pelo presidente Rodrigues Alves para acabar com a febre amarela e a varíola no Rio de Janeiro, o médico sanitarista Oswaldo Cruz defendia a vacinação obrigatória da população. O assunto dividiu a imprensa carioca, com veículos como a Gazeta de Notícias defendendo o governo e a vacina, e outros como o Correio da Manhã criticando o que consideravam uma quebra dos direitos individuais. No entanto, muitos críticos também escreviam artigos anticientíficos, duvidando que doenças fossem causadas por micróbios.

O jornal A Notícia vazou o texto do projeto de regulamentação da aplicação da vacina obrigatória, em 9 de janeiro de 1904, o que começou uma série de conflitos de rua, manifestações e depredações que se estenderam por cerca de uma semana. O resultado foram 30 mortos, 110 feridos, 945 presos e 461 deportados para o Acre.

Quando o Brasil enfrentou a “gripe espanhola”, em 1918, que matou cerca de 300 mil pessoas no país, a grande maioria dos jornais buscou dar dicas de prevenção à população. Em 18 de outubro daquele ano, O Estado de S. Paulo publicou uma espécie de “tutorial” para evitar o contágio pela doença. Entre outras providências, como evitar aglomerações, sugeria “tomar, como preventivo, internamente, qualquer sal de quinino nas doses de 25 a 50 centigramas por dia”.

Em Porto Alegre, o Correio do Povo publicou, em 29 de outubro de 1918, editorial pedindo que o governo tomasse medidas emergenciais para tentar debelar a epidemia. “Pedimos, anteontem, que, como medida preventiva, fossem desinfetados os hotéis, casas de pensão, casas de cômodos, enfim, todas as casas de habitação coletiva. Essa providência ainda não foi tomada”, reclamava o texto.

Cobertura da Gripe Espanhola em 1918

Pior do que reportar mal uma epidemia são os perigos de não poder falar nada. Nos anos 1970, uma onda mundial de surtos de meningite atacou o Brasil, especialmente na cidade de São Paulo. Entretanto, o regime militar da época, para não apavorar a população devido à falta de vacinas suficientes, não admitiu que a doença estava no país, e recusou-se a divulgar dados sobre o avanço da epidemia.

Conforme os casos foram crescendo e chegando ao conhecimento da imprensa, o governo passou a censurar as matérias que tratassem da questão. Profissionais de saúde também foram proibidos de dar entrevistas sobre o tema. Em 1974, até mesmo uma entrevista sobre o tema do ministro da Saúde, Paulo de Almeida Machado, para a revista Veja foi proibida de ser publicada, para surpresa do próprio Machado.

No final daquele ano, o governo acabou admitindo o problema e suspendeu a censura. No entanto, a omissão acabou acelerando a disseminação da doença, e gerou perda de confiança da população nas autoridades de saúde.