Fim de linha para os impressos

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Há vários anos, a indústria jornalística vem apresentando um declínio constante, desencadeado por uma perda de leitores e de receita publicitária que migra para outras mídias, principalmente as digitais. Embora esse declínio esteja em andamento há muito tempo, a pandemia e seus efeitos econômicos afetaram vários setores anunciantes, que reduziram seus orçamentos de marketing, especialmente para veículos impressos, acelerando a queda na receita de anúncios. Somada à concentração cada vez maior das verbas de publicidade nos oligopólios de Internet (Facebook e Google), essa situação vem causando uma erosão gradual do jornalismo, com fechamento de veículos e dificuldades para criação de novas iniciativas.

No Brasil, por exemplo, a circulação impressa dos principais jornais teve mais um ano de queda expressiva em 2021. Ao mesmo tempo, a venda de assinaturas das versões digitais das mesmas publicações aumentou, confirmando uma tendência iniciada há alguns anos: redução da relevância da plataforma impressa e mais presença do jornalismo on-line.

Segundo dados do IVC (Instituto Verificador de Circulação), em 2021, os 10 principais jornais brasileiros em quantidade de tiragem – Folha de S.Paulo (SP), O Globo (RJ), O Estado de S. Paulo (SP), Super Notícia (MG), Zero Hora (RS), Valor Econômico (SP), Correio Braziliense (DF), Estado de Minas (MG), A Tarde (BA) e O Povo (CE) – encolheram 12,8% em comparação com 2020 nas suas vendas em papel. Tiveram, em dezembro de 2021, somados, 381,8 mil exemplares impressos diários, em média.

Dos 10 jornais selecionados, oito registraram queda de circulação em papel na comparação com 2020. Na versão impressa, nenhum tem média diária de tiragem paga acima de 80.000 cópias. Se considerarmos que o Brasil tem 214,2 milhões de habitantes, os 381,8 mil exemplares publicados por estes jornais representam apenas 0,2% da população brasileiras, (caso cada um desses exemplares fosse destinado a um leitor). Só o jornal Estado de Minas (+16,6%) e a Folha (+1,2%) registraram avanço nas suas vendas impressas em 2021. No entanto, como as bases já são pequenas, essas altas fizeram pouca diferença.

Se considerarmos os últimos cinco anos, nota-se de maneira bem clara a tendência das publicações impressas: a tiragem somada dos 10 veículos no ano passado caiu a menos da metade de 2016,(redução de 57%), de 883 mil para 382 mil, em números redondos.

Somados, os jornais selecionados atingiram pela 1ª vez a casa de 1 milhão de assinantes on-line. Chegaram a 1.048.013 assinaturas digitais pagas. Apenas dois deles (Super Notícia e Correio) registraram queda no digital: -59,8% e -19,3%. O total de assinantes digitais acima de 1 milhão é uma conquista importante para os veículos brasileiros, mas o mercado local ainda está muito atrás do norte-americano, por exemplo. Nos EUA, só o jornal The New York Times tem mais de 7 milhões de assinantes digitais. Já no Brasil, o que mais possui assinantes digitais, O Globo, conta com meros 305 mil.

Os veículos que seguem publicando, mesmo com a redução de circulação, parecem estar apenas adiando uma realidade que terão que enfrentar no futuro: o fim das edições impressas, ou mesmo o fechamento das empresas. No Brasil, segundo levantamento do Portal Comunique-se, houve o fechamento de ao menos um veículo impresso por mês em 2021. Essa situação causa preocupação especialmente nas cidades menores. Com mais jornais e revistas fechando, estão aumentando os “desertos de notícias” – cidades e regiões em que os habitantes não têm jornal local ou enfrentam uma diminuição notável no acesso a notícias e informações necessárias.

Estima-se que quase 14% da população brasileira vive em cidades sem jornalismo local, são os chamados desertos de notícias. A pesquisa Atlas da Notícia de 2021 identificou que 5 em cada 10 municípios brasileiros estão nessa condição. São mais de 2.900 cidades, onde vivem mais de 29 milhões de pessoas, em que não foram encontrados veículos de imprensa local.

Infelizmente, a crise do jornalismo impresso é um processo sem volta. Jornais e revistas são parte de uma tradição que se arrasta para a morte. No entanto, se o impresso já está no passado, o jornalismo do futuro ainda não está firme no mercado, com a migração para o digital ainda operando de forma lenta, com o público sem entusiasmo à ideia de pagar por informação veiculada na Internet. Sic transit gloria mundi : tudo no mundo é passageiro. Não deixaria de ser o mesmo com o jornalismo.