Imprensa e governo em pé de guerra

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Presidente Jair Bolsonaro fala à imprensa - Crédito: José Cruz - Agência Brasil

Bolsonaro assumiu a presidência com um discurso combativo contra a ideologização da mídia e prometendo acabar com privilégios. No alvo dos ataques estão veículos líderes de audiência.

O mandato do presidente Jair Bolsonaro foi, desde o início, marcado pela relação conflituosa com a mídia. Em um de seus primeiros pronunciamentos oficiais, defendeu a imprensa livre como pilar da democracia. O tom da fala, no entanto, foi mais de crítica do que de enaltecimento e já indicava mudanças na relação entre governo e veículos de comunicação.

“Nós vamos democratizar as verbas publicitárias. Nenhum órgão de imprensa terá direito a mais ou menos naquilo que nós, de maneira bastante racional, viremos a gastar com a nossa imprensa”, anunciou, nos primeiros dias de governo. Foi dessa forma que ele se comprometeu a acabar com o que considerava “privilégio” na destinação dos recursos para publicidade.

“Queremos, sim, cada vez mais, que vocês (imprensa) sejam mais fortes e isentos. E não seja, como alguns infelizmente o foram há algum tempo ainda, parciais”, declarou, acrescentando que “a imprensa livre é a garantia da nossa democracia”.

Sem denominar qualquer veículo de comunicação, Bolsonaro enfatizou as críticas que já vinha fazendo à mídia desde a campanha eleitoral. No período, chegou a recomendar a correligionários do PSL que evitassem falar com jornalistas, alegando que “parte da mídia” pretendia desgastá-los.

Apesar do que possa parecer, a imprensa não é a inimiga eleita pelo governo. O que o presidente frisa combater é a ideologia que domina veículos de comunicação. As críticas mais recentes têm sido direcionadas à Globo e ao jornal Folha de S.Paulo, líderes de audiência em seus segmentos.

Ajuste nas verbas publicitárias
Uma das primeiras informações desmentidas pelo governo em 2019 foi a reportagem publicada pelo Uol e Folha de S.Paulo apontando que o Executivo aumentou em 64% os gastos com publicidade no primeiro trimestre do ano, a notícia foi veiculada em abril. A Secretaria Especial de Comunicação Social (Secom) prontamente negou a reportagem, esclarecendo que, na verdade, a atual gestão reduziu as despesas em 60% nos primeiros três meses do ano.

Posteriormente, a Secom detalhou a distribuição de verbas publicitárias em relatório entregue ao Tribunal de Contas da União (TCU), confirmando que os gastos foram, realmente, reduzidos. De acordo com os dados apresentados, os valores destinados às campanhas publicitárias para as principais emissoras de TV aberta do país (Globo, Record e SBT) foram: R$ 48 milhões (2017), R$ 71,65 milhões (2018) e R$ 16,15 milhões (até junho de 2019).

Esses mesmos dados demonstram que o governo modificou o perfil de participação das emissoras na distribuição das verbas publicitárias. Em 2017, do total de R$ 48 milhões direcionados para publicidade nas três emissoras, mais de 48,5% foi investido na Globo, totalizando mais de R$ 23 milhões. No mesmo ano, a Record e o SBT ficaram com 26,7% (R$ 12,8 milhões) e 24,8% (R$ 11,9 milhões) dos valores, respectivamente.

No ano seguinte, a Globo teve sua participação reduzida, mas, ainda assim, obteve a maior parcela entre as três emissoras. O investimento total de R$ 71,65 milhões foi distribuído em 39% para a Globo (R$ 28 milhões), 31% para a Record (R$ 22,34 milhões) e 30% para o SBT (R$ 21,27 milhões).

O governo que iniciou com a promessa de democratizar as verbas publicitárias foi o responsável por reverter o tratamento dado às emissoras. A Globo, hoje, tem a menor participação no bolo publicitário, que, até junho, somou R$ 16,15 milhões, sendo que 16,4% foram para a Globo (R$ 2,64 milhões), 42,6% foram para a Record (R$ 6,9 milhões) e 41% foram para o SBT (R$ 6,6 milhões).

Lives em redes sociais
O principal canal de interação do presidente Jair Bolsonaro com os brasileiros são as redes sociais. Por meio delas, ele fala diretamente aos seus seguidores em lives semanais, passando ao largo dos jornalistas. Além da aproximação que conquista junto ao seu público, ele garante, ainda, repercussão nos veículos de comunicação, que acabam dedicando espaço em telejornais e colunas políticas sobre os assuntos abordados nos vídeos, transmitidos, normalmente, às quintas-feiras.

Crédito Marcos Corrêa – PR

Nesses vídeos, são recorrentes as críticas contra a cobertura de imprensa, sobretudo, em relação às matérias que exploram fatos que ainda não foram apurados integralmente, como a reportagem do Jornal Nacional vinculando o nome de Bolsonaro aos dos supostos assassinos da vereadora Marielle Franco.

A equipe do noticiário teve acesso ao depoimento de um porteiro do condomínio Vivendas da Barra, no Rio de Janeiro, no qual ele afirma que, no dia do assassinato da vereadora, um dos acusados, Élcio Queiroz, teria procurado pela casa 58, onde vivia Jair Bolsonaro. Na declaração, o porteiro revela que a entrada foi autorizada pelo “seu Jair”.

Sem trazer mais indícios para sustentar as alegações do porteiro, o Jornal Nacional veiculou a reportagem no dia 29 de outubro, ressaltando que a equipe verificou os registros da Câmara dos Deputados confirmando que, no dia em que Marielle foi executada, Bolsonaro estava em Brasília.

Na mesma noite, em transmissão pelas redes sociais, direto da Arábia Saudita onde cumpria extensa agenda de visitas internacionais, o presidente criticou a rede Globo. “Vocês, TV Globo, o tempo todo infernizam a minha vida, porra! Onde vocês querem chegar, eu sei. Vocês não têm vergonha na cara. Essa patifaria 24 horas por dia contra a minha pessoa”, bradou.

As queixas prosseguiram no dia seguinte, reforçando que aquela era uma situação recorrente. “Não é de hoje que o sistema Globo persegue a mim e à minha família, aqueles que tão do meu lado. É isso que vem acontecendo”, argumentou. “A Globo quer destruir o Jair Bolsonaro, que acabou com a mamata da TV Globo de faturar bilhões por ano com propaganda oficial do governo.” A emissora se defendeu das duas acusações, por meio de nota, dizendo que faz jornalismo “com seriedade e responsabilidade”.

Em setembro, a revista Época, do grupo Globo, deu destaque à nora do presidente, a psicóloga Heloísa Wolf Bolsonaro, casada com o deputado Eduardo Bolsonaro. A reportagem foi desenvolvida por um repórter (sem se identificar como tal) e que se passou por um cliente da profissional, submetendo-se a cinco sessões online de coaching.

A reportagem foi publicada na sexta-feira (13 de setembro), mas não apresentou qualquer informação relevante ou que comprometesse o trabalho de Heloísa. Na segunda-feira, o grupo Globo publicou nota reconhecendo que a revista errou e pedindo desculpas aos leitores e à psicóloga.

Essa parece ser uma guerra sem tréguas. Que sobreviva o bom e verdadeiro jornalismo. Que sobreviva o governo que pretende mudar o país. Isso é o melhor que pode acontecer para o Brasil, para a imprensa e para os brasileiros.