Pistoleiro de aluguel

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Ele abre ao mesmo tempo as duas folhas de vaivém da porta da taberna. Dois revólveres na cintura, as pernas em arco pelo andar a cavalo. O olhar duro. A barba por fazer, a boca seca por um trago. O estereótipo do jornalista: nós contra o mundo. Amor no coração, capaz de oferecer por inteiro a uma bailarina no primeiro andar do saloon.
O perigo é ele virar pistoleiro de aluguel.

Nos anos 1970, a fumaça da papeleira em Guaíba, inaugurada em 1972, atravessava o rio e espalhava um cheiro nauseabundo em Porto Alegre. Principalmente à noite. Os jornais publicavam no outro dia uma foto da fumaça preta com um texto-legenda. Até que os cavalos puros-sangues do doutor Breno, no Haras da Ponta do Arado, em Belém Novo, começaram a vomitar. Indignado, ele deu carta-branca aos jornais da Caldas Júnior para publicarem matérias contra a poluição ambiental provocada pela Borregard. Finalmente virou um caso de saúde pública. Os repórteres deixaram para trás os textos-legendas e passaram a redigir reportagens de uma, duas ou até mais páginas. A apoteose contra a papeleira francesa.

Borregard virou sinônimo de fedor. Pressionada pela campanha da imprensa, a indústria de celulose comprou filtros, acabou com o mau cheiro, mudou de nome em 1975, não havia como recuperá-lo, passou a se chamar Riocell, e lançou uma campanha ambiental, distribuindo mudas de árvores e folhagens nas esquinas de Porto Alegre. É reconhecido na Academia como um importante case de projeto de Relações Públicas alicerçado na correção da planta industrial. Sem acabar com os efeitos da poluição não havia como mudar a imagem da fábrica.

A mídia hoje faz quase unânime e sistemática campanha contra o presidente Bolsonaro. Os jornalistas batem no governo em ambiente democrático com os adjetivos mais agressivos e generalizações como fascismo, nazismo e ditadura. Assim não tem graça, é como criticar a poluição da papeleira porque os cavalos de corrida do doutor Breno também não suportavam o fedor.

Quando eu penso como o patrão quer, alguma coisa não está certa. Talvez tenha deixado de ser justiceiro para me tornar pistoleiro de aluguel.

Inocente útil
O regime militar costumava chamar de “inocente útil”, e não mandava prender, quem era apenas ideologicamente contra o autoritarismo. Era tolerado dar discurso em bar, participar de passeatas. Hoje vejo como inocente útil os velhos socialistas e comunistas que no passado sonharam com um mundo mais igual e hoje participam de uma agenda globalista do politicamente correto como pano de fundo de grandes negociatas e a ânsia de mamar nas tetas do poder público, da administração aos serviços, da educação à arte. Não se fala em divisão de renda, mas em acolhimento e empoderamento, sempre de olho em verbas públicas.

Censura econômica
O regime militar conseguiu exercer censura econômica contra o Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, na segunda metade da década de 1960 e em 1970. Não somente as estatais cortaram a publicidade, como as grandes empresas particulares também foram pressionadas a não anunciarem no jornal carioca que desde o primeiro momento fez oposição ao golpe de 64, com as crônicas de Carlos Heitor Cony que renderam o livro O Ato e o Fato. Como resultado, o matutino quebrou e o doutor Breno comprou em leilão sua rotativa.

No enfrentamento à Veja e Estadão, a ditadura não conseguiu sensibilizar os principais anunciantes, porque os dois veículos eram os verdadeiros representantes da livre-iniciativa, contra a política estatal do regime de exceção.

Marca e discurso
Empresas cortarem anúncios por não concordarem com a linha editorial do veículo não é censura econômica. É não desejar que sua marca seja associada a determinada ideia. Não é por acaso que o jornalismo ensina prudência, responsabilidade, bom senso. Para manter o espaço e o emprego.

Como recomeçar?
Quando um produto é ruim, as pessoas percebem no uso e mudam de escolha imediatamente. Na Academia e nos meios de comunicação e percepção é mais longa. Pode levar anos para se notar que uma universidade, escola ou mídia estão em decadência. Alguns custam a se desapegarem de uma TV, rádio, jornal ou revista, mas quando se dão conta não conseguem mais ver ou ouvir, nem os anúncios, nada, mesmo em programas de lazer ou esportivo.

Cada mídia tem uma cara própria. Não precisa ler o nome do impresso para saber que produto é aquele. As rádios têm uma acústica, as TVs uma aparência visual e som característicos. Mudar uma imagem pode ser um desafio inalcançável. A imprensa criteriosa sempre pensou nisso antes de se associar a determinadas bandeiras que podem ter um custo muito alto.

Somente os fortes
Passada a pandemia, sobram os sobreviventes. Alguns foram para baixo da cama, demonstrando muito medo, ironicamente aqueles com retórica mais revolucionária. Destinaram sua revolta ao próximo ou ao presidente. A morte, como sempre, encontrou as pessoas nos mais diferentes locais, em casa, nos hospitais, na fila do pão. 2020 não foi um ano perdido, como 1919 também não foi. A chamada “geração perdida” que saiu da Gripe Espanhola e da Primeira Guerra viu a morte de perto e só desejava viver.

Li “1919”, de John dos Passos. É impressionante a semelhança entre os dois anos. Os pacifistas, comunistas e sindicalistas se uniram, inclusive nos Estados Unidos, contra o presidente americano Wilson, que entrou na guerra em defesa da democracia e da liberdade e promoveu a paz na Europa. Nunca imaginei que um dia eu poderia desfrutar das loucuras da “geração perdida” de Hemingway e Fitzgerald em pleno 2021. Não vou desperdiçar o tempo.

Por Tibério Vargas
contato@tiberiovargasramos.com.br