Perdeu-se no caminho

1961
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Outro dia, um colega encarregado de elaborar edital para a contratação de jornalistas num órgão público me enviou whastsapp solicitando sugestões de livros para apresentar aos candidatos. Respondi que não me reconheço mais no jornalismo de hoje. Tirei uma foto das duas prateleiras onde guardo obras de comunicação na minha biblioteca majoritariamente de literatura e coloquei como legenda:

– Tudo obsoleto.

Sou do tempo que repórter não bebia e nem comia salgadinhos em coquetéis para não parecer que estava sendo comprado. Mantinha distância, separado, entrevistava as fontes com respeito e realizava o seu trabalho de divulgar o evento com isenção. Os fortes agradeciam convites de sinecuras – empregos bem remunerados e que exigiam pouco esforço.

Para um político respeitá-lo e temê-lo, ele não podia saber qual a sua ideologia. O presidente de clube de futebol deveria ignorar para quem torcia. Diante de sua frieza, um empresário não teria coragem de lhe oferecer um brinde. Apesar de quase morrer de fome pelo baixo salário, o jornalista tinha orgulho de sua missão.

Passo o dedo na tela do celular e jornalistas e catedráticos usam as palavras mais chulas como militantes. Que respeito podem ter por eles o patrão e o entrevistado? Como acontece a relação professor e aluno, do ponto de vista acadêmico, quando ambos chamam o presidente de Bozo e quem diverge de fascista? Garanto que os meus ex-alunos têm opiniões diferentes sobre o que eu penso. Até porque nunca fiz apologias em aula. Procurava incentivar o raciocínio de cada um. Mesmo porque nem eu sei qual é a minha ideologia, sou cheio de dúvidas, tenho poucas certezas.

Aprendeu-se a dizer que se conhece a qualidade e responsabilidade de um jornal pela capa, sua cara, e o editorial, a sua alma. A primeira página dos grandes jornais hoje distorcem informações, valorizam uma expressão sem contextualizar, procuram gerar o ódio político ou o pânico na pandemia, como um rato ou uma serpente. A palavra oficial do veículo, na página de opinião, escancara o que há de mais mesquinho em sua concepção. A alma representada por uma fumaça escura.

Os editorialistas eram escolhidos entre os redatores com experiência, cultura, ponderação e capazes de interpretar a esperada posição do jornal sobre os mais diversos assuntos, com equilíbrio, ponderação e responsabilidade. O Correio do Povo tinha um editorialista comunista, que usava suspensórios e gravata borboleta, e escrevia com a elegância e a aristocracia de um jornal conservador, numa sintonia fina com as opiniões do proprietário Breno Caldas.

Os editoriais dos grandes jornais brasileiros não são mais austeros, com imagens eruditas, posicionamentos incisivos com bases sólidas, capazes de balançar os alicerces da República. São textos chulos, panfletários, como de qualquer jornalzinho de sindicato, sem nenhuma importância, ninguém leva a sério.

Os espiões
Nos anos de chumbo, enquanto fazíamos proselitismo político inconsequente, sempre imaginávamos um dedo-duro à espreita. As roupas suspeitas ou o olhar inquisidor de alguém na mesa ao lado, no bar, já despertava pânico. O medo ou sentimento de culpa faziam desconfiar do colega da redação tímido ou solícito demais. Quantos equívocos. Na faculdade, eu tinha dois colegas que eram oficiais da Aeronáutica, o major João Barcelos de Souza e o coronel Campana. Mais velhos que a média da turma, eles entraram na Universidade mediante diploma de curso superior, a Escola Superior de Guerra. Supostamente espiões por serem militares.

O padre Tarcísio de Nadal, pároco da Igreja Menino Deus, formação de esquerda, meu amigo para o resto da vida, provocava discussões políticas na disciplina de Religião, que lecionava na PUCRS. Os oficiais ali, na escuta. Nada aconteceu a ninguém. O major Barcelos usou a passagem pela Famecos para fazer carreira como relações-públicas da Secretaria de Segurança Pública. O coronel Campana foi meu vizinho na praia do Guarani. Nunca perdi de vista os inocentes supostos espiões, como o desfecho de um filme do Leste Europeu.

Nada é meu
A ministra Carmem Lúcia, constrangida e enrolada ao mudar o voto, deu maioria no julgamento da 2ª Turma do STF que considerou suspeito o juiz Sérgio Moro para julgar a Lava Jato. Os réus confessos agora podem exigir o ressarcimento de bilhões de dólares e reais apreendidos no Brasil e na Suíça. Preparem o bolso, pois quem devolverá o dinheiro desviado na corrupção será o País. Somente Lula não poderá pedir nada de volta. Não era dele.

Por Tibério Vargas Ramos
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