O rádio surpreende na Web

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Na Famecos, histórica Faculdade de Comunicação da PUCRS, hoje com outro nome, eu costumava provocar os professores de tecnologia de que encontrara uma utilidade para a Internet: ouvir rádio. Era um visionário. Bebo vinho ouvindo música em emissoras de Buenos Aires e Montevidéu ou na Nativa de Santa Maria. Depende do meu estado de espírito: se quero selecionar um som de qualidade, viajar pelo submundo dos cabarés com o coração dilacerado na paixão do tango, cavalgar pela amplitude do pampa numa milonga ou simplesmente galopar pelo Alegrete na gaita dos gaúchos. A prenda bailando no CTG Farroupilha, vestido rodado, nos Vaqueanos da Fronteira ou no Aconchego dos Caranchos, lá na Coxilha, para os lados do Cemitério. De botas e bombacha.

A Deloitte, empresa internacional de auditoria e consultoria, com sede em Nova York, prevê que a audiência do rádio vai suplantar a da televisão em 2025. Inegável que a TV vem perdendo telespectadores para as mídias sociais, no mínimo em atenção, pois a maioria das pessoas não consegue se desligar do celular, mesmo vendo um programa, filme ou partida de futebol no televisor. É prudente não encarar como heresia a previsão da vitória do velho rádio.

O arauto da possibilidade é uma empresa fundada em Londres, no século 19, em 1845, pelo inglês William W. Deloitte, para dar assessoria às empresas britânicas de ferrovias, que se espalhavam pelo mundo. Aqui no Brasil chegou em 1911 para auditar os negócios dos ramais ferroviários britânicos que operavam no país. Hoje a sede é nos Estados Unidos, com 700 escritórios em 150 países, 12 filiais no Brasil, inclusive em Porto Alegre, na Avenida Carlos Gomes, no centro administrativo da cidade. Um total de 286.200 profissionais trabalha na Deloitte global em auditoria, consultoria, assessoria financeira, gestão de riscos e tributos.

O levantamento realizado pelos pesquisadores e analistas apurou que o faturamento global da mídia rádio, em 2019, será de US$ 40 bilhões, 1% a mais do que o ano passado, o que representa 6% de toda a publicidade. Amostra específica no Reino Unido detectou que ele está em segundo lugar na construção de marca, mas anunciantes e agências o qualificam em sexto. O preconceito do mercado contra o rádio é um desafio a ser vencido.

Estima-se que 85 % da população adulta do mundo, três bilhões de pessoas, estarão ouvindo rádio em 2025. O alcance de poderosas antenas, quando as maiores estações da União Soviética, Europa, América, Rio e São Paulo reverberavam no Brasil durante a noite, ficou no passado. A grande revolução está na Internet. As emissoras podem ser acessadas em todos os dispositivos, a qualquer hora, em qualquer lugar. Cada vez mais ouvintes interagem nos programas locais dos mais diferentes países. Uma incrível comunicação intercontinental a partir de um pequeno estúdio numa cidade qualquer.

A televisão e a mídia impressa têm calafrios diários com a perda de jovens de 18 a 34 anos, nativos da Web. Focam nestes segmentos, não conseguem atingir, e descuidam de quem está habituado à TV e leitura. Acabam negligenciando os produtos e perdem seu público nativo, que migra para a Internet.

Nos Estados Unidos, 90% dos jovens americanos ouvem rádio. Os aplicativos estão nos fones de ouvido, nas academias, maratonas, residências, no trabalho, no automóvel, no metrô. Oferece informação e entretenimento sem exigir toda a atenção, é possível fazer outras coisas concomitantes.

O rádio no Brasil atingiu seu ponto culminante nos anos 1940 e com a chegada da televisão foi perdendo espaço. Recupera aos poucos uma posição de destaque na mídia. Mas a verba publicitária destinada ao rádio no país ainda fica abaixo da média mundial. Aqui não passa de 4,5%, frente aos 6% globais. É outro preconceito a ser vencido.

Caso Daudt
Na noite fria de 4 de junho de 1988, um sábado, havia jantado com a minha mulher no Copacabana. Cheguei em casa pouco antes da meia-noite. O telefone tocou. Era o diretor da Zero Hora, Carlos Fehlberg. Disse que o Daudt (deputado estadual e comunicador José Antônio Daudt, 48 anos) tinha sido baleado e determinava que eu me dirigisse imediatamente à redação para mobilizar os repórteres policiais numa cobertura especial. Ele ainda estava vivo no Pronto Socorro, ferido por um disparo de carabina calibre 12, cano serrado, e seus amigos mais íntimos tinham certeza de que o autor do atentado era o também deputado Antônio Dexheimer, ambos do PMDB. O motivo do crime apresentado era um suposto caso amoroso da vítima com Vera Mincarone, então esposa do acusado. A versão, para preservar a memória de Daudt, era inverossímil. O delegado Wilson Müller quis fazer uma investigação a partir da vida particular do morto para chegar ao executor, que até podia ser Dexheimer, que tinha um Monza azul, descrição do carro visto no local do assassinato, possuía uma arma 12 e na hora do homicídio andava sozinho no automóvel e não tinha álibi. O Chefe de Polícia vetou a intenção e afastou Müller do caso. Era para manter a versão das testemunhas. O final todo mundo sabe. O notável Lia Pires absolveu o réu facilmente no Tribunal de Justiça do Estado, em 1990, porque o motivo do crime não se sustentava.

Marielle Franco
Passados 30 anos estamos diante de caso semelhante. A vereadora carioca Marielle Franco, 39 anos, do PSOL, foi executada com três tiros na cabeça e um no pescoço e seu motorista assassinado com três balaços nas costas. Foram disparados nove projetis na lataria e quatro nos vidros do Chevrolet Agile branco, na Rua Joaquim Palhares, no Estácio, Rio, às 21h30min de 14 de março de 2018. As vítimas tinham saído de uma reunião temática na Casa das Pretas, Rua dos Inválidos, na Lapa. A versão política do crime, que cruzou os mares, provocando manifestações até em Paris e Londres, era de que Marielle, uma defensora dos direitos humanos, fora morta por policiais arbitrários e corruptos da repressão brasileira.

A narrativa sensibilizou as pessoas, mas não se confirma. A queda de dois prédios clandestinos na Muzena, região oeste carioca, em 12 de abril, desnudou o conluio existente do Rio de Janeiro entre milícias, traficantes, ex-PMs, policiais corruptos e partidos políticos de esquerda. Edifícios ilegais em áreas de preservação ambiental ou invadidas têm os apartamentos vendidos sem nenhum registro, num mundo paralelo. Tudo é dominado pelo crime: drogas, luz, água, telefone, transporte e a política. Na Vila Cruzeiro, em Porto Alegre, já tem apartamentos clandestinos para vender. Vão descobrir quando cair o primeiro prédio irregular.

Nascida no Complexo da Maré, Marielle foi feirante, dançarina profissional de funk, formou-se em Ciências Sociais da PUC-RJ e fez mestrado em Administração Pública. Trabalhou dez anos no gabinete do deputado Marcelo Freixo, na Assembleia, e se elegeu em 2016 com a expressiva votação de 46 mil. Mãe de uma menina, dois casamentos, um com homem e outro com mulher, foi jogada na jaula dos leões, sem nem o chicote do domador para entreter as feras. O PM reformado Ronnie Lessa, 48 anos, está preso acusado de ser autor dos disparos, e Elcio Vieira de Queiroz seria o motorista do Cobalt visto na cena do crime. Quem sabe não revela o motivo da execução.