Jornalista de fardão

COMPARTILHAR

O mais novo acadêmico é um jornalista. Ignácio de Loyola Brandão, de 83 anos, que escreve coluna semanal em O Estado de São Paulo, assumiu em 18 de outubro, uma sexta-feira à noite, a cadeira 11 da Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio. Eleito por unanimidade em 14 de março, ele substituiu o sociólogo Hélio Jaguaribe, morto no ano passado. O colar de acadêmico foi entregue pelo ex-ministro de Relações Exteriores, Celso Lafer, também articulista assíduo do Estadão.

Paulista de Sorocaba, ele começou no jornalismo na mitológica Última Hora de Samuel Wainer. Foi correspondente na Itália e mais tarde na Alemanha. Esteve em Havana, a convite do governo comunista, para participar de um júri cultural junto com Fernando Morais, autor de A Ilha, Chico Buarque e Marieta Severo, na época um casal. A viagem rendeu o livro-reportagem Cuba de Fidel: Viagem à Ilha Proibida, de 1978. Entre outras obras literárias é autor do romance Não Verás País Nenhum, de 1981, e a obra infanto-juvenil O Menino que Vendia Palavras.

No discurso de recepção a Loyola, o presidente da ABL, Marco Lucchesi, o qualificou como um “puro-sangue radical”. A ecologia, a preocupação com o futuro do planeta e a ironia marcam as obras do jornalista. Ao agradecer sua indicação à Academia, ele destacou o pai, Antônio Maria, um ferroviário de razoável salário que lhe transmitiu o hábito da leitura. “Aprenda as palavras e sua vida será mais fácil”, ensinou o pai.

Com uma metáfora da mãe, dona Maria do Rosário, escolhendo feijão numa mesa para retirar as pedras e os grãos defeituosos para colocar de molho, o novo acadêmico deu uma aula de jornalismo. “Veja como ela escolhe os mais perfeitos, os mais bonitos. Lembre-se disto ao escrever”, ele recordou o comentário do pai ao ver a cena. Imagino que numa noite, depois do jantar, o ruído e a trepidação dos trens lá fora. Limpe o texto, corte o supérfluo. O feijão no dia seguinte estará saboroso.

Brandão participa da quase unanimidade da imprensa anti-Bolsonaro. “O primeiro governo à distância do Brasil”, ironizou no discurso a influência de Olavo de Carvalho sobre o presidente. Apesar do passado alinhado, com uma ode a Cuba entre suas obras, ele diz que hoje não é de esquerda, nem direita. “Sou um democrata, acho”, definiu-se. E criticou que “ninguém mais tolera a opinião do outro, a crença do outro, a política do outro, nada”. Identificou a situação vivida no Brasil. “Existe ódio, isto me incomoda muito”, reconheceu.

A uma pergunta da revista Cult com base na brincadeira usada pelo New York Times, quem você convidaria para jantar, escritores mortos ou vivos, ele respondeu: “Hemingway, Graciliano Ramos e Erico Verissimo”. Assino embaixo. Sobre a imortalidade que adquiriu, ele disse que tem muitos projetos. “Tenho 83 anos e a vida toda pela frente, mesmo que sejam apenas sete dias.” Frase de arrepiar. Em sua primeira coluna como imortal, publicada no Estado em 25 de outubro, ele zombou de si mesmo. “Procurei os óculos e não sabia onde os deixara, o fardão não tem bolsos.”

Tecnologia e Imprensa
O monopólio dos Correios, a partir de sua criação, em 1791, na transmissão das informações, transferiu para as redes sociais, que passam a capturar a publicidade, antes destinadas na maioria para a imprensa. Um dos reflexos é a diminuição de postos de trabalho para jornalistas, que chega a quase 50 % nos Estados Unidos, com os veículos sufocados pelo Google e o Facebook. Como principal consequência está o conteúdo falso que circula.

Com uma metáfora da mãe, dona Maria do Rosário, escolhendo feijão numa mesa para retirar as pedras e os grãos defeituosos para colocar de molho, o novo acadêmico deu uma aula de jornalismo. “Veja como ela escolhe os mais perfeitos, os mais bonitos. Lembre-se disto ao escrever”.

Em 200 anos de jornalismo, a Imprensa desenvolveu mecanismos para refrear a informação publicitária e restringi-la. Não só a comercial, como a política. Na tecnologia, estes filtros não existem. Neste quadro, a democracia depende da salvação do jornalismo como mediador para que não impere uma terra de ninguém. Parte das verbas da propaganda devem ser canalizadas para os veículos e a arte, se não quisermos renunciar à busca da verdade em toda a esfera pública.

Pecado Original
Tudo começou quando Lula conseguiu uma aposentadoria especial por ter perdido um dedo. O resto é consequência. A serpente se desenvolveu. A fruta brilhou como uma maçã argentina. Adão e Eva não resistiram e morderam. Estão loucos. Querem recuperar o prazer do pecado.