A Folha e o Poeta

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A virada da Folha de S. Paulo que a transformou no mais importante jornal brasileiro começou em 1983, no início da campanha das Diretas Já. Junto com uma modernização gráfica, corpo de texto maior, diagramação mais arejada, o jornal abriu espaço nobre para opinião nas páginas 2 e 3, publicando não só crônicas e artigos, como também ensaios, com posições divergentes. Passou a dar ampla cobertura para todas as manifestações a favor de eleições livres para Presidente da República e em 1984 incluiu dois fios verde e amarelo sublinhando o logotipo. O Estadão e O Globo custaram a aderir ao anseio popular, facilitando o desenvolvimento da Folha.

Em 1990, o matutino paulista trouxe para a imprensa brasileira um novo paradigma: o erramos. Sempre que era veiculada uma informação errada, no dia seguinte aparecia um pequeno quadro, reconhecendo o equívoco. Não recuperava a imagem da pessoa ou instituição prejudicada, uma vez que o reparo não vinha na mesma dimensão, mas de certa forma dava credibilidade ao veículo.

Reconheço a importância da Folha no Jornalismo brasileiro ao nível de Última Hora, Padrão JB, Realidade, Veja e a diagramação do Jornal da Tarde de São Paulo, as revoluções em meio século de imprensa no Brasil. No entanto, não gosto da sua impressão muito escura, a paginação como camiseta do Botafogo, na vertical, sem as diagonais ensinadas por Michelangelo na Renascença, além do texto primário do noticiário, com frases soltas, sem estruturação de parágrafos. Segue a tendência histórica dos informes das agências de notícias, explicado pelo texto ser traduzido frase a frase por um não jornalista ou escrito na corrida, no local dos fatos.

Pela primeira vez em tantos anos a tiragem da Folha foi superada pelo Estadão em cinco mil exemplares. É pouco, mas significativo, porque vem num momento em que o jornal assumiu uma postura de oposição. Sempre quando a imprensa toma partido, ela pode se fortalecer, como em 1984, por estar do lado certo, mas perde leitores que não se identificam com a causa, ainda mais quando suas matérias de hoje se baseiam em escutas ilegais e bandeiras discutíveis.

O Estado de S. Paulo agradece. A diferença de leitores pode ser maior porque a Folha sobra nas bancas e o Estadão esgota, por distribuir o número menor possível de exemplares para evitar o encalhe e o gasto de papel. Tanto em Florianópolis, quando visito a minha mãe, como na banca da Getúlio, no Menino Deus, em Porto Alegre, eu tenho de reservar exemplares para poder ler meu jornal preferido, por ter uma diagramação clássica, texto de qualidade e conteúdo superior.

A luz da manhã
Lecionei gerações de jornalistas, não fui coach deles. Ensinei a seleção da informação de relevância, não hard news. Como trabalhar o entretenimento, não soft news. Na crise da Caldas Júnior, eu recebi vales no fim de semana, não voucher. Lembro-me de versos de um poema de Catulo da Paixão Cearense: “(…) demos um pouco de trégua a tanta coisa estrangeira (…) são orfeus, são divindades, eu só sei cantar saudades (…) aqui não canta um galo estrangeiro, canta um galo brasileiro saudando a luz da manhã.”

Dissimulado
Com nome fictício e alegando problemas para conviver com o fato de ser gay, o repórter da revista Época, João Paulo Saconi, contratou a jovem e bela psicóloga Heloisa Bolsonaro para uma terapia on-line, não por acaso a esposa do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente. Em cinco sessões, ele conseguiu enveredar o assunto sempre para a religião e política. Ao final, produziu uma reportagem: “O coaching on-line de Heloisa Bolsonaro: as lições que podem ajudar Eduardo a ser embaixador.”

Em nota oficial, a Globo admitiu o erro de sua revista impressa com base nos Princípios Editoriais definidos pelo grupo de comunicação em 2011. A alegação é de que a jovem não podia ser exposta por estar desempenhando sua função profissional licitamente e não ser uma figura pública. Se fosse, sua vida privada poderia trazer “fatos relevantes para julgamento” e justificaria ser vasculhada.

Errado. A nota pega um formalismo e deixa de admitir que o repórter errou porque usou identidade falsa e alegou uma tendência supostamente dissimulada ou verdadeira para fazer a psicóloga falar do que pensa da vida e de seu marido. Foi mau caráter e cruel. Acabou em demissões.

Solidão
A hipercomunicação do mundo moderno está promovendo isolamento e solidão iguais ao deserto, os celibatos, os retiros espirituais, as solitárias nas prisões, as filhas isoladas em celas para preservar sua pureza, o campo, os eremitas, as torres e as bibliotecas do passado.