Sangue de barata…

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Pois é, veja como são as coisas! Se eu digo ou escrevo que você é como este pecilotérmico de 400 milhões de anos (com quase setecentas espécies no Brasil, cinco das quais em ambientes urbanos), poderia estar te elogiando por revelar o sangue frio necessário nas horas difíceis. Ou estaria te chamando de covarde. O povão prefere a opção crítica. Assim, acusar alguém de ter sangue de barata normalmente significa ofender e desafiar para briga.

 A edição de 24 anos de uma revista estimula algumas abordagens. Um caminho pode ser o louvatório, destacando a multiplicidade da oferta de conteúdos factuais de qualidade e a guarida sem ressalvas editoriais às produções opinativas assinadas. Também, é possível enveredar pela análise da solução “duas-em-uma” que uniu Press e Advertising, a migração para edições digitais e demais enfoques dos desafios financeiros inerentes à difícil condição de publisher.

Outra abordagem, quem sabe, aproveitaria o gancho para mesclar passado e presente citando, entre inúmeras, a gaúcha Signos (Walter Galvani), Cadernos de Jornalismo e Comunicação (Alberto Dines, para o Jornal do Brasil), Bloch Comunicação (Editora Bloch), Imprensa (Dante Matiussi e outros). Sem esquecer a Revista de Comunicação (Mário de Moraes e Alfredo de Belmont Pessôa).  Sim, aquela que a Coca-Cola patrocinou durante 14 anos. Para saber mais sobre ela, corra para o texto de Antonio Hohlfeldt e Rafael Rosinato Valles intitulado Conceito e história do jornalismo brasileiro na “Revista de Comunicação”.

Nova possibilidade. Destacar que, folheando edições da Press/Advertising, poderíamos entender alguns meandros da administração local do negócio da comunicação. Nelson Sirotsky revelou que o lançamento do Diário Gaúcho canibalizou 10% da venda avulsa da Zero Hora? O Jornal do Comércio começou como um boletim mimeografado? Pedro Parente, quando por aqui esteve, considerava que comprar jornais do Interior era estratégia muito mais barata do que lançar concorrentes nas respectivas praças? Renato Ribeiro decidiu pessoalmente reduzir o Correio do Povo de standard para tabloide e estabeleceu a meta de 500 mil assinantes? Um alerta: nem todas as respostas estão lá…

Especulo possibilidades editoriais para a presente edição. Presumo que tenha uma angulação comemorativa. Isto seria o óbvio e o óbvio é bom. Talvez, ela arrisque avançar sobre a dimensão do “normal” no jornalismo pós-pandêmico. Seria muito arriscado sem bola de cristal, mas assumir o risco não é óbvio e por não ser óbvio é mais do que apenas bom. É absolutamente necessário, tangenciando o imprescindível.

Ou, finalmente, quem sabe esta ou a próxima fornada de páginas impressas ou digitais venha, como pão quente, a alimentar estômagos e cérebros sequiosos de polemizar sobre as adjetivações lançadas sobre opiniões alheias? Não é só nas redes insociais que as ofensas medram sem medo e vicejam quase impunes. Quando o que poderia ser considerado injúria, difamação ou calúnia vira questão judicializada, o discurso do ódio passa a tentar desconstruir a Justiça e os Operadores do Direito

No jornalismo, hoje, a opinião ponderada vive ameaçada. É aquela que esgrime com o apoio da ciência e do bom senso, respeita e abre espaço para o pensamento divergente; é a que não se apresenta como guardiã das verdades; é a que busca conexão empática com quem pensa diferente. A opinião ponderada, que pena, virou a Geni do jornalismo.

Calar ante discursos intencionalmente fraudulentos pode ser demonstração de frieza, de estar em plano acima da discussão histérica — por isso mesmo estéril.  Mas vem mais chumbo grosso pela frente e uso esta metáfora tão familiar a determinados grupos que estão testando a democracia e suas instituições para garantir que não tenho sangue de barata. Constituição Cidadã em uma mão, título de eleitor na outra, deixo claro que por cima de mim ninguém vai passar a boiada.

Por Mário Rocha
mario.rocha@ufrgs.br