Caluda! Respeite a crise do professor…

1465
COMPARTILHAR

Este porto de orla alegre virou febre de frequência e ajunta contribuintes irresponsáveis da febre alheia. Nele, há um empreendedor resiliente e criativo que passou a descrer da validade do ensino de jornalismo. Também há multipremiado jornalista internético que se afirma blogueiro e, apesar de alguns rompantes quase justificáveis, é ou era minha leitura diária indispensável. Se não discordar deles, como seguir lecionando nesta pandemia comunicacional, minha Nossa Senhora da Boa Viagem?

 A década de 1970 ainda engatinhava quanto eu andei de barco pela avenida que homenageia a tal Santa e fica na beira do rio que não é rio. Sim, em ilha que olha para a mui leal. O assunto da reportagem era a enchente que afligia a população. Meio século após, tudo como dantes no quartel de Abrantes. Quantas pautas realizadas, imagens e sons produzidos para… nada? É de desanimar.

Tempos depois, eu, grevista demitido por justa causa pela empresa pré-falimentar, lá estava de volta às mesmas salas de aula onde recebi a formação necessária para obter o diploma em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo Gráfico e Audiovisual.  O repto presumido: pensava em transmitir a experiência adquirida como repórter regular nunca premiado e muito bom subeditor e editor de jornal impresso. Seguia atuando em assessorias de imprensa, em consultorias de imagem pessoal e organizacional e no trabalho voluntário (sem $$) em associações de bairro e da imprensa.

Mas, e em 2020? Como se já não bastasse a cassação da lei que garantia pseudo reserva de mercado aos diplomados, veio a crise no negócio da comunicação; aconteceu a transformação do povo receptor em emissor (e produtor!) de algo vagamente assemelhado a notícias; do nada, surgiu vírus bicho-papão para assustar  a gente! Como ser professor ou aluno de jornalismo quando Caronte aumenta as viagens para Hades e a aula presencial é particularmente perigosa para os detentores de comorbidades (argh!) ameaçados por comportamentos sociais alheios prenhes de negligência arrogante, criminosa mesmo?

O caminho fácil é a retirada sem perda nos proventos da aposentadoria e liberação das responsabilidades docentes. Com ganhos evidentes em autonomia de vida. Esta seria uma saída honrosa? Não daria razão, por vias transversas, ao empresário e ao autodenominado blogueiro?  O que fazer São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas e escritores??

Comunico que seguirei ensinando jornalismo. Um motivo menor é a comemoração do meu cinquentenário de atividades exclusivas na área da Comunicação Social lá no segundo semestre de 2021, pois foi em 1971 que ingressei na Caldas Júnior.  Há outros.

Mas o que pesa mesmo é a responsabilidade social. Acredite quem quiser. Ser professor não é ter um emprego. Ajudar a formar excelentes jornalistas é um desafio que vale a pena. Há inúmeros por aí, estejam em evidência ou não.  Só que ir avante não é tão simples assim. Há dois distanciamentos necessários. Um é o físico, vigente até a disponibilização da vacina antiviral indispensável a quem, como eu, tem hipertensão, diabetes e câncer. Além de uma unha encravada que incomoda mais do que estas três comorbidades (de novo, argh!) juntas.

O outro distanciamento é da inércia de quem — docente ou discente — está sem energia para mudar e contribuir para a mudança. O cenário já era outro antes da pandemia, mas dava para ir levando. Não mais. Ou repensamos, individual e coletivamente, o ensino de jornalismo…  Ou passamos, imediatamente, a praticar o repensado…  Ou…

Ou os dois negacionistas do ensino acadêmico do jornalismo enxergam bem demais, ao longe e de perto.