A Imprensa não pode deixar que a imprensem…

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O grande problema de quem produz conteúdos jornalísticos e/ou administra empreendimentos do setor são dois: primeiramente, os resultados pontuais positivos sobre os quais é mister ufanar-se, merecidamente; segundamente, confiar em que eles e as ações igualmente pontuais contra as ameaças são suficientes para erradicá-las.

Listo algumas meritórias iniciativas e começo pelo Prêmio Press. Eu estava lá, no Dante Barone, honrado pelo convite para integrar o júri final (deu muito trabalho pesquisar sobre quem não conhecia para poder votar com critério) e feliz pela repercussão renovada da festa.

Já acompanhei congressos das associações dos jornais do Interior do RS – ADI e ADJORI. Testemunhei a energia dispendida para fazer do limão mais do que limonada ao agregar vitaminas, sais minerais e outros ingredientes ao negócio da comunicação. E vem aí o Prêmio ARI de Jornalismo, promovido pela Associação Riograndense de Imprensa. Outros certames, ao longo de 2019, evidenciaram a qualidade da produção de repórteres e editores.

Nas escolas de jornalismo multiplicam-se as propostas que ultrapassam muros e cercas, escoimando visões anacrônicas de autossuficiência do tipo “o mercado que se lixe”. Espontâneas ou forçadas pelos novos tempos e novas Diretrizes Curriculares para o ensino da profissão, passam a estimular interações, criam produtos inovadores, identificam-se com a determinação de que os produtos laboratoriais devem dirigir-se a públicos reais.

Há boas histórias empresariais para contar sobre sucessos na fidelização de leitores e ampliação da sua base. Ôps! Ampliação, não! Fica melhor trocar por contenção do êxodo, recuperação dos extraviados e captação de novos interessados em qualidade informativa, independentemente da plataforma de acesso. Os modelos tradicionais de organização do negócio são renovados; outros desenhos estratégicos avançam para o equilíbrio financeiro calcados em identificação de nichos e/ou contribuição retributiva.

É por aí. Há muito mais para elogiar e lamento as omissões.

Tudo muito importante. Tudo insuficiente.

Há uma movimentação enorme contra o Jornalismo. Parte dela eu quase escrevo que é orquestrada, mas recuo porque da orquestra provém conjunto sonoro resultante da harmonia entre os naipes de cordas, de madeiras, de metais e de percussão. Prefiro apontar o dedo para o compositor solo, o instrumentista idem, o indivíduo regente. É quem quer lastimar a atividade jornalística tentando capar os testículos da legitimação profissional e da captação de recursos financeiros. Quer uma imprensa produtora de textículos fúteis, nunca de reportagens investigativas. E o quer devido a um pouco de estratégia e a um muito de ressentimento.

As mentiras publicadas em redes sociais solapam também a credibilidade da imprensa para quem não distingue entre uma postagem desconectada da realidade dos fatos e aquela que se revela ponderada, aberta a posições contrárias e estimuladora do debate. Uma, fascinada pelo número de cliques e comentários favoráveis; outra, respeitosa com o pensamento divergente, com o ceticismo típico de jornalistas que sabem que a realidade noticiada é a versão mais próxima que foi possível produzir sobre aquilo que realmente aconteceu.

Somente a concertação olha para o futuro, posto que consertações são isso mesmo: remendos.