2021, 2022, 2023… Dicas para preparar uma estante de prêmios

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Bah! Acho supimpas as premiações online em que, quase displicentemente, vencedoras e vencedores deixam entrever seus troféus e diplomas compondo o fundo. Há quem faça questão de apontar e isto não é ostentação. Não são poucos os exemplos de quem – orgulho merecido! – mostra cumulativamente Prêmios Press e Prêmios ARI. Eu, jurado de ambos há muito e de inúmeros outros concursos assemelhados, não tenho o que mostrar. Snif!

Na verdade, na verdade, a estante aqui em Imbé está bem fornida. Mas falarei deste assunto que me interessa tanto – eu mesmo – lá para o final do texto. Agora, quero me dirigir a quem aceitou, incentivou ou fez tudo o que podia para angariar votos no Prêmio Press que bateu mais de um milhão de indicações. Mas não ficou entre os finalistas…

Meu foco também são os autores não premiados com produções jornalísticas encaminhadas para o mais antigo certame existente no país – 62 edições! –, sim, aquele promovido pela Associação Riograndense de Imprensa.

Pense em mim como Val Valentino. Boiou? Ok, dou uma pista. É o nome artístico de Leonard Montano. Afundou? Então vamos à resposta. Trata-se de Mister M. O ilusionista que resolveu contar os segredos dos truques da magia, irritando seus pares e muitos ímpares – os espectadores – para quem a perda das ilusões foi duro golpe. Passo, portanto, a esmiuçar o que é importante para botar a mão no troféu. Vou revelar como funciona a cabeça dos jurados ou, pelo menos, como funciona a minha na hora do clique decisivo.

Comecemos pelo essencial. Prêmio Press e Prêmio ARI são imensos, fantásticos. E são diferentes, muito diferentes. O concurso promovido e operacionalizado pelos incríveis Julio Ribeiro e Nelci Guadagnin, há 21 anos, consagra pessoas que até podem ser surpreendidas pela mobilização em torno de seus nomes. O Prêmio ARI avalia trabalhos específicos formalmente inscritos e lhes confere uma hierarquização qualitativa. A coordenação é do diligente Paulo Eduardo Barbosa Santos, que sucedeu ao Antônio Goulart e eu precedi a ele. Antes de mim, não sei.

Tenho sido um dentre as “mais de 50 personalidades do mundo empresarial, institucional e da Comunicação do Rio Grande do Sul” (uau!) que fazem a escolha final do Press. Não voto por amizade nem por simpatia. Em muitas categorias, topo com nomes que me são totalmente desconhecidos. Faço o tema de casa. Passo um bom tempo procurando por eles em saites, veículos tradicionais e mídias sociais. Quem já conheço também vira alvo. Quero confirmar que continua sendo quem eu tinha certeza quase absoluta que era.

Veja que valorizo a trajetória. Quem é mais visto/vista é mais lembrado/lembrada. Então, vamos à dica: multiplique-se! Em escala aritmética, no mínimo, mas geométrica é muito melhor. Circule por variados espaços presenciais e virtuais. Seja diferente, sem perder a essência. Quem vai pouco ao ar, perde o lugar. Aí então, quando você estiver na lista dos jurados, é possível que seu nome não seja uma marca-surpresa.

Construa a Persona que dormita dentro de você. Coloque-a pra fora cuidando para não exagerar na dose. Tá difícil? Você já ouviu falar no Rei Sol, que governou a França durante um montão de décadas? Leia a obra clássica do historiador Peter Burke intitulada A fabricação do rei: a construção da imagem pública de Luis XIV. Lembre que não havia rede social e a imensa maioria da população era analfabeta. Circulando, você conhece mais pessoas, formas redes de afetos e aí, bingo! Você estará mais perto do Top Five do Prêmio Press. E das tais “cinquenta personalidades”…

Para ganhar um Prêmio ARI a estratégia é diferente. Tua história profissional não é levada em consideração. Simpatia não conta, amizade muito menos. Você é o que você inscreveu. Não estarás competindo contra colegas, mas contra os trabalhos deles na mesma categoria. Como no Prêmio Press, jurados não conversam entre si. Apenas pontuam. Um programa soma as notas e aponta quem venceu. Simples assim.

Primeira dica: qualidade total! Qualquer ruído na comunicação pode ser decisivo. Uma legenda truncada, uma gaguejada, uma imagem que podia ter sido mais impactante, uma fonte importante esquecida, há tanta coisa que pode derrubar a nota! O mais importante, porém, parece-me que é resolver a equação que inclui relevância e impacto e criatividade. Um tema batido pode explodir com a abordagem certa!

Ajudei a ganhar Prêmio Press ou Prêmio ARI? Ou escrevi um monte de abobrinhas e você perdeu tempo lendo até aqui? Por favor, não pare agora! É que vou justificar o título deste artigo. Não tenho troféus dados por eles. No ARI, porque nunca me escrevi; no Press, porque não tem a categoria Professor – tem até Estagiário/a do Ano, oh raios!  Se tivesse, nem eu votaria em mim.

Tenho orgulho da minha estante. Ali estão os testemunhos metálicos de competições de xadrez. Ganhei título estadual estudantil e torneios variados, incluindo um tricampeonato praiano. Também há os de pôquer, na modalidade Texas Holden, como um disputadíssimo no Tronix Club do Shopping Total. Após acordo com o derradeiro oponente, rendeu meio carro popular para cada um. Nada de jogo de azar, está provado que o pôquer é jogo de habilidade e a sorte entre apenas como um dos fatores do sucesso.

Prêmios jornalísticos que destacam personas potenciais ou já formadas e suas produções também não são obra do acaso. São resultados da competência em relacionamentos somada a currículo (Press) e da produção pontual, episódica, de textos, imagens e falas (ARI). Como alguém que os recebe poderia deixar de orgulhar-se?

CONVERGÊNCIA – Sons e imagens seguirão mesclando-se em vários suportes midiáticos. Os referenciais tradicionais da imprensa escrita em papel, do rádio Capelinha, da tevê com botão para sintonia fina, do super-8, da foto em p&b, tudo ou vai ou já foi. Só que não…

RESISTÊNCIA – Tecnologia não é tudo de bom. Os nascidos digitais chegam buscando experiências diferentes, mas e os aderentes tardios? E os não aderentes? Quem cuidará deles – nós – e durante quanto tempo?

PUREZAS – Há sabor em um podcast, em um texto farfalhando em várias páginas, em flagrantes televisionados e documentários aprofundados, basta explorar adequadamente a temática e os recursos dirigindo-os para quem mantém intactas as suas papilas gustativas.

HIPERLOCAL – Canta (conta) tua aldeia, tua gente. Os grandes números da audiência não são um fim em si mesmos, as não ser para megaempreendimentos. O buraco na rua continua importante para alguém e segue como desafio a reportar.

CEBOLAS E ABACAXIS – O fato “real” é o que sobrou quando repórteres extraem várias camadas da cebola, as versões. Mas tem quem queira nos fazer mastigar abacaxis sem tirar a casca. Isto machuca a verdade, abala a ética, reduz a confiança no jornalismo.

Mario Rocha é jornalista e professor da Fabico/UFRGS