Quanto valem os seus dados?

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Se o século XX, em termos econômicos, foi a Era do Petróleo – devido à importância que essa matéria-prima adquiriu para a manutenção das sociedades -, o século XXI está cada vez mais se revelando como a Era da Informação.

A riqueza, hoje em dia, pode ser baseada em dados, coletados do público consumidor. Foi dessa forma que empresas relativamente jovens, como Facebook e Google, instalaram-se rapidamente entre as maiores e mais lucrativas companhias do mundo. A informação que fornecemos no mundo digital é o combustível que move os negócios e as decisões de empresas.

Recentemente, a organização Future Majority – um grupo para estratégias do Partido Democrata, nos Estados Unidos – publicou um estudo sobre a importância da informação que deixamos na internet. Segundo o levantamento, atualmente, apenas no mercado norte-americano, a extração de dados pessoais na rede é um negócio de US$ 76 bilhões. Em 2022, essa cifra deve chegar a US$ 200 bilhões. Mas, globalmente, os valores devem muito maiores. Afinal, em 2018, considerando-se as operações em todo o mundo, apenas o Facebook gerou US$ 55 bilhões em receita de publicidade, enquanto o Google apurou US$ 116 bilhões no mesmo período.

Se informação é o novo petróleo, então Google, Facebook, Amazon e outras grandes empresas tecnológicas são, naturalmente, seus maiores extratores. Mas, praticamente todo tipo de companhia está buscando entrar nessa mina de ouro, que basicamente damos de graça para elas.

Pense nisso por um momento: os seus dados são, para essas big techs e outras empresas que os coletam, o principal insumo de sua produção – para muitas, o único insumo real, além da força de trabalho. Imagine se a GM ou a Ford não tivessem que pagar pelo metal e borracha utilizados em seus carros, quais as margens de lucros que teriam?

Esse é o modelo de negócios que alguns estudiosos já chamam de “capitalismo de vigilância”. Nele, nós fornecemos — de graça — a matéria-prima usada para fazer a plataforma que vai nos “vender” para os anunciantes. E isso em um mercado que apresenta pouca clareza sobre suas operações.

Tendo isso em vista, cresce um movimento de políticos e representantes de consumidores que buscam responder a duas perguntas: quanto valem, realmente, nossos dados; e deveriam as empresas que se beneficiam deles nos dar um pedaço da riqueza que nossas informações geraram?

Em junho, foi apresentado no Senado dos EUA um projeto de lei que forçaria as empresas de mídias sociais a revelar quais as informações que coletam de seus usuários e como se beneficiaram delas. O projeto também ordena que a Comissão de Valores Mobiliários norte-americana (SEC, na sigla em inglês) determine uma maneira de calcular o valor das informações de consumidores coletadas por companhias com mais de 100 milhões de usuários. A lei não forçaria as empresas a pagar pelos dados, mas outras propostas em consideração nos EUA já falam em algum tipo de “dividendo de dados”, que compensaria, de alguma forma, os consumidores pelo que lhes foi extraído.

A discussão sobre a justiça ou não de pagar o consumidor pelo uso de seus dados ainda está em estágio inicial. No entanto, o fato é que hoje, os usuários de mídias digitais estão ajudando empresas a ganhar dinheiro com uma matéria-prima gratuita: suas vidas on-line. E, tendo em vista os constantes vazamentos de dados por ataques de hackers a empresas e órgãos, ou as revelações de fornecimento de informações a terceiros sem consentimento (como o escândalo envolvendo o Facebook e a consultoria Cambridge Analytica), as companhias a quem confiamos nossas informações estão constantemente falhando em preservá-las.