Os 70 anos de 1984

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“Não haverá curiosidade, nem apreciação do processo da vida… Mas sempre… haverá a intoxicação do poder… a excitação da vitória, a sensação de destruir um inimigo indefeso. Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota pisando um rosto humano, para sempre”.

Essa é uma das passagens mais marcantes do livro 1984, de George Orwell. Publicada há exatos 70 anos, a obra é, talvez, a maior distopia de todos os tempos. Ela criou um mundo onde forças totalitárias reinam supremas, dominando e vigiando uma sociedade marcada pelo medo, ódio e completa falta de liberdade e prazer individual.

No livro, Orwell apresenta uma versão do Reino Unido – descrito como uma região do país Oceania – dominada por um governo “ultratotalitário”. Todos devem obedecer ao partido, representado por um líder máximo, o “Grande Irmão”. É um Estado onde impera a vigilância em massa, com câmeras em cada lar, e onde os cidadãos delatam uns aos outros. Essa falta total de privacidade e a necessidade de se conformar ao pensamento do governo são, constantemente, lembradas pelo slogan “O Grande Irmão está de olho em você”.

Um dos aspectos mais interessantes é que essa sociedade tão terrível só consegue permanecer por causa da propaganda. Seu uso intensivo faz com que as pessoas considerem esse modo de vida reconfortante. Elas colocam imagens do Grande Irmão em suas casas, venerado quase como do mesmo modo que uma figura religiosa. Seu olhar vigilante deixa a população segura e descobre traidores. Ao menos é isso que todos acreditam, porque é isso que contam a eles todos os dias.

A razão pela qual esse cenário de pesadelo é considerado uma benção é porque os habitantes são levados a crer que a alternativa é ainda pior. O mundo está em um constante estado de guerra. Os prédios bombardeados são deixados em ruínas, e a comida é racionada frequentemente. Os serviços do governo são quase inexistentes. Todo progresso científico é limitado a atividades militares e de propaganda.

Muito do trabalho executado era dedicado à propaganda. Jornais são constantemente reeditados para remover os nomes e fotos de pessoas que não são mais aprovadas pelo partido. Discursos são feitos explicando como o mundo fora de Oceania é terrível e mau. Todos os dias, ocorre o ritual dos “dois minutos de ódio”, onde os habitantes assistem imagens de inimigos do Estado e expressam sua raiva contra eles. Orwell descreve o que era fazer parte disso: “Ninguém era obrigado a participar. Mas era impossível evitar juntar-se ao grupo. Em 30 segundos, qualquer desculpa era desnecessária. Sentia-se o êxtase do medo e da vingança. Um desejo de matar, de torturar, de esmagar faces com um martelo, parecia fluir pelo grupo de pessoas como uma corrente elétrica… Mas essa raiva era abstrata, sem direção, e podia ser mudada de um alvo para outro.”

Essa ideia é o coração do livro. Se essa sociedade é tão má, então porque as pessoas não se revoltam? No longo termo, elas poderiam. Como o personagem principal, Winston, elas podem nutrir um ódio interno pelo partido e querer vê-lo destruído. Mas, a população é constantemente distraída desses pensamentos por ódio, seja aos estrangeiros, seja aos “inimigos do Estado” ou qualquer um que tenha um pensamento divergente. A ideia que Orwell apresenta, tão atual hoje como há 70 anos, é que, com o uso da comunicação, governantes sutis e brutais podem mover os sentimentos de insatisfação, de ódio não direcionado de uma sociedade, e aponta-los para onde quiserem. Dessa forma, os tiranos usam a nós mesmos para nos condenarmos.