Nós e nossos retratos

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Outro dia, o Rodrigo Moraes, nosso diretor de arte, comentou: “Eu sou o único cara da comunicação sem uma foto em P&B com pose de sabichão”. E aí eu me lembrei de uma cena clássica de empresários e políticos, nas décadas de 60/70, que pousavam para fotos simulando um telefonema.  A ideia era parecer uma pessoa importante, com altos contatos, quem sabe ligando para São Paulo ou Brasília. É bom lembrar para a gurizada de apartamento, que telefone era muito caro nessa época, uma coisa da elite e que fazer um DDD era sinal de importância. Então, a semiótica envolvida na foto era essa.

Mas, isso sempre foi assim, em cada época da humanidade e desde que o ser humano passou a se deixar retratar, sempre houve um significado oculto, uma intenção que orientava a pose e o ambiente da imagem.

Nos tempos em que ainda não existiam máquinas fotográficas, pintores ganhavam a vida produzindo retratos de pessoas importantes. Reis eram pintados de pé, com o nariz empinado, com a mão estendida sobre o cetro. Tudo remetia a poder, majestade e segurança, porque era isso que ele queria que seus súditos sentissem quando mirassem a obra de arte.

Os nobres, também, encomendavam seus quadros, que expressavam gravidade, sobriedade e um ar austero. Nunca se viu um sorriso num retrato desses, afinal pessoas muito importantes não sorriam, estavam sempre preocupadas com assuntos mais elevados.

Já no período industrial, e já com as câmeras difundidas pelo mundo, as pessoas mais abastadas gostavam de posar com toda a família. Era aquela penca de filhos, todos arrumados e alinhados. O patriarca, no mais das vezes, ostentava um bigodão, que lhe conferia seriedade e respeito. A mãe dos rebentos aparecia com discrição, um ar contido e um tanto de resignação. Era esse o papel que dela era esperado pela sociedade.

Em cada época e contexto, independente da mídia existente, os retratos sempre buscaram expressar o que o retratado gostaria que as pessoas em seu entorno pensassem a seu respeito.

Assim, publicitários, por muito tempo, se faziam fotografar com a mão no queixo, ou apoiando a cabeça sobre os dedos indicador e polegar. Isso lhe conferia um ar de inteligentes, criativos. Havia os que, de braços cruzados, mordiam a haste dos óculos. Tudo para parecem pessoas que passam o tempo pensando, buscando achar soluções para seus clientes.

Escritores, em geral, eram retratados lendo — raramente escrevendo. Na maioria dos casos, de pulôver preto, gola rolê. Intelectuais eram pessoas das sombras, que percorrem caminhos escuros e assustadores para os meros mortais. Era muito raro um escritor se deixar retratar usando roupas coloridas, num ambiente alegre.

Jornalistas sim eram fotografados na faina de suas máquinas de escrever, em geral com a gravata frouxa, mangas arregaçadas e um cinzeiro lotado ao lado. Um certo ar casual, que fazia com que as pessoas que vissem a foto pensassem nas grandes histórias que estavam sendo escritas por aqueles profissionais absortos em sua batalha com as letras.

Hoje em dia, em que temos excelentes câmeras fotográficas em nossos smartphones, tudo se multiplicou em escala geométrica. Foi-se o tempo em que era preciso economizar poses do filme. Num mesmo evento, “batemos” dezenas de fotos. Qualquer um de nós, tem alguns milhares de imagens no celular. E como, hoje, nos retratamos? Como sempre, nunca é para nós mesmos que o fazemos, e sim para os outros. Agora, precisamos mostrar que somos felizes, descolados, viajados e modernos. Então, aparecemos em grupos sorridentes, em lugares incríveis, quase sempre com uma taça de espumante (cerveja é pra chinelão) e de óculos escuros. Temos que parecer os tais e, como se diz na linguagem das redes sociais, temos que “causar”.

Só quem nos ferra são os atendentes dos CFCs e do Instituto de Identificação ao nos tirar o “retrato” que vai estampar nossas carteiras de motorista e identidade. Esses parecem ter o prazer sádico de nos deixar mais feios do que somos. O retrato da dor, sem moldura. Uns iconoclastas é  o que são. A propósito Rodrigo, posta aí a foto da tua identidade!