Jornalistas precisam de diploma?

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Eu sempre defendi a exigência de diploma para jornalistas, tanto que só contratava gente formada, que havia passado pela academia. O Prêmio Press, que completou 20 anos, tem como critério para ser premiado, que o indicado seja jornalista e/ou radialista e para participar do Voto Profissional a mesma coisa.

Isso porque eu sempre tive orgulho da minha profissão. Aliás, um dos maiores orgulhos da minha mãe, que via o seu sétimo filho, de uma ninhada de oito, ser o primeiro a se formar numa universidade. Ela enchia a boca para contar para as amigas ou para quem recém conhecia que tinha um filho jornalista.

Sempre achei que um mínimo de critério, entre eles a formação num curso universitário, garantiria a qualidade e o futuro da nossa imprensa.

Pois é, mas já há alguns anos, vem se abrindo uma frincha nessa minha convicção. Por uma série razões. Primeiro que os futuros jornalistas que têm saído das universidades estão muito aquém do que se poderia esperar de uma formação acadêmica.

A despeito do trabalho de ourivesaria de alguns professores, o certo é que as faculdades de jornalismo, de um modo geral, perderam o rumo. A gurizada acaba aprendendo tudo sobre questões de gênero, luta de classes, feminismo e outras bandeiras de esquerda, e termina o curso sem saber escrever, sem saber nada sobre literatura, sem ter um visão ampla da História.

Já contei inúmeras vezes sobre o teste que fizemos na Press com 20 estudantes de jornalismo, de três faculdades diferentes. Duas perguntas simples: você já leu “Cem Anos de Solidão”. Sabe quem escreveu?

Dos 20 futuros jornalistas, 18 nunca tinham ouvido falar num dos maiores clássicos da literatura universal, apenas um sabia quem era Gabriel García Márquez e outro sabia que ele tinha morrido. Nenhum tinha lido o livro e nenhum sabia que Gabo havia ganho o Prêmio Nobel de Literatura. Logo Gabo que, orgulhoso, escreveu sobre o jornalismo ser a “melhor profissão do mundo”, logo ele que aprendeu jornalismo dormindo sobre as bobinas de papel nos jornais de Barranquilla. Você até poderá dizer: que importância tem para um estudante de jornalismo conhecer o maior escritor latino-americano de todos os tempos? Lembra que escrevi acima sobre “mínimos critérios”? Pois é…

Aliás, assim como Gabriel que não chegou a se formar em Direito, a esmagadora maioria dos meus ídolos na imprensa, não teve diploma de jornalismo. Armando Nogueira, o todo-poderoso do Jornal Nacional durante décadas, era formado em Direito. Mino Carta, que implantou alguns dos principais veículos de imprensa do país — Veja, 4 Rodas, Senhor, Jornal da Tarde, IstoÉ — também estudou Direito, mas não chegou a se formar. Millor Fernandes, uma das penas mais ácidas e inteligentes a escrever no Brasil, um dos pilares do lendário O Pasquim, era um autodidata, que não chegou a se formar em nada. Paulo Francis a mesma coisa, Joel Silveira, um dos maiores repórteres da história da imprensa brasileira, idem. O grande Claudio Abramo, ícone do Estadão e da Folha de S. Paulo, tinha apenas o primário e só foi concluir o ginásio, aos 46 anos, num curso de madureza. Ricardo Boechat, de quem me sinto órfão cada dia, não concluiu o 2º grau. E por aí vai. Poderia encher essa página só com exemplos de quem, de fato, fez a nossa imprensa, sem jamais ter frequentado uma aula de jornalismo. Todos eles, certamente, mestres neste sagrado ofício.

As coisas mudaram muito nos últimos 20…30 anos. Acho que a questão do diploma para jornalistas é uma delas. Tornou-se dispensável!