Humildes começos

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Em meados de março de 1997, quando eu escrevia as primeiras linhas da revista Advertising, que seria lançada no mês seguinte, jamais imaginei que aquele projeto pudesse ser tão longevo. Completar 24 anos, em qualquer meio de comunicação já é uma façanha, fazer isso num veículo de mídia impressa beira ao heroísmo, ou à irresponsabilidade!

Passamos por tantas transformações — de tecnologia, de mercado, de sociedade —, que parece até que as lembranças daquele início, numa salinha nos fundos da sede da Associação Riograndense de Propaganda, fazem parte de outra vida, de outra era.

Este é o segundo aniversário que comemoramos em meio à pandemia do coronavírus. Tudo mudou, inimaginavelmente. “Nada do que foi será, do jeito que já foi um dia…”, diz a magistral letra de Nelson Motta, perpetuada na voz do Lulu Santos. E nem esperamos mesmo que seja. A vida é para frente que se anda, se vive. No entanto, é bom lembrar dos tempos iniciais, para percorrermos toda a trajetória, revisitar erros e acertos e reconhecermos que, afinal, fizemos bem feito o que era preciso ser feito.

Mesmo aqui no calcanhar do mundo, onde a força da gravidade é de 19,6 m/s² (o dobro de qualquer outro lugar do planeta), guerreando contra os que são do contra sempre, peleando com inimigos reais e imaginários, enfrentando as dificuldades naturais de um estado à margem do Brasil, mesmo aqui, e talvez exatamente por isso, é possível fazer história, algo de que nos orgulhemos.

A revista Advertising, que nasceu magrinha, feinha, com mais de 30 erros de digitação — teve um publicitário corneteiro que se deu ao trabalho de anotar e contar. Não por acaso, alguém que jamais apoiou a revista, jamais anunciou em suas páginas. Bem, mas isso é problema dele —, cresceu, deu luz a muitos filhos, ganhou o país, se tornou uma referência editorial no mercado de comunicação e sobreviveu a muitos outros projetos, feitos com muito mais condições, dinheiro e apoios.

Zacarias, um dos profetas considerado menor, alertou para não desprezarmos os humildes começos. Ele, que se destacou como o profeta do exílio e que chamava seu povo Israel para a reconstrução do templo de Jerusalém, sabia que o trabalho seria pedra a pedra, coluna por coluna e que isso demandaria tempo.

A Advertising, que geraria a Press, a Brasil Responsável, o Jornal da Capital, a Quarentena, e mais uma dúzia de outros títulos, começou humilde, com as pedras que consegui juntar. Por isso, tenho muito orgulho por estarmos completando 24 anos. Muita gente boa ficou pelo caminho, mas nós vamos resistindo. É verdade que, a maioria das vezes, com pouca bala, mas atirando.

Que essa pandemia passe logo e leve consigo toda a dor pelas muitas perdas que temos tido. Quem sabe, nos 25 anos, um quarto de século, possamos fazer uma grande festa para comemorar mais um ano da teimosia, da renitência e da ousadia em continuarmos um projeto tão bacana quanto o das revistas Press e Advertising. Você já está convidado!

Julio Ribeiro é jornalista e publisher da Athos Editora
julio@revistapress.com.br