Eu gosto muito de coisas antigas

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Máquinas de sonhos
Eu gosto muito, também, de coisas antigas. Algum maldoso dirá: claro,tu gostas de ti. É verdade. Mas, eu gosto muito de objetos antigos. Pelo design, pela história que carregam e pela ideia de viagem no tempo que eles me emprestam.

Meu hobby é participar de leilões na internet. Isso virou quase um vício, daqueles que a gente começa arrematando uma inocente miniatura de Cadilac 1947 e quando vê já comprou dezenas de despertadores, telefones analógicos, porcelanas inglesas do início do século passado e um monte de máquinas de escrever. Sim, eu já tenho umas 20. Está bem, que neste número têm algumas doações de amigos (atenção, ainda continuo aceitando acréscimos ao meu acervo J ).

Eu vou com bastante frequência à Buenos Aires, desde a década de 1990. Nos últimos nove anos, tenho ido duas a três vezes por ano, por conta de uma das minhas filhas, ou ambas, estarem morando por lá. E, por incrível que pareça, nessas dezenas de vezes, nunca tinha ido visitar a casa em que morou, trabalhou e morreu Ernesto Sábato, em Santos Lugares.

Sábato é um dos meus escritores preferidos, um dos maiores que a América Latina já produziu, autor de clássicos como “Sobre Heróis e Tumbas” e “Abadon, o Exterminador”.

Quem nos recebeu na casa foi sua neta, Luciana, para uma visita cercada de emoção. Andar pelos cômodos percorridos e habitados pelo grande físico, escritor e pintor (sim, ele foi tudo isso!) e poder apreciar sua biblioteca, seus objetos pessoais, seus quadros, me conectou a um momento em 2006, quando assisti a uma palestra de Sábato, na Faculdade Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. Um encontro que marcou minha vida. Enquanto ele fazia suas “confissões de um escritor” e discorria sobre os 90 anos de vida, eu chorava na plateia. Depois, tirei foto com ele, pedi autografo e ainda ganhei as 30 páginas que ele havia lido por mais de uma hora.

Voltando à casa nos arredores de Buenos Aires, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi ver a sua máquina de escrever, uma modelo elétrica dos anos 60/70, que remanescia ali parada naquela peça que serviu de quarto aos filhos e depois de “oficina” ao grande escritor.

Daquela máquina saíram algumas das páginas mais fortes e geniais da literatura latino-americana, nela foram gestados personagens trágicos e arrebatadores, nela foram escritas milhares de laudas, que depois seriam incendiadas pelo exigente escritor. Enfim, aquela máquina, agora ali calada, havia sido testemunha de dias e noites intermináveis em que Ernesto Sábato havia se debatido em seu mundo interior, buscando apaziguar a sua alma em textos catárticos.

Óbvio que vocês já imaginaram o quanto eu gostaria de ter aquela máquina em minha coleção. Tive que me contentar em apenas fotografá-la. Ela, agora, habita os meus sonhos. Num deles, recorrente, eu me sento à sua frente e escrevo uma  pequena novela, que vai percorrer o mundo, como um novo “O Tunel”. Com certeza, um delírio.

Resta-me voltar aos meus leilões…