A hiperinflação e o jornalismo econômico

332
COMPARTILHAR

Neste ano os brasileiros comemoram os 25 anos da implementação do Plano Real, o plano econômico que acabou com o processo de hiperinflação no País. Quem era criança – ou ainda não havia nascido – em 1994 não tem ideia de como era conviver com preços que não paravam de subir. Para essa geração, termos como congelamento de preços, desabastecimento, estocagem de alimentos, gatilho salarial e overnight são palavras que parecem pertencentes a um passado muito distante.

No entanto, mesmo na época era difícil para a população acompanhar todas as reviravoltas causadas pelos planos econômicos fracassados do governo e os efeitos das altas dos preços no bolso dos cidadãos. Para atender a essa demanda, os veículos acabaram  alterando o jornalismo econômico no Brasil.

Até anos 1970, as editorias de economia nos jornais brasileiros eram pequenas, e muito focadas nas ações governamentais e empresariais. No entanto, com o crescimento da inflação no final do regime militar, pautas que estivessem ligadas com as finanças das classes médias e populares começaram a aparecer mais. Os veículos passam a investir pesadamente no chamado “Jornalismo de Serviço”, buscando aproximar-se das necessidades imediatas dos leitores. Questões ligadas a condomínios, seguros, financiamentos habitacionais e orçamento doméstico passam a ser comuns. Instala-se também um padrão de jornalismo didático, com temas do dia-a-dia, no modelo “entenda como se faz isso”.

No fim da década de 1970, os índices de inflação beiravam os 40% anuais. Nos anos 1980, a década perdida, a situação se complicou, após dois choques do petróleo e maxidesvalorizações cambiais. À forte retração na taxa de expansão econômica somou-se o crescimento galopante da inflação, em meio a um processo de indexação de preços, salários e contratos no País.

Com a inflação se tornando um problema cada vez mais sério, as editorias de economia se adaptam e especializaram repórteres no segmento de economia popular, dedicando boa parte da cobertura para a área de abastecimento.

Lista de Preços – Estadão, 1993

Depois de sucessivas tentativas frustradas de estabilização da moeda com os planos Cruzado (1986), Bresser (1987), Verão (1989), Collor I (1990) e Collor II (1991), o índice anual de inflação subiu de 330% na década de 80 para 764% entre 1990 e 1994. Em fevereiro de 1990, mês que antecedeu o lançamento do primeiro plano do governo Collor, a taxa alcançou incríveis 72,78%. Em termos anuais, em 1993, no seu ápice, chegou a quase 2.500%.

A cada novo plano, os jornais são obrigados a explicar as mudanças ocorridas no dia-a-dia de empresas e pessoas, quais as novas “regras do jogo” e os efeitos dos planos econômicos. O leitor precisa saber como sua vida será afetada. Também, torna-se comum jornais publicarem listas de preços de produtos todas as semanas, com comparações entre diferentes pontos de vendas. A inflação era tratada como um “dragão”, um monstro que devorava a renda da população.

Foi somente a partir de março de 1994, com a implantação do Plano Real, que o “dragão” se enfraqueceu. No entanto, esse também foi outro momento de grande atuação da imprensa  econômica.

A peça mais sofisticada do Real foi a criação da Unidade Real de Valor (URV). Ela foi um indexador diário que conviveria com o hiperinflacionado cruzeiro real de março a junho de 1994 e, em 1º de julho daquele ano, o substituiria, rebatizada de real. Os jornalistas se desdobraram para explicar o que era aquela “criatura” e como iria funcionar na prática. Mas o trabalho compensou. A população foi entendendo e adotando o uso da URV. No fim de maio, 92% das indústrias já usavam a URV. A moeda virtual tinha se disseminado, tornado a adoção do real mais fácil.

Em 1º de julho de 1994, com adoção do real, terminava a era da correção monetária, dos preços congelados e da inflação mensal acima de dois dígitos. No total, de julho de 1964 a julho de 1994, segundo cálculos da Fundação Getúlio Vargas (FGV), a inflação acumulada no Brasil foi de 1.302.442.989.947.180,00% (para simplificar, 1 quatrilhão e 302 trilhões). A hiperinflação deixou um histórico de estagnação, desordem econômica e empobrecimento de famílias. No entanto, o esforço para cobrir seus efeitos nefastos e as tentativas para remediá-la ajudaram a fortalecer o jornalismo econômico no Brasil.