A coletiva que mudou o mundo

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Coletiva de 9 de novembro de 1989 na Alemanha Oriental

Coletivas costumam ser o terror de entrevistados. Ter um bando de jornalistas fazendo pergunta após pergunta, sem ter preparo ou cuidado ao dar as respostas, já causou grandes estragos nas carreiras de diversas figuras importantes. No entanto a maior prova do poder de fogo de uma coletiva que sai errado aconteceu em 9 de novembro de 1989, em Berlim, quando um porta-voz e um repórter destruíram um país e acabaram com a ordem política mundial.

A primeira figura dessa história era o entrevistado da ocasião: Günter Schabowski, o porta-voz do governo da Alemanha Oriental. Jornalista, Schabowski tinha sido diretor do jornal “Neues Deutschland” antes de tornar-se uma figura importante do Comitê Central do Partido Comunista local.

O ano de 1989 vinha sendo complicado para os dirigentes da chamada DDR. Protestos ocorriam em todo o País, com a população pedindo várias liberdades: expressão, ir e vir, manifestação. Na coletiva, o tema discutido era exatamente uma lei aprovada 10 dias antes que permitia que os cidadãos alemães-orientais viajassem para o exterior. Mas, para isso, eles precisariam de um passaporte válido, visto de saída e visto de entrada de volta — que só o governo concedia. A nova legislação, portanto, era apenas uma maluquice burocrática: as viagens eram permitidas, mas, na prática, só viajava quem fosse autorizado – e ninguém era.

A outra figura decisiva no episódio foi Riccardo Ehrman, jornalista italiano que em 1976 se mudou para Berlim Oriental como correspondente da agência Ansa. Pouco antes da conferência de imprensa de 9 de novembro, Ehrman recebeu uma ligação, alertando-o para não deixar de ir à coletiva. “Vai ser importante. Pergunte sobre a possibilidade de nossos cidadãos poderem viajar para fora do país.” O italiano jamais revelou quem lhe telefonou fazendo esse pedido.

Ehrmann, que chegou atrasado à entrevista, após ouvir por algum tempo as explicações oficiais, disparou: “Vocês não acham que estão cometendo um erro com essa lei?”. O porta-voz se irritou levemente com o italiano. “Não, não estamos cometendo um erro”, respondeu.

Essa pergunta detonou a sequência que culminaria com o anúncio que entrou para a história. Schabowski começou a falar sobre as condições de vida dos alemães-orientais refugiados do lado ocidental, mencionou os problemas que os países vizinhos “amigos” tinham ao lidar com quem queria sair da DDR e, em seguida, pegou uma folha de papel que mal tinha lido antes e disse: “Inclusive tomamos uma decisão hoje que permite que todos os cidadãos possam sair do país [para a Alemanha Ocidental] diretamente pelos nossos postos de fronteiras, eles receberão vistos para isso sem que tenha de ser cumprida nenhuma exigência especial”.

Uma versão diz que o papel era um projeto de lei que ainda não tinha sido formalmente aprovado pelo Parlamento do Povo. Outra afirma que a medida seria anunciada no dia seguinte, e Schabowski apenas a antecipou. De qualquer forma, percebendo que algo muito importante poderia estar acontecendo, Ehrman perguntou: “Sem passaporte?”. Outros passaram a perguntar: “Quando isso entra em vigor?”, e Schabowski, atrapalhado, relutante, olhou para o papel e disse: “Até onde eu sei, imediatamente. Sem mais demoras”.

Eram 18h53 da quinta-feira 9 de novembro de 1989. A entrevista estava sendo transmitida para as duas Alemanhas. Espantados com o que viram, os moradores de Berlim Oriental começaram a deixar suas casas e se dirigiram aos pontos de checagem junto ao Muro. Os policiais não tinham recebido nenhuma ordem oficial para abrir as fronteiras. Não sabiam o que fazer. Organizaram filas e pediram calma à população.

Erhman foi o primeiro jornalista a informar ao mundo, pela Ansa, que o Muro de Berlim tinha caído. A maioria dos jornalistas presentes à coletiva não percebeu direito o que estava acontecendo. A agência italiana deu a notícia meia hora antes que todo mundo.

O correspondente, depois de informar a sede em Roma por telefone — e garantir que não estava maluco –, correu para o posto de controle em Friedrichstrasse, onde uma multidão aguardava pela abertura da fronteira, e vários começaram a escalar o muro que dividia a cidade comunista da capitalista. Logo, foi reconhecido: “o jornalista que fez a pergunta!”, gritou alguém, e o correspondente foi erguido nos ombros do povo, festejado como um herói. Riccardo Ehrman, junto com Günter Schabowski, tinham derrubado o Muro de Berlim.