25 anos de mudanças no jornalismo

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Há um quarto de século, imprensa vem tentando entender e se adaptar ao novo mundo digital que a devora e transforma

Há 25 anos, quando a rede mundial de computadores estava no seu estágio inicial de popularização, os principais meios de informação eram os veículos impressos (jornais e revistas) e eletrônicos (televisão e rádio). O jornalismo na web, embora já fosse praticado, tinha o caráter de uma novidade que ainda estava sendo assimilada pela imprensa e que chegava a um público restrito às pessoas e instituições com acesso à internet (discada).

Os primeiros sites jornalísticos foram criados em 1995 por veículos tradicionais na produção de jornais impressos, como Jornal do Brasil, Folha de S.Paulo e Grupo Estado. Esse ponto marca um profundo processo de mudanças na área e que tem “colocado muitos desafios para o jornalismo comercial hegemônico e para os profissionais”, declara a pós-doutora em Comunicação Suzana Oliveira Barbosa, professora do Departamento de Comunicação e do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/UFBA).

Suzana Barbosa Professora na UFBA

As diferenças na produção da notícia para o impresso e para a web evidenciavam o conflito entre o modelo de negócios que estava consolidado e a inovação. “Muitas empresas jornalísticas, no início, tiveram receio e houve resistência”, descreve Suzana. A professora comenta que a prática do jornalismo na internet, no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa, foi iniciada pelos jornais impressos, os primeiros a lançarem sites de notícias. Era comum que esses sites apenas reproduzissem o conteúdo publicado na edição do jornal impresso.

Quando fala sobre as resistências iniciais, Suzana lembra que para as empresas jornalísticas era difícil quebrar a noção do ciclo de 24 horas, característico do impresso. Nas redações, havia a preocupação com o ineditismo da informação — se fosse publicada no site um dia antes da veiculação no impresso, a concorrência já teria conhecimento do fato.

Dentro de uma mesma empresa, o próprio site poderia ser interpretado como um concorrente do jornal que circularia na manhã seguinte. “Só essa visão de partida demorou muito para ser administrada até que se pudesse, sim, incorporar algumas dessas características que temos para o jornalismo feito para internet”, menciona Suzana.

Nesse amplo processo de transformação, a narrativa jornalística absorveu as coberturas com atualização contínua e os recursos de hipertextualidade e multimídia, mas outras questões estão colocadas. Há novos competidores e produtores de conteúdo que disputam a atenção do público e dos anunciantes. “O grande desafio para as empresas jornalísticas hoje é resgatar e ampliar (ou manter) audiências para os seus produtos”, analisa Suzana.

A doutora em Comunicação e professora da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Ana Carolina Kalume Maranhão, considera que a indústria jornalística tem se mostrado, historicamente, resiliente e capaz de se beneficiar das inovações. No contexto atual, ela reflete que é necessário encarar a convergência como “fator estratégico para a promoção de novas possibilidades de produção e distribuição de conteúdo”.

Ana Carolina Kalume Professora da Faculdade de Comunicação da UnB

“Se, antes, a migração do impresso para online se caracterizava quase que de forma exclusiva pela inserção do conteúdo das páginas impressas no formato digital, hoje, o modelo de negócio desenhado para abrigar as empresas comunicacionais multiplataformas abarca a criação de novos canais e a ampliação da oferta de serviços ao leitor”, argumenta Ana Carolina.

A inovação provocada pelas novas tecnologias de inovação e comunicação impuseram mudanças à forma de fazer do jornalismo e do próprio modelo de negócio da imprensa, enfatiza Ana Carolina. Em meio à transformação, “as organizações buscam novas formas de enquadramento do novo sem romper com os fundamentos que as estruturam”, nota a professora.

“Na tentativa de promover uma transição administrada, as empresas promovem reformas em suas estruturas, como a unificação das redações e a produção multimídia, o que exige jornalistas com múltiplas habilidades, a incorporação de profissionais da área de Tecnologia da Informação e o estabelecimento de parcerias para a realização de investimentos no setor tecnológico.”

 

Mudança na percepção de valor da informação
Para o jornalista, programador, mestre em Jornalismo Social e coordenador do Programa Avançado em Comunicação e Jornalismo do Insper, Pedro Burgos, houve uma significativa mudança de contexto que impactou o jornalismo nos últimos 25 anos. “A mídia, no passado, tinha mais poder econômico, porque era um pacote de serviços que precisava ser comprado”, avalia. “Nos anos 1990, era no jornal que se obtinha acesso a classificados, programação de cinema, passatempo e notícias. Isso tornava os produtos jornal e revista mais valiosos. E a publicidade era a forma de atingir muitos consumidores de uma vez, pois a mídia promovia esse alcance gigante.”

Pedro Burgos
Jornalista, programador,
mestre em Jornalismo Social

De lá para cá, surgiram novas possibilidades para acessar serviços que, antes, estavam concentrados na mídia impressa. Classificados, agenda cultural e entretenimento, por exemplo, migraram para o ambiente digital e, hoje, são acessados gratuitamente pelo celular. “Sofremos esse grande desempacotamento da mídia, dos jornais, principalmente, que deixaram de ser um produto que oferecia vários serviços. Ao mesmo tempo, a publicidade nas novas mídias digitais se tornou mais atrativa para os anunciantes, que poderiam alcançar um público mais específico por um preço menor”, demonstra Burgos.

Nesse processo, “os veículos de imprensa perderam o poder monopolizador tanto do lado dos anunciantes quanto para os consumidores”, aponta. “O que a gente viu é que quando se tira o valor dos classificados, da programação cultural, das cruzadinhas e só sobra a informação, o público está menos disposto a pagar ou vê menos valor relativo do que imaginávamos. Há muito menos leitores e audiência dispostos a pagar por informação do que a gente previa.”

A informação tende a ser mais valorizada por públicos muito específicos que se beneficiam economicamente dela. É o caso de grupos para os quais o jornalismo segmentado tem valor evidente — como investidores e analistas financeiros, que dependem da informação econômica em tempo real, ou advogados, que recorrem aos veículos que fazem a cobertura do poder judiciário. “Essa informação que literalmente vale dinheiro para a pessoa que está consumindo tem um futuro em diferentes nichos.”.

Declínio do impresso e ascensão das redes sociais
O avanço da web é um dos processos que motiva uma série de transformações que ocorrem no jornalismo desde o final dos anos 1990. “Várias foram as mudanças, mas entre as principais estão a adoção dos sites e portais jornalísticos que existem até hoje, e posteriormente a utilização dos celulares e smartphones que, com a conexão móvel, permitiram a agilidade na cobertura jornalística”, cita a pós-doutora em Ciências da Comunicação, Maria Clara Aquino, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

Maria Clara Aquino
Pós-doutora em Ciências
da Comunicação

“De modo geral, o que possibilitou as transformações nas práticas jornalísticas e a geração de novos produtos foram o avanço na tecnologia digital e as apropriações feitas pelas empresas jornalísticas e pelos consumidores”, recobra a professora. “Nos anos 90 e início dos anos 2000 a web ainda era o ambiente no qual as notícias e os conteúdos de sites, portais e blogs detinham a maior parte do tráfego de usuários, como se dizia na época. Hoje as pessoas consomem informação através de plataformas digitais e aplicativos de mídias sociais.”

O uso das redes sociais, no Brasil, como meio de se informar tem sido evidenciado por uma série de estudos. A pesquisa nacional Redes Sociais, Notícias Falsas e Privacidade na Internet, realizada em 2019 pelo DataSenado em parceria com as ouvidorias da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, constatou que o WhatsApp é a principal fonte de informação para a maior parte dos brasileiros — 79% dos entrevistados disseram que sempre usam o WhatsApp para se informar e 14%, afirmaram usar o aplicativo com essa finalidade às vezes.

Além do WhatsApp, que é a fonte de informação menos rejeitada pela população (somente 6% disseram que nunca utilizam para se informar), outros meios informativos que aparecem nas primeiras colocações são a televisão (50%), o Youtube (49%), o Facebook (44%) e os sites de notícias (38%). Apenas 8% dos entrevistados disseram que sempre se informam por jornais impressos — 31% afirmam que leem jornais às vezes e 61% relatam que nunca o utilizam.

Esses apontamentos são condizentes com outros estudos, como o apresentado na edição mais recente do Reuters Institute Digital News Report, de 2021, que indica que mais de 83% dos brasileiros se informam por canais digitais (a categoria inclui as redes sociais e outros veículos online). Em segundo lugar na pesquisa aparecem, especificamente, as redes sociais, citadas como fontes de notícias por 63% dos participantes. Na sequência, estão a televisão (61%) e os impressos (12%).

O relatório, elaborado anualmente pelo Reuters Institute for the Study of Journalism, evidencia o declínio dos veículos impressos na última década. Em 2013, 60% dos entrevistados se informavam pelos impressos. Gradativamente, esse percentual foi se reduzindo nos anos seguintes. Entre 2020 e 2021 ocorreu a redução mais acentuada, quando a proporção de leitores do meio baixou de 23% para 12%.

Em contrapartida, as mídias sociais avançaram: eram citadas como fonte de informação por 47% dos brasileiros, em 2013, e a partir de 2020 passaram à frente da TV como canais escolhidos para consumir notícias. Esse movimento impacta diretamente o modelo de negócios dos veículos jornalísticos e afetam a viabilidade financeira dessas empresas.

O relatório global 2020/2021 de tendências mundiais em matéria de liberdade de expressão e desenvolvimento da comunicação social, publicado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), destaca que a quantidade de usuários das redes sociais praticamente dobrou, no mundo, entre 2016 e 2021, passando de 2,3 bilhões para 4,2 bilhões de pessoas conectadas.

Nesse contexto, as verbas publicitárias migram para o meio online e aproximadamente metade das receitas globais com publicidade digital são direcionadas para apenas duas empresas: Google e Facebook. Conforme enfatiza o relatório da Unesco, a publicidade nos jornais foi reduzida à metade nos últimos cinco anos em todo mundo — em uma década a verba destinada aos impressos diminuiu dois terços.

Plataformização e jornalismo
A relação entre as plataformas digitais, como Google e Facebook, e o jornalismo tem ficado cada vez mais complexa. A professora Maria Clara Aquino, da Unisinos, ressalta que essas grandes empresas de tecnologia detêm grande parte do conteúdo que circula no mundo e “acabam concentrando muito do que é produzido pelo jornalismo de grande porte.”

“Ao invés de acessar diretamente uma diversidade de sites e outros ambientes fora dessas plataformas, as pessoas se concentram em clicar nos links que circulam através dos compartilhamentos feitos nessas redes. O acesso à informação acaba sendo limitado a um conjunto de tópicos que são os mesmos dentro do círculo de perfis e contas que aquela pessoa segue. É o que alguns vão chamar de bolhas de informação.”

A interrelação dessas plataformas com o jornalismo é um dos principais dilemas na área, aborda a professora Suzana Oliveira Barbosa, da UFBA. Ela argumenta que as grandes empresas de tecnologia não têm apenas um grande poder econômico, mas também do ponto de vista da infraestrutura que oferecem e que é responsável por conectar todos os setores da sociedade. Cria-se, portanto, uma dependência muito forte com as plataformas. Como praticar um jornalismo com a independência que a profissão necessita, nesse contexto?

“É por isso que alguns autores já trabalham a noção da sociedade de plataforma e o fenômeno da plataformização no jornalismo”, acrescenta Suzana. “O poder das plataformas na sociedade vem afetando a política, a economia, o jornalismo, a educação… isso se espraia, porque são elas que, em última instância, acabaram desenvolvendo tecnologias que as permitem controlar e monetizar os nossos dados.”

O engajamento da audiência é outro componente importante nesse processo e que começa a provocar alterações na forma como as notícias são publicadas. Hoje, o jornalismo profissional disputa a atenção do público tanto quanto outros produtores de conteúdo que também estão nas redes: dos youtubers, sem qualquer relação direta com o jornalismo, aos especialistas que, antes, alcançavam visibilidade como fonte para jornalistas e, hoje, têm seus próprios espaços para opinar sobre os mais variados temas.

Em meio à competição pela audiência, muitos veículos jornalísticos começam a adotar estratégias para fisgar a atenção do público, como títulos que despertam curiosidade ao invés de informar (caça-cliques). “É uma prática contrária à lógica do jornalismo”, opina Suzana. “Temos acompanhado essa discussão, sobre a questão das audiências e como isso tem sido um desafio constante para o jornalismo.”

Pedro Burgos, professor do Insper, alerta para o fato de que, algumas condutas podem enfraquecer ainda mais o jornalismo. Isso acontece, por exemplo, quando os veículos de comunicação se pautam, excessivamente, pelas redes sociais. Originalmente, um assunto sem relevância para o interesse público, originalmente, seria descartado como pauta jornalística ou teria pouco espaço. Porém, quando um tema desses ganha repercussão nas mídias sociais, rapidamente ganha a cobertura jornalística enquanto estiver em evidência.

“O que temos visto é o jornalismo servindo como provedor de conteúdo extra”, argumenta Burgos. “Está todo mundo discutindo um assunto nas redes, aí a mídia vai lá e faz uma reportagem, um vídeo ou alguma entrevista sobre o tema. As redes sociais como pauteiras é algo cada vez mais comum.”

Na visão do professor, isso é um problema, porque o material que está sendo produzido para alimentar as discussões que se desenvolvem nas redes sociais não vão se distinguir dos demais conteúdos que já estão circulando entre os usuários. “Em certa medida, a imprensa cumpre um papel de entrar nos temas que as pessoas estão discutindo, mas não se diferencia muito do que já está acontecendo”, analisa Burgos.

“O poder da mídia, de agenda setting, de decidir o que as pessoas vão falar, acaba sendo diminuído quando se entra nesse jogo”, acrescenta o professor. “Se a mídia continuar indo muito no vácuo do que está sendo discutido, ela tende a se enfraquecer no médio e longo prazo.” Burgos entende que a informação jornalística pode pautar o debate nas mídias sociais sem precisar “nadar a reboque das polêmicas do twitter da vez”.

Melhorar o produto e o serviço que a mídia entrega é o melhor caminho para mostrar o valor do jornalismo. “Reportagens com dados ou furos são coisas que, normalmente, só a imprensa está mais equipada para fazer”, salienta Burgos.