Resultados do trigo ficam abaixo do esperado

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Um ano que começou com grandes expectativas, mas que terminou com desilusão. Essa é definição que o setor da triticultura encontra para 2018. Após a pior safra da história recente em 2017, os triticultores esperavam uma grande recuperação de produção e de qualidade neste ano. No entanto, eventos climáticos frustraram essa previsão, e os resultados abaixo do esperado colocam em dúvida os investimentos dos produtores para a próxima safra.

Em 2017, o Rio Grande do Sul teve a menor área plantada de trigo na última década, segundo a Federação da Agricultura do Estado (Farsul): 691.553 hectares. A produção também foi extremamente baixa, afetada por eventos climáticos como excesso de chuva e geadas fortes. Foram colhidos apenas 1,22 milhão de toneladas do cereal. A produtividade, segundo a Emater, foi chegou a parcos 1.777 kg/ha, enquanto a média entre 2007 e 2017 era de 2,142 kg/ha.

Tendo em vista os baixos resultados, os produtores em 2018 fizeram um esforço para conter perdas. “A área plantada permaneceu pequena, mantida em torno de 700 mil hectares, o que evitaria uma superoferta. E até meados de agosto se configurava uma safra com grande potencial produtivo, além dos preços estarem em níveis bons”, destaca Hamilton Jardim, presidente da Comissão do Trigo da Farsul.

O plantio não teve grandes incidentes, exceto por geadas que afetaram algumas lavouras precoces. Os problemas começaram, efetivamente, no final de agosto, com duas geadas fortes, e depois de setembro a novembro, quando ocorreu uma primavera com excesso de chuvas nas épocas de enchimento de grão e colheita. Com isso, não apenas o PH (peso hectolítrico, quantidade de quilos que cabem em 100 litros) de boa parte da produção ficou abaixo do que exige a indústria panificadora (PH 78), mas também ocorreram doenças fúngicas e micotoxinas que descartam grãos para moagem. “Havia uma expectativa muito alta no início do ciclo, com previsão de colheita de 2,5 milhões de toneladas. No fechar das contas, não devemos passar de 1,8 milhão de toneladas”, lamenta Jardim.

De acordo com a Emater, a produtividade do trigo variou muito nas lavouras, ficando em média aquém do estimado, e com qualidade abaixo da esperada, com PH médio em torno de 75. Segundo os técnicos do órgão de extensão rural, além dos fatores climáticos, com a ocorrência de geadas tardias e altos volumes de chuvas na maturação, os problemas nas lavouras também ocorreram em razão de fatores tecnológicos, já que algumas cultivares apresentaram rendimentos muito inferiores ao esperado. Assim, grande número de produtores teve de solicitar vistorias para recorrer ao seguro do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro).

Dessa forma, 2018 revelou-se mais um ano em que o triticultor não obteve a rentabilidade esperada. Segundo Jardim, esse resultado negativo vem ocorrendo, consecutivamente, ao menos há seis anos. “Em 2013, tivemos uma safra fantástica em termos de produtividade e qualidade. Mas, no final do ano o governo permitiu a entrada de trigo fora do Mercosul sem cobrança de tarifa externa comum, acabando com os preços. Em 2014 e 2015 os resultados foram horríveis. Em 2016, novamente uma safra boa mas sem preço. No ano passado, a pior safra da história e agora, em 2018, resultados ruins de novo. Há muito tempo o produtor não tem retorno nas lavouras de inverno”.

No entanto, para Sérgio Feltraco, diretor executivo da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (FecoAgro/RS), os resultados da safra ainda tiveram pontos positivos. “De 1,8 milhão de toneladas colhidas, 75% puderam ser destinadas para moagem, sendo metade para atender as demandas de panificação e a outra para fabricação de biscoitos e outros produtos. Apenas 25% não tem outro uso senão ração e alimentação animal”, destaca.

Comércio exterior oferece oportunidades e gera desafios
De acordo com Sérgio Feltraco, outro fator positivo na safra deste ano foi a venda antecipada de 550 mil toneladas de trigo gaúcho para o exterior. “Considerando-se que a capacidade instalada de moagem no Estado é de 1,2 milhão de toneladas, essa venda para o exterior reduz bastante a oferta no mercado local, e ajuda na barganha de preços. É um movimento que queremos intensificar nos próximos anos”, afirma o diretor executivo da FecoAgro/RS.

Lavoura de Trigo em colheita – Crédito FecoAgro/Divulgação

O mercado mundial pode ajudar no preço do produto em 2019. Relatório apresentado pela Farsul, baseado em estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA, na sigla em inglês) aponta que deverá haver uma queda forte na produção mundial de trigo, na ordem de 4%, devido a reduções de colheita na União Europeia, Rússia, Ucrânia, Turquia e Austrália. Ao mesmo tempo, as estimativas apontam para uma leve alta no consumo global, de 0,1%. A menor disponibilidade do grão deve aumentar a disputa pelo produto no mercado internacional, o que pode gerar uma melhora nos preços brasileiros. O contrapeso pode ser a taxa de câmbio, cuja tendência é sofrer uma queda ao longo do ano.

Entretanto, no lado das importações, o comércio exterior é justamente um dos pontos que mais preocupa os triticultores, especialmente devido à competição com os produtores dos países vizinhos. “Faz muitos anos que o produtor não tem retorno no inverno, fruto de acordos que temos com o Mercosul, especialmente a Argentina, que tem grande interesses de internação de trigo no brasil para cobrir o déficit comercial que eles tem conosco, principalmente em produtos industrializados. Além disso, o custo de produção deles é muito menor que o nosso, e podem ofertar um grão mais barato. Os moinhos, como qualquer cliente, querem produto de qualidade pelo menor preço”, explica Hamilton Jardim.

Estimativas da próxima safra ainda estão em aberto
O cenário para 2019 na triticultura ainda é um tanto cedo para dizer, tendo em vista que o plantio da nova safra só será iniciado em maio. Caso a safra de grãos de verão confirme a previsão de grande produtividade e preços em patamar bom, os produtores deverão estar capitalizados o suficiente para investir mais na produção de inverno.

“Muito depende se haverá liquidez de recursos e bons preços de referência”, afirma Sérgio Feltraco, diretor executivo da FecoAgro/RS. “Acreditamos que há possibilidade de aumento de área, embora ainda não possamos dizer quanto. Obviamente, teremos que levar em conta os custos de produção e a situação cambial, uma vez que a cotação do dólar afeta os preços dos principais insumos das lavouras”, lembra.

Sérgio Feltraco, diretor executivo da FecoAgro/RS

Para Hamilton Jardim, da Farsul, mesmo que a safra de verão seja excelente, não deverá haver grandes investimentos que levem a um aumento expressivo de área cultivada de trigo no inverno. “Estamos plantando apenas 10% da área potencial para lavouras de inverno. Isso é muito pouco. Muitos produtores sequer estão mais realizando cultivos nesse período devido às tantas perdas econômicas sofridas ao longos dos anos. E isso gera preocupação para a consolidação do sistema de plantio direto e para a sustentabilidade do sistema produtivo gaúcho. Hoje, a safra de verão acaba tendo que bancar a safra de inverno e a rentabilidade do produtor ao longo de todo o ano”, destaca.

Hamilton Jardim, da Farsul

Jardim acredita que seriam necessárias muitas mudanças estruturais para reverter esse quadro de redução das “É preciso haver muitos fatores positivos para isso: mudanças na relação com o comércio do Mercosul, políticas públicas de seguro agrícola e oferta de crédito condizente com as necessidades do produtor.”

Destaque – Foto: Wenderson Araujo -CNA