Queremos ser enganados

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—“Pablo Vittar vai apresentar programa infantil na Globo”
— “STF autoriza monitoramento do whatsapp”
— “Gilmar Mendes mandou cancelar Big Brother”
— “Projeto de lei vai exigir uniformes unissex nas escolas a partir do próximo ano”
— “EUA e ONU sugerem intervenção militar no Brasil”

O que têm em comum essas cinco manchetes aí de cima? São algumas das inúmeras fake news espalhadas na internet brasileira no último ano, e que milhões de pessoas acreditaram que fossem verdade.

Como pode alguém acreditar em coisas como essas? Bem, são muitas as razões para que as fake news recebam status de verdade, de notícia-bomba, e sejam compartilhadas com a velocidade da luz, no Brasil e no mundo.

Todas elas têm um tom sensacionalista, emprestado pelo absurdo. E o ser humano gosta, adora o bizarro, o inusitado, o absurdo. Como vou segurar uma “notícia” tão espetacular como essa!?

Toda boa notícia falsa tem alguma dose de verdade, que a torne minimamente verossímil. De fato, Pablo Vittar tem ganho espaços generosos na mídia brasileira, a suprema corte tem se metido em tantos assuntos diferentes, Gilmar Mendes tem dado sentenças inacreditáveis, muitas leis e regras referente a gênero têm sido editadas e os EUA são militaristas. E essa gotinha de verdade é suficiente para sustentar a arrancada de uma fake news.

Mas, o componente mais poderoso para a aceitação, compartilhamento e propagação de uma noticia falsa é o fato de que queremos acreditar naquilo, queremos muito que aquilo seja verdade. Ou porque o fato noticiado atende aos nossos interesses ou porque eles reforçam nosso pensamento, posicionamento e opinião sobre as coisas.

Se eu não gosto da Globo e nem do Pablo Vittar, como rejeitar uma notícia de que os dois se juntaram? Se eu acho o Gilmar Mendes asqueroso porque não acreditar que ele mandou cancelar um programa popular de tevê? Se eu quero muito a intervenção militar no Brasil, porque não sonhar que o país e o organismo mais poderoso do mundo são a favor disso?

Só se engana com fake news quem quer se enganar, quem quer muito que aquela noticia falsa seja verdadeira.

Esse é o mesmo fenômeno que leva muita gente a cair em golpes de estelionatários. Elas querem acreditar no que os malandros lhe contam. Não por outra razão, há muitas décadas milhares de pessoas, de sul a norte do Brasil, continuam caindo, por exemplo, no manjado golpe do bilhete. Eu quero acreditar que, se eu pagar apenas o equivalente a 10%, 15% do valor do prêmio, vou ficar com a bolada toda.

O mesmo se dá com as promessas de políticos. Nós acreditamos porque queremos acreditar, porque desejamos muito que aquilo que ele está dizendo é verdade e vai ser feito. Queremos ser enganados. Agora, com o início da campanha eleitoral no rádio e na tevê vamos ouvir e ver de tudo. No que podemos acreditar? De verdade? Em muito pouco. Mas, milhões de pessoas vão acreditar nos mais acabados absurdos, ainda que nos próximo ano tudo continue como antes no quartel de Abrantes, enquanto Pablo Vittar canta ilariê com os baixinhos.