Qual é o alcance do erro jornalístico?

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A extensão de um erro que tem o potencial de arrasar vidas é incalculável. A falha da imprensa, nesse caso, não pode ser mensurada, pois está restrita aos mais afetados. Da mesma forma, não há uma limitação temporal. O erro não deixa de repercutir efeitos só porque houve um pedido de desculpas. Na verdade, dependendo do fato, seus desdobramentos podem durar uma vida inteira.

Essa constatação vem de um dos mais graves episódios do jornalismo brasileiro: o caso da Escola Base, prestes a completar 25 anos. Uma denúncia de pedofilia supostamente praticada contra alunos do ensino infantil trouxe a público a acusação contra seis pessoas: os proprietários da escola (Aparecida Shimada, Icushiro Shimada, Maurício Alvarenga e Paula Alvarenga) e um casal, pais de crianças que estudavam no mesmo local (Saulo Nunes e Mara Nunes).

O fato virou notícia, pela primeira vez, na noite de 29 de março de 1994, ao ser veiculado pelo Jornal Nacional, da Rede Globo. No dia seguinte, ocupava as capas dos jornais. A partir dali seria destaque na imprensa por pouco mais de um mês, até ser desmentido. Para os atingidos, no entanto, os estigmas e a repercussão jamais cessarão.

Era uma história chocante, com elementos estarrecedores, entre eles, a acusação de duas crianças de 4 anos. Havia a menção ao uso da kombi escolar para levar os alunos a “um local grande, com vários quartos e camas redondas” e da produção de filmes e fotos pornográficas nessas ocasiões. Um laudo, não conclusivo, indicou que uma delas havia sido violentada. Foi o que bastou para arruinar com seis famílias, inocentadas de todas as acusações pouco tempo depois.

Durante os pouco mais de 20 dias em que esteve na mídia, o fato foi noticiado com destaque e, em algumas ocasiões, de forma sensacionalista. Uma das manchetes mais pesadas sobre o episódio veio do jornal Notícias Populares, do grupo Folha: “Kombi era motel na escolinha do sexo”.

As consequências vieram imediatamente. Desde o primeiro dia após a acusação a escola deixou de receber os alunos e teve seu prédio, que era alugado, depredado. Os acusados tiveram suas casas pichadas, com frases diversas, como “morte para eles”, “queremos justiça”, “tarados”, “estuprador”, “cadeia para todos”. Estava feito o linchamento moral.

Do início dos boatos até a confirmação da inocência dos acusados, dois delegados cuidaram da investigação. O primeiro, Edélcio Lemos, concedeu à imprensa entrevistas, logo no início da repercussão do caso, pontuando convicção sobre a culpa dos investigados. “Provas, provas, provas… todo mundo fala em provas. A prova é o inquérito”, afirmou, em uma ocasião, diante das câmeras de televisão e de repórteres que se amontoavam para obter mais observações.

Em outra ocasião, também diante das câmeras, Lemos foi questionado se estava convencido de que houve “práticas libidinosas”. “Ah, isso já está provado”, foi a resposta. Essas declarações foram concedidas à imprensa em um período de, no máximo, 10 dias, entre a primeira reportagem feita sobre o caso, em 29 de março de 1994, e o afastamento de Lemos do caso, em 8 de abril de 1994, motivado por erros cometidos durante a investigação, como a prisão de dois suspeitos (Saulo Nunes e Mara Nunes) sem que houvessem indícios suficientes para justificar a detenção.

Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 9 de abril de 1994, Lemos vinha afirmando à imprensa ter provas contra os acusados e que as usaria “no momento oportuno”. Quem assumiu e concluiu o inquérito foi o delegado Gerson de Carvalho. O inquérito foi oficialmente concluído em 22 de junho de 1994, sem ter, no entanto, o mesmo destaque que foi dado às denúncias.

Exaustivamente estudado e ensinado aos alunos na graduação, o caso é lembrado até hoje como uma lição, um alerta sobre a cobertura da imprensa. Somente na Folha de S.Paulo, foram publicadas mais de 20 colunas, produzidas por ombudsmans do jornal, sobre o tema. No Estado de S.Paulo, o episódio já foi abordado mais de 20 vezes na página 3, dedicada ao editorial do jornal.

As críticas à imprensa, rememorando a história, são feitas, em geral, quando surgem fatos relacionados a investigações complexas, que devem suscitar a cautela dos jornalistas e exigir um rigor ainda maior na apuração. É o indício de que o jornalismo está sempre prestes a incorrer nos mesmos erros.

Escola Base: o erro não ficou no passado
Quando lembrado, parece que o erro, no caso da Escola Base, ficou no passado. Aconteceu e pronto. Foi essa percepção que levou o jornalista Emílio Coutinho a trazer o revisitar o episódio 20 anos depois. “Eu sempre me perguntava se essas pessoas superaram isso. São pessoas que perderam tudo. É um abalo real.” Ele é autor do livro “Escola Base – Onde e como estão os protagonistas do maior erro da imprensa brasileira”.

Segundo Coutinho, algumas pessoas ainda afirmam duvidar da inocência dos acusados. “Na casa de uma das donas, a vizinhança praticamente toda disse que aquilo tinha algo de verdade, porque desconfiavam daquela kombi que entrava e saía da garagem todos os dias.” O discurso que ainda é o mesmo que foi apresentado pela imprensa, na época dos fatos. “Não tinha lógica o que era dito, mas eles ficaram com aquela impressão, exatamente a mesma que foi publicada nas manchetes.” A imagem que foi construída nunca foi totalmente desfeita.

Coutinho credita isso ao fato de que, quando começaram a surgir novos fatos evidenciando a inocência dos acusados, outras notícias ganharam atenção da mídia. Veio a morte de Ayrton Senna, um mês depois das denúncias. No mês seguinte, começava a Copa do Mundo, que consagraria o tetracampeonato do Brasil. “Na verdade, não houve mea culpa, porque não teve o mesmo impacto.”

As denúncias, no início da cobertura do caso, eram dadas nas primeiras páginas dos jornais. O encerramento do inquérito, com a conclusão de que não havia elementos que comprovassem a acusação, vieram em páginas internas, sem destaque à altura da situação. Ainda assim, vale a reflexão: será que uma retratação pública, na mesma medida da denúncia, seria suficiente?

Os efeitos, na vida dos envolvidos, nunca serão reparados, observa Coutinho. “Isso acabou com a vida deles. Há pessoas ao redor que ainda acreditam que são pedófilos.” A convivência com amigos e familiares foi prejudicada. O investimento em um negócio que estava crescendo, simplesmente, se perdeu. As diretoras da escola, que sonharam com o empreendimento, nunca mais conseguiram voltar, sequer, a dar aulas. Depois de seus nomes e rostos terem sido expostos, quem permitiria que dessem aulas para os seus filhos?

“Um casal faleceu sem ter justiça”, frisa o jornalista sobre a morte de Aparecida Shimada (em 2007, aos 56 anos) e Icushiro Shimada (em 2014, aos 70 anos). “Tem processos que demoraram mais de uma e até duas décadas, obrigando as vítimas a fazerem acordos com os réus porque não tinham mais recursos para pagar custos advocatícios.”

As famílias se afundaram em dívidas e quando as indenizações vieram foram usadas para quitar os débitos. Entre os relatos impactantes que Coutinho recolheu está a lamentação dos envolvidos, que “só queriam ter uma vida normal”. Ficaram as perturbações, problemas psicológicos e feridas familiares. Dos três casais acusados, apenas os Shimada permaneceram juntos após o episódio.

Os outros dois casais se separaram. É o que ocorreu com Saulo e Maura, que chegaram a ser presos provisoriamente. “O Saulo me disse que não tem como não relacionar a separação com o caso. Nem mesmo o acompanhamento psicológico foi mantido, durou pouco tempo. Depois, eles não tinham mais dinheiro para pagar o psicólogo. Tinham que lidar, ainda, com a dificuldade dos filhos naquela situação.”

“Eu não quero dinheiro. Dinheiro não vai recuperar a vida que eu perdi.” Esse é um dos desabafos que Coutinho ouviu e que, defende, deve ser lembrados pelos jornalistas sempre que se coloca o nome de uma pessoa em uma matéria. “O poder que tem uma notícia é incomensurável, para o bem e para o mal”, alerta. “Por um lado a imprensa é um ser etéreo. Quem é a imprensa que errou? Não se nomeia. Mas as pessoas foram nomeadas, tiveram seus rostos expostos publicamente. Eles foram ameaçados e agredidos. O que sofreram não tem dinheiro que pague.”

Emilio Coutinho – Jornalista, autor do livro Escola Base – Onde e como estão os protagonistas do maior erro da imprensa brasileira

Do lugar de fala ao exercício da ética
Para o filósofo e professor de ética na comunicação da Unisinos Celso Cândido de Azambuja, diante das falhas cometidas pelos jornais “a errata não é suficiente”. Esse problema começa por uma questão até mesmo corporativa. “As erratas tentam minimizar os erros, dificilmente têm o mesmo impacto da notícia errada.”

Por outro, afirma, “errar é humano e não é, necessariamente, antiético”. “Desde o princípio somos falhos, falhamos pelos nossos limites.” O que determina que um erro extrapolou os limites éticos é se a falha foi involuntária, decorrente das limitações da própria profissão, como questões em que falta um “pedaço importante do quebra-cabeça”, ou se vai além dessa esfera.

“Não existe uma verdade, existem verdades aproximativas”, reflete Azambuja. “Esse é o conceito fundamental. Não tem como pensar em termos de fatos objetivos ou realidades escritas de forma objetiva. Isso vale na física, imagina no campo social.”

O professor lembra que todo mundo tem um lugar de fala, conceito que define que cada pessoa interpreta o mundo a partir de suas experiências pessoais. É desse ponto que surgem as opiniões e a construção das notícias. “A pessoa que está informando está dentro de um contexto de sentido, que é o que a gente chama de hermenêutica, é de onde emergem as descrições e os relatos.”

Erratas podem ter menos visibilidade no online
O formato adequado para correção de erros na Internet ainda não está consolidado e seus avanços ocorrem de forma lenta. A doutora em Jornalismo Lívia de Souza Vieira tem se dedicado a estudos relacionados ao jornalismo online e à ética. De 2014, quando foi publicada sua dissertação sobre parâmetros éticos na publicação de erratas no jornalismo online, para cá, ela notou pequenos avanços, “mas que fazem diferença”.

No trabalho, Lívia identificou o portal G1 como o que tinha as práticas mais adequadas. O diferencial do site estava na inserção visível da correção no meio do texto. A prática se mantém. Outro exemplo dado é relativo ao site da Folha de S.Paulo. “A Folha não conectava o Erramos com a matéria original, eram duas páginas diferentes. Para eu saber se havia algum erro naquela matéria, tinha que ir até a seção Erramos (e ninguém faz isso)”, lembra sobre as observações que fez há cerca de quatro anos.

Hoje, o jornal insere a data e a hora da atualização logo abaixo da data e horário de publicação. Acrescenta, ainda, um ícone que ao ser clicado para o leitor remete para a errata, publicada ao final da matéria. A página Erramos se mantém, permitindo que qualquer usuário verifique todas as correções feitas.

Embora seja mais fácil e rápido corrigir o erro na Internet, a ausência de critérios éticos pode fazer com que essa facilidade sirva como forma de ocultar a falha cometida. Isso acontece, por exemplo, quando a notícia é, meramente, atualizada. “Ou seja, se no impresso reclamávamos da pouca visibilidade das erratas, no online pode ser ainda pior, o veículo pode ‘fingir’ que o erro não existiu.”

A imprensa tem falhado ao não dar tanto destaque à correção de erros, acentua Lívia. “O veículo precisa levar em conta os diferentes momentos em que leitores distintos podem acessar aquela matéria. E em se tratando de internet, podemos falar de anos depois, pois o erro se perpetua quando não corrigido.”

Lívia de Souza Vieira – Doutora em Jornalismo, pesquisadora na área de jornalismo online e ética

Os desafios não ficam restritos a esses pontos. O que ocorre, por exemplo, quando a notícia que contém um erro é compartilhada nas redes? O alcance é difícil de prever, assim como é imprevisível saber se a versão que terá maior visibilidade será a primeira ou a que foi corrigida. Lívia recomenda que os jornais rastreiem os compartilhamentos da notícia para notificar os usuários, destaquem a correção nas redes sociais ou enviem a errata pelos feeds de RSS.

Por uma política de correção de erros na Internet

Lívia de Souza Vieira propõe os seguintes procedimentos de correção de erros:

  1. Ao ser descoberto, o erro deve ser corrigido, sem subterfúgios
  2. A correção do erro deve ser feita o mais rapidamente possível
  3. A retificação deve ser necessariamente disseminada pelos mesmos canais nos quais a informação incorreta foi divulgada (redes sociais, site, blogs, etc)
  4. Ao identificar o erro, deve-se seguir os procedimentos:
  • Em casos de erros ortográficos (grafia incorreta de palavras) e gramaticais (erros de concordância, vírgula, regência, entre outros), é permitida a correção sem menção ao erro. No entanto, é importante lembrar que o nome incorreto de uma fonte ou uma data errada, por exemplo, devem ser corrigidos com a publicação de uma retificação. Não se trata do tamanho do erro (se é uma palavra ou um parágrafo), mas de sua relevância para o leitor.
  • Em casos de erros de informação (que pode ser uma palavra ou até a notícia inteira), o texto da correção deve ser inserido na notícia original, em local visível na página. O repórter deve corrigir a informação e publicar a errata simultaneamente. O gerenciador de conteúdo do webjornal deve prever um campo específico para as correções, visando facilitar o procedimento pelo repórter.
  • Em caso de uma notícia inteiramente falsa, imprecisa ou incorreta, é possível substituí-la por uma explicação completa acerca daquele fato, mencionando o erro. O título da notícia, inclusive, pode ser modificado para alertar sobre a correção, desde que todo esse procedimento seja feito na mesma URL (sem a criação de novos links desconexos com a notícia original).
  • O texto da correção deve ser claro e objetivo. É recomendado informar o tempo em que a notícia permaneceu com erro, para contemplar os leitores que tiveram acesso a ela em diferentes momentos. Sugestão de padrão de texto, cujo tom pode variar de acordo com a linha editorial do veículo: “Das (x)h às (x)h, informamos incorretamente que (…). No entanto, a informação correta é (…) e o erro ocorreu porque (…). O texto foi corrigido. Pedimos desculpas aos nossos leitores”.
  • A lista de correções de erros deve estar acessível em seção específica, para que o leitor consulte as retificações. Mas só isso não basta: a notícia original deve igualmente conter menção à retificação.

Uma notícia jamais deve ser “despublicada”, mesmo que ela contenha graves erros jornalísticos. Tentar apagar o rastro do erro nunca é a melhor solução.