Produtores de arroz enfrentam obstáculos e baixa rentabilidade

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Os tempos continuam difíceis para o setor orizícola do Rio Grande do Sul. Responsável por 70% de todo o arroz nacional, o estado deve ter queda de produção na colheita de 2019, que inicia em fevereiro, em uma situação que vem se agravando há pelo menos oito safras, com a consequente desvalorização do produto.

Segundo a Farsul, houve uma diminuição de 6,5% da área plantada em relação ao último ano, totalizando 1,07 milhão de hectares. A entidade também projeta uma queda de 5,3% da safra. Outra estimativa preocupante vem da Emater/RS, que relata que, ainda que o clima tenha favorecido o plantio, a produtividade média inicial deve cair cerca de 3,4% neste ano, com 7.594 kg por hectare.

Lavoura Arroz – Crédito Fagner Almeida/Divulgação

Os índices são reflexo da baixa rentabilidade do negócio, uma vez que os custos de produção, que já estavam altos nos últimos anos, subiram consideravelmente durante o plantio em 2018, principalmente com relação ao diesel, agroquímicos e fertilizantes. “A situação começou a se agravar nas últimas oito ou nove safras, mas nesse ano nós tivemos um incremento acima de 15% nos custos. No geral, os agricultores estão empatando por dificuldade”, diz o diretor técnico do Irga, Maurício Fischer.

Também soma-se a esse conjunto de fatores a logística. “Nós produzimos arroz aqui no sul do Brasil e temos que levar pro consumidor do nordeste. Isso, com a questão do frete, deu um salto nos custos, então a produção está um pouco deslocada do consumo”, explica.

O preço por saca não vem compensando e, para muitos agricultores, não supera o valor dos custos, causando prejuízo e consequentes endividamentos. Henrique Dornelles, presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Estado do Rio Grande do Sul (Federarroz), avalia que o preço de R$ 38,00 a R$ 40,00 por saca, considerado bom na última safra, já não seria rentável para este ano.

“O arroz perdeu o valor para o supermercadista, e talvez até para a população, na medida em que se arrocha de qualquer sorte os preços, sem qualquer motivo plausível, que é o caso desse momento. Isso deverá seguir impactando nos próximos tempos até quando houver uma redução significativa da produção em função da baixa rentabilidade”, alerta.

O Irga realiza um trabalho de campo no sentido de orientar os agricultores a otimizarem a produção por meio de técnicas, desde o uso de variedades mais resistentes a doenças até o uso adequado de defensivos. Essas medidas visam amenizar um pouco o impacto dos custos e gerar mais sustentabilidade para o agricultor.

Soluções mais definitivas, no entanto, dependem de mudanças estruturais, a começar por uma reforma tributária. Outro caminho seria um acordo mais vantajoso com o Mercosul, já que, quando se represa a produção no estado no sentido de regular a oferta, as demais regiões importam o produto do Paraguai, conta Dornelles. O produtor acredita que a redução da área plantada deve acarretar no ajuste dos preços. “Estou desacreditado em pensar que poderíamos trabalhar com redução de custos de produção. Eu vejo que se deveria diminuir a área plantada, com o objetivo de se ajustar a demanda”, avalia.

Henrique Dornelles/Federarroz – Crédito AgroEffective/divulgação

Na prática, embora muitos produtores estejam migrando para outras culturas, como a soja, boa parte tem dívidas e compromissos de financiamento, e mais de 60% da área de plantio é arrendada, estima o diretor do Irga. Esse conjunto de fatores dificulta que os produtores saiam da atividade, o que acaba gerando uma bola de neve. Já o presidente da Federarroz alerta para a situação dos arrozeiros que tem contratos de Cédula de Produto Rural (CPR). “Esses produtores vão ter prejuízo, porque tem que entregar o arroz na colheita, a qualquer preço. Isso hoje está ajudando a degradar o mercado, porque o mercado já tem expectativa que vai cair muito o preço na safra”, critica. Nesse sentido, a diversificação de culturas e integração com a pecuária pode ser um caminho.

Apesar de a situação ser preocupante, o Rio Grande do Sul não é o único estado a passar por dificuldades no setor orizícola, já que a redução na produção e na área plantada vem sendo observada em outras regiões e em países da América do Sul, como Argentina e Uruguai, também com o consequente achatamento nos preços.

No cenário internacional, contudo, a boa notícia é que o Rio Grande do Sul vem se destacando pela qualidade e pela conquista de novos mercados e o aumento no volume de vendas para a Venezuela. De acordo com a Federarroz, desde que se começou a exportar arroz em casca no país, neste ano houve aumento significativo de competitividade em relação ao produto dos Estados Unidos. Países da América Central tem reconhecido a qualidade do arroz brasileiro com um prêmio de US$ 15,00 por tonelada. Nações africanas, como o Senegal, também tem intensificado as importações do grão brasileiro nas últimas safras.

Atualmente, o Rio Grande do Sul exporta 15% de sua produção, índice que poderia aumentar se as negociações avançassem principalmente com o México, que apresenta exigências que os produtores brasileiros não conseguem cumprir. Ainda assim, a tendência é de crescimento, com a estimativa de um montante de R$ 1,4 milhão de toneladas projetado pela  Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), cerca de 400 mil toneladas a mais que o exportado na safra anterior.