Zoneamento agrícola reduz perdas no campo

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Lavoura de arroz Foto: Wendersson Araujo

Desenvolvido pela Embrapa, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) resultou em uma economia de R$ 16,8 bilhões para o agronegócio brasileiro apenas no ano passado. A estimativa foi calculada para o Balanço Social 2018 da Embrapa e equivale, principalmente, aos prejuízos que o País deixou de sofrer com perdas de safras e às consequentes indenizações securitárias que elas provocariam.

Baseado em dados climáticos históricos, o Zarc indica as datas de plantio em que há menor risco de frustração de safra provocada por condições ambientais adversas, ou seja, orienta o produtor e o agente financiador sobre as épocas e regiões mais adequadas para se plantar, gerando maior segurança.

O mapeamento está disponível para 44 culturas em todos os municípios brasileiros. Os estudos envolvem clima, solo e grupos de cultivares, a partir de uma metodologia da Embrapa adotada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) como instrumento de política agrícola.

Os programas Proagro, Proagro Mais e Subvenção Federal ao Seguro Rural Privado (PSR) exigem a consulta ao Zarc como requisito à adesão dos agricultores. Para os produtores que dependem do Proagro ou do Seguro como garantia de crédito, além de uma proteção, é uma forma de poder acessar o crédito rural. Estima-se que somente o Proagro teve uma economia superior a R$ 2,5 bilhões em 2018, graças à segurança ao investimento proporcionada pelas informações do zoneamento.

De 1996, quando o Zarc foi adotado pelo Proagro, até 2018, o programa pagou mais de R$ 14 bilhões em indenizações. A estimativa é de esse valor seria mais de R$ 40 bilhões maior, se não houvesse a tecnologia.

O Ministério da Agricultura publica periodicamente portarias com as recomendações do Zarc, contribuindo para reduzir as perdas na produção e assegurar o acesso aos programas de mitigação de risco e também viabilizando o acesso ao financiamento agrícola. O produtor deve observar essas recomendações para ter direito ao Proagro, ao Proagro Mais e ao PSR.

André Fachini, analista da Embrapa, relata que, antes de 1996, ano da adoção do Zarc, outros critérios eram considerados nos programas federais de auxílio aos produtores. “Ocorre que, com a falta de uma referência técnica para apoio à tomada de decisão (papel atual do Zarc), a margem de erro era grande, o que ocasionava um volume significativo de perdas agrícolas e, consequentemente, o acionamento do seguro em patamares muito elevados”, conta.

Àquela época, as perdas agrícolas atingiam níveis considerados altíssimos. Na safra 1992/1993, 30% das lavouras paulistas de arroz registraram algum tipo de sinistro. Já no Nordeste, a mesma safra sofreu perdas de 41% das plantações de feijão, 70% de milho e 81% de algodão herbáceo.

Hoje, o zoneamento é uma importante base de informações para o seguro agrícola brasileiro. Na prática, a tecnologia permite que qualquer agricultor ou agente financeiro saiba as melhores opções de plantio em qualquer parte do Brasil. Os pesquisadores utilizam diferentes fontes para alimentar o zoneamento e acompanhar eventuais alterações regionais (no clima, por exemplo) que ocasionam alterações nas indicações de plantio de grãos.

Eventos extremos, como seca, geada, excesso de chuva, granizo, vento e temperaturas elevadas podem causar sérios prejuízos às culturas, tanto durante a fase de enchimento de grãos quanto no período da colheita. Estima-se que a agricultura brasileira ainda sofra perdas anuais de R$ 11 bilhões somente por impactos climáticos.

O pesquisador da Embrapa Trigo Gilberto Cunha lembra que, além dos riscos relacionados ao clima que afetam a produção, há também os de mercado, relativos aos preços praticados, e os vinculados ao ambiente institucional. “Assim, sem dúvida, a gestão integrada de riscos está cada vez mais importante nesse setor”, ressalta.

Zoneamento – Lavoura de soja com irrigação Foto cna

Para elaborar o zoneamento, entre outros pontos, os técnicos observam e quantificam o comportamento da cultura frente a determinada adversidade climática, em experimentos e lavouras comerciais.

No caso da soja, por exemplo, a base genética da cultura mudou desde os anos 1990 e é, hoje, o principal item da safra de grãos do Brasil. O zoneamento também beneficia os sistemas de Integração-Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), que promovem grande benefício às lavouras, principalmente conferindo maior estabilidade na produção.

A apicultura, por exemplo, depende muito dos estudos de risco. A produção de mel e outros produtos apícolas é fortemente influenciada pelo clima. Algumas condições podem, inclusive, provocar severa mortalidade de colmeias. Por isso, está sendo avaliada a possibilidade de essa atividade fazer parte dos sistemas produtivos incluídos no Zarc.