Tecnologias qualificam a produção do arroz

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Durante a abertura da colheita do arroz, ocorrida em fevereiro, em Pelotas, cultivares recentes e novas variedades foram apresentadas por pesquisadores da Embrapa Clima Temperado: BRS Pampeira, BRS Pampa CL, BRS 358, BRS A701 CL e a novidade, a BRS A705.

Em destaque, a variedade mais recente, a BRS A705, que deve ser lançada ainda neste ano. Sua principal vantagem é o porte, 5 a 10 cm mais baixo do que o das variedades comerciais, o que a torna resistente ao acamamento. Possui ainda ciclo precoce e potencial de produtividade acima de 10 toneladas por hectare.

A BRS Pampeira é uma das variedades Embrapa com maior teto de produtividade, com potencial acima de 12 toneladas por hectare. Lançado há três anos, o material também é hoje o mais utilizado no estado do Tocantins por apresentar alta resistência à brusone.

A BRS Pampa CL, desenvolvida para o sistema Clearfield, já é utilizada no Rio Grande do Sul há quatro anos e tem apresentado boa resistência à brusone e a outras doenças, além de ser tolerante à toxidade por ferro. Também possui ciclo precoce, excelente qualidade de grãos e elevado potencial produtivo – superior a 11 toneladas por hectare.

Voltada à culinária japonesa, a BRS 358 se destaca pela qualidade. No município de Jaguarão, os produtores receberam 50% a mais pela produção. Suas vantagens estão no grão, mais curto e redondo e com baixo teor de amilose, o que o torna mais pegajoso e molhado após o cozimento.

Por fim, a BRS 701 CL é a segunda variedade Embrapa para o sistema Clearfield. Desenvolvida a partir da BRS Taim – muito utilizada no Estado no passado –, apresenta resistência ao herbicida Kifix, do grupo das imidazolinonas, largamente utilizado na lavoura orizícola para controle do arroz vermelho.

Conforme explicaram os pesquisadores, todas as tecnologias da Embrapa já foram testadas no campo e na indústria e, de modo geral, têm apresentado alta produtividade e excelente qualidade de grão.

A tecnologia é importante para qualificar uma produção encontrada em um terço do Rio Grande do Sul. Segundo a Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), cerca de 140 municípios gaúchos possuem como principal atividade econômica o cultivo do arroz e a prática da cultura é responsável pela geração de 20 mil empregos diretos. Este ano, os produtores foram responsáveis por 940 mil hectares de área plantada e que deve chegar a 7,5 mil quilos de produtividade.

Alexandre Velho – Presidente da Federarroz

Para o presidente da entidade, Alexandre Velho, seis mil produtores e suas famílias dependem do cultivo do cereal no Estado. “Nós temos que, cada vez mais, buscar alternativas, soluções e ter melhor gestão dos nossos negócios”, afirmou, apontando a soja como opção para a redução de custos e aumento na fertilidade de solo.

As exportações são um mercado promissor para este ano. Conforme Velho, um dos destaques é o México, mas temos um concorrente de peso: os Estados Unidos, que comercializam 800 mil toneladas, por ano, para aquele país. “Os norte-americanos fazem o envio por meio trem, porém produzem cereal híbrido, de menor qualidade se comparado ao nosso”, complementa. “Não podemos perder esta oportunidade. O câmbio nos trouxe competitividade, além da redução da safra nos Estados Unidos e a seca no México”, destaca. A Federarroz está atenta a possíveis negócios no Panamá e Guatemala. “A busca por novos mercados vai continuar”, complementou.

Em 2019, as exportações brasileiras de arroz somaram 1,43 milhão de toneladas base casca, conforme dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC). Para a Federarroz, o resultado não deixa de ser surpreendente, pois com a expressiva quebra da safra nacional e das disponibilidades, a tendência seria de reduzir substancialmente as exportações. Em 2018, o volume comercializado no exterior chegou a 1,7 milhão de toneladas.

Marco Aurélio Tavares – Diretor de Mercado da Federarroz

Ano passado, o Brasil apresentou como perfil na exportação 517 mil toneladas no arroz beneficiado, 269 mil no arroz em casca, 644,7 mil no arroz quebrado e 2,6 mil toneladas no arroz esbramado. Segundo o diretor de Mercado da Federarroz, Marco Aurélio Tavares, o Brasil tem se mantido entre os dez maiores exportadores do cereal e, excluindo os países asiáticos, fica na segunda colocação, apenas abaixo dos Estados Unidos. “Com isso, indiscutivelmente, se consolida como importante player no mercado internacional”, destaca.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), nas últimas safras a área cultivada com arroz vem diminuindo, sobretudo em áreas de sequeiro. Apesar da redução nos últimos anos, a maior proporção do plantio em áreas irrigadas, que geram maiores produtividades, e o contínuo investimento do orizicultor em tecnologias, vêm permitindo a manutenção da produção. A expectativa para a safra 2020 é de 10,51 milhões de toneladas de arroz – o Rio Grande do Sul responde por 80%.

Para reduzir endividamento, Pronaf pode ser alternativa
Um ponto importante de discussões na abertura da colheita do arroz foi o endividamento. De acordo com o presidente da Câmara Setorial do Arroz, Daire Coutinho, um dos principais temas de debate do órgão é resolver o passivo do endividamento dos produtores de arroz. “Em relação ao setor produtivo, a cadeia, a câmara e as entidades vêm numa luta para solucionar este problema. Nossos parlamentares também estão trabalhando para que isso aconteça. Acreditamos que as coisas estão caminhando em um sentido de buscar uma solução para este produtor”, observa.

Daire Coutinho – Presidente da Câmara Setorial do Arroz

Uma das possibilidades, conforme Coutinho, é a ampliação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) para enquadramento dos produtores de arroz, que já recebeu uma sinalização positiva do Ministério da Economia. “O Pronaf tem uma legislação diferente, um acesso diferente. Isto vai fazer que, com o aumento dos limites do Pronaf, tenhamos produtores que poderão migrar- com isso teremos um juro menor e melhor condição de financiamento”, afirma.

Consumidor busca mais informações
A coordenadora da Estação Regional de Pesquisa do Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), Mara Grohs, defendeu a necessidade de valorização comercial do grão. Conforme ela, o consumo per capita caiu – hoje, chega a 34 quilos do cereal/ano por pessoa.

Mara Grohs – Coordenadora da Estação Regional de Pesquisa do Irga

Mara alertou que, cada vez mais, é maior a parcela da população que deseja saber a história do alimento que está consumindo. “Como o arroz foi produzido? Quais as práticas que foram empregadas? Porque essas informações não estão disponíveis nas embalagens? Porque estamos realizando o plantio direto, menor emissão de gases, agroquímicos, baixa utilização de água e isso não está escrito?”, avisa a coordenadora.

De acordo com a coordenadora da estação regional do Irga, o setor está perdendo oportunidades. “Essa nova geração só vai permanecer na lavoura de arroz se nós traçarmos um caminho, um sistema sustentável social, financeiro e ambiental”, enfatizou.

O manejo de pragas também é importante, conforme informou Marcelo Mendes Haro, pesquisador da Epagri (SC). De acordo com ele, alteradores de comportamento, como feromônios, devem passar a ser mais utilizados nas lavouras em conjunto com armadilhas luminosas, por exemplo. “Hoje há opções 100% autônomas, com energia solar”, destacou, lembrando que a questão química passará a ser utilizada de forma alternativa. “A nossa revolução será biológica”, finalizou.

PlanejArroz auxilia no manejo da lavoura
Desenvolvido pela Embrapa em parceria com a Universidade Federal de Santa Maria e o Instituto de Meteorologia, o aplicativo PlanejArroz faz indicações de manejo e de estimativa da produtividade da cultura.

O PlanejArroz tem dois módulos. O primeiro é baseado em graus-dia e faz a estimativa da data de ocorrência de seis estágios de desenvolvimento das cultivares recomendadas, na média dos anos e na safra, visando o planejamento e a tomada de decisão sobre o manejo da cultura.

O segundo módulo utiliza o modelo SimulArroz para estimar a produtividade de grãos, na média dos anos e na safra, das três cultivares mais semeadas no Estado (IRGA 424 RI, Guri Inta CL e Puitá Inta CL). A ideia é que, no futuro, essas cultivares sejam substituídas por outras, que passem a ser as mais semeadas no Estado.