Serra Gaúcha é pioneira no país em vinhedos biodinâmicos

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Você já ouviu falar em agricultura biodinâmica? Para quem desconhece essa técnica, o nome até pode sugerir uma prática atrelada à modernidade, mas estamos falando de um conceito que remonta, principalmente, a uma ideia essencial nem sempre priorizada no contexto atual: o equilíbrio e uma conexão mais íntima entre o homem e a natureza, na busca de qualidade de vida e sustentabilidade.

Se no caso dos orgânicos o grande objetivo é não fazer uso de qualquer tipo de agrotóxico, aqui tratamos de um processo ainda mais profundo. Nele, a propriedade é entendida e trabalhada como um “organismo agrícola”, de maneira holística, respeitando e valorizando o “todo”, pois há uma intensa relação de interdependência entre os sistemas empregados.

Os preceitos que regem a agricultura biodinâmica foram estabelecidos pelo austríaco Rudolf Steiner, em 1924, fundamentados na antroposofia, uma forma de conhecimento amplo que estuda o ser humano em diversos campos e níveis de conhecimento. Como principal ferramenta de trabalho do biodinamismo, surgem, em especial, nove “preparados” utilizados no cultivo e que reúnem em sua composição, por exemplo, materiais como quartzo, plantas medicinais, flores e esterco bovino. Ainda que possa ser considerada uma proposta incipiente, a produção biodinâmica já tem alcançado resultados efetivos no meio vitivinícola da Serra Gaúcha, no Rio Grande do Sul.

De forma pioneira, a Cooperativa Vinícola Garibaldi incluiu em seu catálogo, no início de 2019, o Espumante Brut e o Suco de Uva da linha Astral, os primeiros no país certificados por auditoria internacional. A elaboração dos preparados biodinâmicos respeita, inclusive, ciclos astronômicos e astrológicos. “Eles permanecem enterrados durante um período do ano, então são colhidos e armazenados de forma adequada. A qualidade do material utilizado na elaboração é fundamental para a produção dos preparados biodinâmicos. Eles são divididos em preparados de campo, que são aplicados nas áreas de cultivo e devem ser dinamizados por uma hora e aplicados em determinados períodos do dia; preparados de composto, que são aplicados em pilhas de compostagem, que serão utilizadas na adubação das áreas de cultivo. Através de todas estas práticas, busca-se entrar num ciclo virtuoso de equilíbrio desta propriedade com o meio em que está inserida e de menor dependência de insumos externos”, explica a engenheira agrônoma Lara Silvestrin, responsável técnica do trabalho inédito desenvolvido pela Garibaldi.

Iniciado em 2014, o projeto envolve três produtores de uvas, em uma área que alcança 11 hectares e com um trabalho em constante aprimoramento. O foco não está na alta produtividade vitícola, e sim na estabilidade e na qualidade das videiras e de seus frutos. “Até agora, observa-se melhorias na qualidade da uva, especialmente no teor de açúcar. Mas principalmente, na propriedade como um todo, é perceptível a melhora na vitalidade das plantas cultivadas e espontâneas, assim como maior presença de insetos e animais selvagens. A produtividade, até então, apresentou redução, provavelmente pela restrição no uso de adubos. A expectativa é que os vinhedos atingirão um equilíbrio, estabilizando a produtividade, que se manterá constante mesmo em anos com maiores adversidades”, destaca Lara.

Na outra ponta, onde estão os consumidores, a receptividade vai, aos poucos, se fortalecendo. “A percepção de cada pessoa com relação ao consumo de um alimento é muito particular. Com relação aos vinhos biodinâmicos, em todo o mundo, são muito reconhecidos por sua qualidade, a exemplo do francês Romanée-Conti. A menor interferência enológica e a busca pelo equilíbrio e pela expressão da planta no ambiente em que está inserida, através de seu fruto, podem ser a causa para este resultado”, avalia.