RS avança no processo de retirada da vacina

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Foto: Fernando Dias

Medida desejada por boa parte do setor produtivo do agronegócio gaúcho e pelo poder público, o status de zona livre de febre aftosa sem vacinação está mais próximo do Rio Grande do Sul. Neste ano, a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural apresentou as medidas que seguem 18 recomendações apontadas pelo Ministério da Agricultura (Mapa) no relatório da auditoria realizada em setembro do ano passado. Hoje, no Brasil, apenas os estados de Santa Catarina e Paraná conquistaram o status sanitário de zona livre de aftosa sem vacinação.

Entre as recomendações do Mapa, está a reorganização do quadro de pessoal para que os fiscais agropecuários sejam retirados de atividades administrativas e se dediquem integralmente à fiscalização e a atualização da frota de veículos da secretaria.

Também devem ser implementadas modernização e ajuste do Sistema de Defesa Agropecuária, padronização no cumprimento da legislação, incremento da fiscalização volante, elaboração de estratégia para funcionamento dos postos fiscais, incremento na fiscalização de eventos com aglomeração de animais, cumprimento de metas dos programas de sanidade animal e atividades de educação em saúde animal.

Covatti Filho
Secretário da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural

Conforme explica o secretário Covatti Filho, “alguns apontamentos nós já tínhamos soluções a apresentar. A retirada da vacinação é o maior avanço desta secretaria para os próximos anos”, relatou.

Com o ajuste de alguns pontos solicitados pelo Mapa em andamento, conforme a chefe da Divisão de Defesa Sanitária Animal da Secretaria da Agricultura, Rosane Collares, há segurança para o atendimento das demandas. “O Serviço Veterinário Oficial está em permanente treinamento, muitas inspetorias foram revitalizadas, com recursos do Fundesa e a condição geral de atuação é completamente diferente do que havia em 2000”, garante Rosane. Além disso, na auditoria, o Rio Grande do Sul obteve nota 4 de 5 em capacidade de detecção precoce e notificação imediata e capacidade de atendimento de suspeitas e atuação em emergências.

Conforme o presidente do Fundesa, Rogério Kerber, o que falta agora é uma decisão política, pois tecnicamente o Rio Grande do Sul, diante de tudo o que foi apresentado com embasamento técnico, está em alinhamento com a diretriz da tomada de decisão para a retirada da vacina. “Essa possibilidade acena positivamente para os setores exportadores de proteína animal, pois permite o acesso a mercados diferenciados e que remuneram melhor.”

Agora, ministério e secretaria farão novas reuniões para avaliar as medidas adotadas e decidir se o processo de evolução do status sanitário continuará, com a possibilidade de a etapa da vacinação de maio ser suspensa.

Se o Rio Grande do Sul for declarado como zona livre de aftosa sem vacinação, poderá atingir mercados mais exigentes, que atualmente não reconhecem e não compram proteína de animais de zonas com vacinação e que, consequentemente, remuneram melhor. São clientes como a China, Japão, Coreia do Sul, Estados Unidos, Chile e Filipinas.

SC e PR: as duas zonas livres
Desde que Santa Catarina e Paraná conquistaram o status sanitário de zona livre de aftosa sem vacinação, o Rio Grande do Sul não pode mais vender para estes estados. Só o Paraná representa 70% dos bovinos comercializados do território gaúcho para outros estados.

Santa Catarina, por sinal, completa 20 anos sem vacinar o rebanho contra a febre aftosa. Os bovinos e bubalinos existentes em Santa Catarina não têm nenhuma imunidade contra o vírus o que significa que são altamente susceptíveis a serem acometidos pela enfermidade caso tenham contato com o vírus da doença.

Para evitar o contágio, existem condições normativas e burocráticas que impedem a entrada de animais com traços de anticorpos em território catarinense – a simples identificação de animais com essa característica coloca em dúvida a condição do rebanho e, consequentemente, o status sanitário de SC.

Santa Catarina é livre de outras doenças que acomete bovinos/bubalinos, suínos e aves e, também, mantém níveis muito baixos de animais contaminados por tuberculose e brucelose, não sendo permitido o uso de vacina para estas enfermidades.

O Paraná, por sua vez, adquiriu recentemente o status de zona livre de vacinação e isso já repercute na cadeia bovina do estado de uma forma não positiva, por sinal. Com a proibição de entrada no Paraná de bois para reposição do plantel, sendo permitido somente o ingresso de animais para abate pelo corredor sanitário, devido ao fim da vacinação do rebanho contra febre aftosa, os frigoríficos paranaenses passaram a depender quase que exclusivamente da oferta local de bois gordos para o abate para funcionar.

De acordo com dados do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados no Estado do Paraná (Sindicarne-PR), o ano de 2020 começou com desabastecimento. Antes do fim da vacinação, entravam por ano no Paraná mais de 100 mil animais para engorda ou abate — esse trânsito foi praticamente proibido. O resultado é que ocorre uma saída irregular, em torno de 50 mil animais por ano, o que provoca escassez de gado na oferta local, porque agora o estado depende só da sua  produção interna.