Riqueza que vem da árvore

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Eucaliptos /Floresta Foto: CNA

Com quase US$ 10 bilhões em exportações, a indústria de árvores (celulose, papel, móveis, carvão e cavaco) ocupa o quarto lugar nas exportações do Brasil, atrás de soja, minério de ferro e petróleo. No Rio Grande do Sul, são 2,3 mil empresas, com 373 mil empregados, em um setor que responde por 6,9% do PIB gaúcho.

As imensas florestas plantadas, que ocupam cerca de 800 mil hectares no Estado, produzem matéria-prima de três variedades principais: eucalipto, acácia e pinus. O que pouca gente sabe é que existem outros 750 mil hectares de áreas preservadas pela silvicultura gaúcha, uma riqueza impressionante de flora e fauna em diversas regiões do Rio Grande do Sul.

Mesmo com esse vistoso panorama, a silvicultura poderia gerar ainda mais riqueza e empregos, mas o setor precisa de alterações na legislação. Uma delas é atualização do Zoneamento Ambiental da Silvicultura (ZAS).

Presidente da Associação Gaúcha de Empresas Florestais (Ageflor), Diogo Leuck esclarece que o ZAS em vigor foi criado há 12 anos, utilizando dados de dez estações pluviométricas. Hoje, esse número pulou para mais de 300 pontos de informação de dados de chuva espalhados em todo o Rio Grande do Sul. “Também há novas pesquisas e levantamentos sobre fauna e flora feitos por profissionais contratados pelas empresas e que serão entregues ao poder público com esse objetivo”, salienta ele.

Criada em 2016 e regulamentada um ano depois, a Lei 14.691 regula o setor florestal do Rio Grande do Sul. Foi importante para desburocratizar a silvicultura, e deu prazo de dois anos para que os empreendedores regularizassem suas áreas. “O que significa isso? Fazer licenciamento ambiental. Quem ainda não fez, o prazo termina no fim deste ano”, conta o presidente da Ageflor.

Ele estima que existam, hoje, cerca de 150 mil hectares no Rio Grande do Sul não oficializados, que podem se somar aos 800 mil  já registrados. Com imagens de alta resolução por satélite, é possível identificar plantios a partir de 1,5 hectare, ou seja, áreas realmente pequenas. “O pequeno produtor ficou à margem da legislação devido à burocracia e ao alto custo. Eram necessários estudos, laudos, o que inviabilizava a regularização”, acrescenta.

Resíduo para Biomassa – A Indústria Pellco irá construir, em Pinheiro Machado, a maior fábrica do mundo de pallets, com investimento de R$ 1,4 bilhão

Mesmo com este avanço, falta uniformizar a informação. Conforme o presidente da Ageflor, o setor pede a unificação dos diversos portais hoje existentes. “O produtor precisa informar os dados em várias entradas, como no Cadastro Ambiental Rural (CAR), o Sistema de Cadastro Florestal da Secretaria da Agricultura e o Sistema de Licenciamento da Fepam. Se perde tempo e não é bom para ninguém”, avisa.

Na questão ambiental, o setor florestal gaúcho tem mais 750 mil hectares preservados em áreas de silvicultura. “Isso está distribuído dentro das fazendas. São florestas de alto valor de conservação, com riqueza de fauna e flora muito grande. Ou seja, temos quase uma relação de 1 por 1”, conta ele. Leuck esclarece que existe no Rio Grande do Sul 1,8 milhão de hectares com parques, unidades de conservação e áreas ambientalmente protegidas. A silvicultura responde por 58% desse total.

Leuck concorda que houve um erro estratégico da silvicultura gaúcha em não comunicar mais efetivamente casos pontuais de poluição, mas destaca que muita informação que circula a respeito é antiga.

“Quem diz que uma floresta de eucalipto vai gerar um deserto verde está completamente errado. Temos diversas espécies juntas, como eucalipto e pinus, criando corredores ecológicos com livre circulação de animais”, esclarece.

A ideia de que o eucalipto “seca” o solo é outro mito. Segundo o presidente da Ageflor, um hectare com eucaliptos consome menos água que um campo destinado à pastagem. “O que o eucalipto faz é reter água em época de chuvas para utilizar depois quando ocorre seca. Isso traz uma melhor distribuição pluviométrica inclusive”, diz.

A atividade poderia aumentar em muito a área ocupada no Estado. O próprio governo estimou, ano passado, que haveria mais 700 mil hectares disponíveis para a silvicultura. O problema, conforme Leuck, é que são áreas onde não existem, hoje, indústria de celulose ou serrarias.

A madeira de maior valor, com 30 anos de idade, é destinada para as serrarias. Essa admite um raio de transporte até 600 km da indústria. No caso da celulose, o ideal é que a madeira não viaje mais do que 150 km até a fábrica, caso contrário, devido ao elevado custo logístico, torna inviável a produção.

Investimentos garantem capacidade produtiva
Apesar da área florestal ter crescido pouco nos últimos anos, Diogo Leuck salienta que o setor industrial cresceu bastante – caso da CMPC Celulose, em Guaíba, que triplicou a capacidade nos últimos anos, chegando a 1,8 milhão de toneladas de celulose por ano. A base florestal da empresa possui uma área de plantio de 324 mil hectares, sendo 170 mil hectares voltados ao plantio de eucalipto e o restante destinado a Áreas de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal.

Também há novidades em pellets (pequenos cilindros de madeira). A indústria Pellco irá construir, em Pinheiro Machado, a maior fábrica do mundo de pellets, com um investimento de R$ 1,4 bilhão. O pellet é industrializado com resíduos de madeira e usado para produzir energia a partir da sua biomassa. As obras devem iniciar ainda neste ano.

Diogo Leuck, Presidente da Ageflor

Em Cambará do Sul, uma usina térmica irá utilizar toras, galhos, tocos e feixes de madeira como combustível para geração de energia elétrica. Vai ocupar uma área de 29 mil metros quadrados com capacidade de 50 MW de potência. O investimento será de R$ 260 milhões. Para abastecer o complexo serão utilizados 150 mil hectares de florestas cultivadas com pinus em um raio de 100 quilômetros do local. “Não podemos deixar faltar matéria-prima para esses investimentos. Devemos ampliar a base florestal, mas dependemos de novas áreas e mais licenciamento”, avalia Leuck.

As estimativas são de maior demanda tanto no Brasil quanto no exterior. Uma das explicações é a gigantesca versatilidade dos produtos extraídos da madeira. Do pinus, por exemplo, a indústria retira resina para fazer breu e a terebintina, utilizada na produção de perfumes e sabonetes. Da acácia se extrai o tanino, aplicado no tratamento de água e no curtimento do couro. Há usos ainda em embalagens de remédios, no vestuário, em combustíveis e em nanotecnologia.

Até 2050, as projeções dão conta que o consumo de produtos florestais, no mundo, irá aumentar três vezes. Seriam necessários mais 250 milhões de hectares para atender a essa demanda. “Isso representa uma oportunidade de ouro para o Rio Grande do Sul e o Brasil”, salienta o executivo da Ageflor.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem cerca de 10 milhões de hectares de árvores plantadas. Desse total, seis milhões de hectares são destinados à conservação, somando áreas de restauração, preservação permanente (APP), reserva legal (RL) e Reserva Particular do Patrimônio Natural.

Mapeamento do setor mostra que 35% das áreas de florestas plantadas no Brasil são de propriedade das indústrias de celulose e papel; 13% siderurgia e carvão vegetal; 6% painéis de madeira e pisos laminados; 9% investidores financeiros; 30% produtores independentes; 4% produtos sólidos de madeira; 3% outros.

Por ano, o Brasil produz uma média de 35,7 metros cúbicos por hectare para o plantio de eucalipto e, no caso do pinus, o plantio atinge 30,5 metros por hectare, média que coloca o país na liderança do ranking global de produtividade florestal, de acordo com balanço da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá).

Em maio, o Ministério da Agricultura aprovou o Plano Nacional de Desenvolvimento de Florestas Plantadas (PNDF). A meta é ampliar a área de produção florestal em dois milhões de hectares até 2030.

Com ações previstas para os próximos dez anos, o plano busca dar segurança jurídica para investimentos nas culturas agrícolas de origem florestal, desde o segmento fornecedor de insumos até o consumidor final, além de reconhecer a importância econômica, social e ambiental do setor.

Concessão de áreas florestais garante recursos
O Serviço Florestal Brasileiro (SFB) quer ampliar a produção de madeira proveniente de áreas sob concessão florestal de áreas nativas. Um dos principais objetivos do sistema de concessão florestal é gerar produtividade, renda e empregos mantendo a floresta nativa em pé.

Atualmente, pouco mais de um milhão de hectares de floresta nativa pública está sob concessão florestal. São 17 contratos em seis florestas nacionais situadas nos estados do Pará e Rondônia. A ideia é que a produção de madeira em áreas de concessão aumente 20% nos próximos quatro anos.

Com produção média anual de 200 mil metros cúbicos de madeira, a concessão florestal representa 1,5% da produção de madeira proveniente de floresta amazônica. Todas as árvores da floresta nativa pública que têm interesse ou viabilidade comercial são identificadas e inventariadas. Em uma área de um hectare da floresta amazônica, espaço que equivale a um campo de futebol, existem geralmente 700 árvores com diâmetro acima de 10 cm, contudo, apenas as que tem diâmetro acima de 50 cm podem ser colhidas no manejo sustentável.

A concorrência pública da concessão florestal envolve uma série de etapas, desde identificação das áreas, a realização de várias audiências públicas envolvendo a comunidade local até o processo de seleção e contratação da concessionária. Os contratos firmados com o Serviço Florestal têm sido de 40 anos.

MPC Celulose e Papel
A empresa de Guaíba triplicou a sua capacidade nos últimos anos, chegando a 1,8 milhão de toneladas de celulose por ano

A exploração de recursos não madeireiros, como castanha-do-Pará, açaí e outros produtos florestais, não é objeto da concessão e pode ser feita somente pelas comunidades locais. O concessionário pode explorar produtos não madeireiros, desde que não sejam de uso tradicional da população que vive na floresta ou no entorno dela.

Os recursos arrecadados por meio da concessão florestal são distribuídos entre o Serviço Florestal Brasileiro, que fica com o chamado valor mínimo anual de 30% do valor de contrato; o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que recebe 40%; os estados e municípios, com 20% cada, e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Florestal, que fica com outros 20%.