Puxadas pela China, exportações de carnes sobem em 2020

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Mesmo com efeitos da pandemia, tendência de vendas maiores para o exterior deverá seguir no próximo ano

Em 2020, o setor de carnes viveu um ótimo momento em relação às exportações. Mesmo com os efeitos da pandemia de Covid-19 na redução de consumo em vários mercados, os frigoríficos brasileiros conseguiram aumentar as vendas externas tanto em volume como em receita. E esse movimento positivo deve continuar em 2021, segundo analistas.

No acumulado do ano até outubro, as exportações brasileiras de carne bovina apresentaram um crescimento de 9% no volume e de 16% na receita, com movimentação de 1,65 milhão de toneladas e entrada de divisas na ordem de US$ 6,8 bilhões. Em 2019, no mesmo período, a movimentação alcançava 1,52 milhão de toneladas e a receita US$ 5,8 bilhões. Os dados foram informados pela Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo).

A China, através de suas importações pelo continente e pela cidade estado de Hong Kong, continua alavancando este crescimento. Até outubro, as importações chinesas somaram 948 mil toneladas, com receita de US$ 4 bilhões. Em 2019, essa movimentação atingiu 625,2 mil toneladas, com receita de US$ 2,64 bilhões – o que significou um crescimento de 106% nas importações chinesas pelo continente e uma queda de 10% nas realizadas por Hong Kong.

Um exemplo foram as vendas externas da Minerva Foods, maior exportadora de carne bovina da América do Sul. Segundo dados divulgados no balanço da empresa do terceiro trimestre, nos nove primeiros meses do ano, a receita das exportações das plantas brasileiras da Minerva totalizou R$ 6,367 bilhões, expansão de 22,8% frente ao mesmo período de 2019. Desse montante, a China sozinha foi responsável por 43% do total.

O principal motivo para as fortes compras chinesas é a necessidade de abastecer o mercado local com proteína animal, após as perdas no plantel suíno do país em 2019, devido à ocorrência da peste suína africana (PSA). Para combater a doença, os criadores chineses se viram forçados a abater 40% de suas criações de suínos no ano passado.

“O caminho para a recuperação do plantel suíno chinês ainda é longo, e eles vão seguir com a necessidade de aumentar a importação de proteínas animais. Essa demanda elevada continuará fornecendo oportunidades de negócios para as carnes brasileiras”, afirma Lígia Dutra, superintendente de relações internacionais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Entretanto, se não fosse o consumo chinês, as vendas externas das carnes brasileiras teriam sido fortemente impactadas pelos efeitos da pandemia de Covid-19 nos mercados, com redução de consumo de diversos compradores do produto nacional.

Até outubro, as exportações brasileiras de carne bovina cresceram 9% em volume e 16% em receita

O Egito, segundo maior comprador do Brasil, importou 113,3 mil toneladas até outubro, o que representa uma redução de 27,4% em relação a 2019. O Chile, que vem em terceiro lugar, comprou 71,5 mil toneladas, queda de 25,6%. A Rússia está na quarta posição, com 51,2 mil toneladas e redução de 16% em relação a 2019. A maioria dos países integrantes da União Europeia, outro tradicional cliente do produto brasileiro, também registrou queda nas importações. Os Emirados Árabes, que vinham crescendo como importadores nos últimos anos, compraram 33,8 mil toneladas, uma redução de 49% ante o mesmo período de 2019.

No total, no acumulado até outubro, 82 países aumentaram suas compras de carne bovina brasileira enquanto outros 82 reduziram suas aquisições.

Produto brasileiro deve ganhar maior reconhecimento
Para 2021, a expectativa para o setor de carne bovina é de expansão no mercado internacional, com a esperada recuperação econômica após a crise gerada pela pandemia de Covid-19, assim que uma vacina para a doença se mostrar viável. “Apesar do mundo crescer menos neste ano devido à pandemia, alguns lugares, especialmente os países asiáticos, vêm mostrando uma capacidade de recuperação muito rápida. Esses mercados seguem com a tendência de retirada de grandes contingentes de população da linha da pobreza, o que incentiva uma maior demanda por alimentos, especialmente proteínas animais”, explica Ligia Dutra, da CNA.

Alguns fatores já sinalizam para um otimismo. Um deles foi a maior venda de carnes para os Estados Unidos, quinto maior comprador da carne brasileira entre janeiro e outubro. Foram embarcadas 48,7 mil toneladas para o mercado norte-americano, um crescimento de 52,3 % em relação ao mesmo período de 2019. O crescimento das vendas para os Estados Unidos representa um bom indicador para a abertura de novos mercados em 2021, lembra a superintendente da CNA. “Exportar para os EUA serve como um reconhecimento da sanidade e qualidade de nossos produtos, abrindo a porta para outros países”, destacou Ligia.

Segundo a superintendente de relações internacionais da CNA, mesmo que o novo governo americano, liderado pelo democrata Joe Biden, reverta algumas políticas comerciais de Donald Trump, especialmente em relação à China, o Brasil não seria muito afetado. “Caso os chineses retomem as compras de produtos norte-americanos, reduzindo as encomendas do Brasil, nós conseguiremos nos ajustar. Durante essa crise, com os EUA deixando de vender para a China, eles entraram em mercados que antes eram ocupados pelo Brasil. Portanto, podemos apenas ter um remanejo de espaços”, destaca.

Outro fator positivo é a expectativa de aumento de áreas brasileiras reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde Animal (OIE) como livres de aftosa sem vacinação. Atualmente, apenas o estado de Santa Catarina tem esse reconhecimento. No entanto, é esperado que Rio Grande do Sul, Paraná, Rondônia, Acre e regiões do Amazonas e de Mato Grosso ganhem esse status.

Com a mudança, a cadeia da pecuária destas áreas teria acesso a mercados mais exigentes e com melhor remuneração pelo produto, como Japão e Coreia do Sul. “Importadores mais sofisticados só compram de regiões sem vacinação. Então cada passo que damos em sanidade animal ajuda o Brasil a obter ganhos internacionais importantes”, explica Ligia.

Embarques de carne suína crescem em volume e receita
Assim como no segmento de bovinos, as exportações brasileiras de carne suína também foram favorecidas em 2020 pela alta demanda chinesa. Considerando todos os produtos, entre in natura e processados, os embarques de carne suína acumulam, entre janeiro e outubro, alta de 40,4%, com 853,4 mil toneladas, de acordo com levantamentos feitos pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Nos 10 primeiros meses de 2019, o volume exportado foi de 607,7 mil toneladas. Em receita, a alta acumulada no ano chega a 48,5%, com US$ 1,876 bilhão em 2020, contra US$ 1,264 bilhão nos 10 primeiros meses do ano anterior.

Entre os cinco maiores importadores da carne suína, a China segue como principal destaque, com 423,2 mil toneladas embarcadas nos dez primeiros meses de 2020, volume 123% maior em relação ao mesmo período do ano anterior. No mesmo período comparativo, Hong Kong importou 143,1 mil toneladas (+10%). Singapura e Vietnã foram destinos de, respectivamente, 45,5 mil toneladas (+57%) e 36,9 mil toneladas (+222%). “As vendas para a Ásia seguem sustentadas, especialmente para os destinos impactados por crises sanitárias de Peste Suína Africana. A China, por exemplo, produzia 54 milhões de toneladas de suínos por ano. Em 2019, essa produção caiu para 41 milhões. Em 2020, até agora, está entre 36 milhões e 38 milhões de toneladas”, explica Ricardo Santin, presidente da ABPA.

De acordo com Santin, a tendência é de continuidade deste quadro. “As projeções totais são de 1 milhão de toneladas embarcadas pelo Brasil nos 12 meses deste ano”, avalia Ricardo Santin, presidente da ABPA.

Considerando as exportações por estado, Santa Catarina se mantém como principal exportador do setor, com 435,7 mil toneladas entre janeiro e outubro, número 51,6% superior em relação aos 10 primeiros meses do ano passado. Em segundo lugar, o Rio Grande do Sul exportou 215,6 mil toneladas no mesmo período (+25,5%). A receita das exportações gaúchas cresceu 60,63% no acumulado do ano, em comparação ao mesmo período de 2019, chegando a US$ 518,73 milhões. O estado representa uma fatia de 27,77% do faturamento nacional.

Valor exportado do frango sofre queda
Enquanto os demais segmentos de proteína animal registraram ganhos, as aves enfrentaram maiores problemas em 2020, tendo sido mais afetadas pela pandemia. Os embarques do segmento avícola subiram muito menos do que suínos e bovinos, e inclusive tiveram queda de receita.

Levantamentos da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) mostram que as exportações brasileiras de carne de frango, nos 10 primeiros meses de 2020, alcançaram 3,498 milhões de toneladas, alta de apenas 0,2% contra as 3,490 milhões de toneladas no mesmo período do ano passado. Em receita, as vendas do setor totalizaram US$ 5,066 bilhões, número 13% inferior ao registrado nos 10 primeiros meses de 2019, com US$ 5,820 bilhões.

“As aves sentiram mais o efeito da pandemia no mundo, com as demandas reduzidas por causa de fechamentos de restaurantes e à menor movimentação de pessoas e, portanto, de consumidores”, afirma Ricardo Santin, presidente da ABPA.

A menor demanda acabou afetando os preços internacionais, que, no segundo trimestre deste ano, chegaram a cair aos níveis praticados em 2009, segundo relatório do banco Rabobank. De acordo com o documento, os preços caíram devido a restrições de bloqueio nos movimentos das pessoas e na distribuição de alimentos e também devido a desafios de fornecimento na distribuição, cadeia de valor e operações. Desta forma, as indústrias não tiveram outra opção senão reduzir os valores.

Em relação a destinos, a China segue como principal destino da carne de frango brasileira em 2020.  Ao todo, foram exportadas 564 mil toneladas entre janeiro e outubro deste ano, número 24% superior ao registrado no mesmo período de 2019. Outros destaques da Ásia são Coreia do Sul, com 109,5 mil toneladas (+7%), e Singapura, com 106,4 mil toneladas (+32%).

Entre os estados, o Paraná segue como maior exportador, com 1,366 milhão de toneladas entre janeiro e outubro (+0,91%), seguido por Santa Catarina, com 808 mil toneladas (-26,3%), Rio Grande do Sul, com 559,8 mil toneladas (+19,9%) e Goiás, com 176,2 mil toneladas (+37,1%).

As exportações brasileiras de carne de frango nos primeiros 10 meses de 2020 chegaram a 3,498 bilhões de toneladas

No caso do Rio Grande do Sul, as receitas das exportações avícolas atingiram um faturamento de US$ 758,5 milhões, registrando um crescimento de 4,1% também sobre igual período de 2019. “As exportações de carne de frango e industrializados do RS, no montante apurado neste ano em volumes e receitas, é ainda resultado de recuperação do desempenho de anos anteriores” comentou Eduardo Santos, presidente executivo da Associação Gaúcha de Avicultura.

Entretanto, segundo Ricardo Santin, da ABPA, os valores da carne de frango deverão sofrer reajustes nos últimos meses deste ano, para compensar a alta dos custos de produção, devido aos preços mais caros dos principais insumos de alimentação (milho e farelo de soja). “Esse aumento não deve as quantidades de exportações do setor em geral, talvez apenas em mercados muito específicos, onde a competitividade será reduzida. Mas seguiremos como o maior exportador de aves em 2021”, afirma.