Oscar Ló, “O vinho foi companheiro de isolamento das pessoas”

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Oscar Ló - Presidente da Cooperativa Vinícola Garibaldi - Crédito: Dandy Marchetti

A frase acima mostra que, apesar de todos os problemas enfrentados pela economia em 2020 devido à pandemia, para as vinícolas houve um efeito positivo: o consumo de vinhos aumentou,  consideravelmente, neste ano, em média 32% no setor como um todo. Para o presidente da Cooperativa Vinícola Garibaldi, Oscar Ló, muitas pessoas adotaram o vinho como companheiro durante o período de reclusão em casa.

Do lado contrário, os espumantes tiveram queda nas vendas, impactados pela redução de atividades como festas e eventos. Ainda assim, Ló se mantém otimista com o setor, que projeta alta nas vendas de fim de ano, prevê uma safra de uva de alta qualidade e , também, aumento nas exportações.

A Garibaldi completará 90 anos em 2021, e congrega 420 famílias espalhada por 15 municípios da Serra gaúcha. Por ano, a vinícola processa 20 milhões de quilos de uva, em média, a cada safra.

Com a pandemia, o setor percebeu um aumento no consumo de vinho. Com a Garibaldi isso também aconteceu neste ano?
Sim, ocorreu sim. Na verdade, o impacto maior começou em março, com o fechamento de todas as atividades, e seguiu por abril. Com isso, nos meses seguintes, registramos um crescimento nas vendas de vinhos. São vários os motivos, mas o fato de as pessoas ficarem mais tempo em casa, realizando as refeições com a família, terminaram por consumir mais vinho. Muitas pessoas adotaram o vinho como companheiro nesse período de isolamento, e a chegada do inverno também ajudou. Na Garibaldi, nosso crescimento na comercialização de vinhos alcançou 35%.

Por outro lado, com a restrição de festas e eventos, o consumo de espumantes caiu. Com a proximidade do verão e os feriados de fim de ano, é esperada uma reação?
Isso já está ocorrendo. Realmente, até agosto, a comercialização de espumantes estava menor que no mesmo período do ano passado. Mas, a partir daquele mês, começamos a notar uma reação. Em setembro esse movimento continuou, e outubro também. Então, aquilo que ocorreu com o vinho, no inverno, acreditamos que irá ocorrer com o espumante no verão. Sabemos que grandes eventos não são permitidos, mas pequenas confraternizações, em família ou amigos, estão voltando. Esperamos que os espumantes tenham maior demanda neste verão.

O espumante, até uns anos atrás, era uma bebida ainda consumida em épocas como fim de ano ou em festas. Esse hábito está mudando?
Percebemos essa mudança, também. O espumante era uma bebida para uma comemoração específica, como fim de ano, casamento. Hoje, a venda de espumantes ocorre o ano inteiro, e não apenas em datas comemorativas. Fazemos também um trabalho junto ao consumidor no sentido de associar o espumante com a gastronomia. A qualidade dos espumantes cresceu nos últimos anos, e temos produtos bem diversificados, para atender a todos os paladares. Temos espumantes mais leves, mais jovens, mais aromáticos, mais doces, e temos também espumantes mais estruturados, mais gastronômicos, como costumamos dizer.

Entra aí também a harmonização dos espumantes com a gastronomia?
Sim, é um trabalho constante nosso. Neste fim de ano, ao contrário do que costuma ocorrer, muitas pessoas não irão viajar. Serão comemorações em família, em casa, e apostamos que o espumante será o companheiro desse consumidor que escolheu ficar em casa, cozinhando e compartilhando momentos com familiares.

Como está a produção de espumantes da Garibaldi hoje?
Até agosto, nossa produção estava igual à do ano passado, mas aumentou a partir de setembro já esperando maiores volumes no fim do ano e no verão. Um dos motivos é que o mercado está antecipando os pedidos, ao que parece, por conta dos receios de falta de produto. Então o varejo está se abastecendo antes. O mercado de espumantes ainda deve crescer mais 35% até o fim deste ano.

Espumantes Garibaldi/divulgação

Recentemente, a Garibaldi reformou sua linha de frisantes, um produto que tem registrado vendas consistentes. A que público ele se destina?
O frisante está dentro da linha dos espumantes, mas é um produto mais jovem, mais refrescante, com menos perlage, ou seja, menor pressão. Mudamos a apresentação, com uma nova roupagem, e as vendas têm subido, com uma aceitação muito boa principalmente entre o público mais jovem. Nós apostamos no frisante, tem bom potencial de crescimento.

A safra 2020 de uva foi um pouco menor, mas muitos enólogos dizem que foi a “safra das safras”, com qualidade excepcional para a produção de vinhos. Como foi para a Garibaldi?
O que aconteceu em 2020 foi que a safra veio em um clima mais seco. Isso geralmente favorece as uvas tintas, principalmente para a elaboração dos vinhos de guarda. Então, para os vinhos tintos de guarda, realmente a safra deste ano foi de referência. Já para os espumantes, independentemente do ano e da safra, estamos conseguindo manter um padrão.

Os espumantes e frisantes gaúchos estão entre os melhores do mundo/ divulgação Garibaldi

O enoturismo tem crescido na Serra gaúcha?
Sim, mas não só aqui, no mundo todo. Principalmente nos últimos dez anos, o setor gaúcho investiu muito em enoturismo. Claro que, com a pandemia, o fechamento das atividades acabou afetando esse movimento. Nós temos um complexo enoturístico da Garibaldi, no qual recebemos, ano passado, 140 mil visitantes. Em 2020, acreditamos que chegaremos a 50% desse volume de público. Nos últimos dois meses, cresceu bastante, mas muito aquele turismo individual, de casais ou famílias, sem grandes grupos.

Com a Covid-19, no início, como a Cooperativa Garibaldi se estruturou para enfrentar a questão? Chegou a parar a produção?
Nos primeiros 15 dias, com o fechamento total, paralisamos as atividades. Depois, voltamos a trabalhar, a produzir, mas com redução no número de funcionários, redução de carga horária. Fizemos dois turnos, para ter menos pessoas circulando nos espaços da vinícola. Implementamos todos os protocolos de segurança, e felizmente tudo tem funcionado. Hoje, seguimos com os protocolos, mas retornamos com os horários normais de trabalho de antes da pandemia. E estamos inclusive com horário estendido, por conta da demanda de final de ano.

O suco de uva é outro produto que tem conquistado o consumidor
O suco de uva virou uma alternativa interessante para o setor vinícola e também os produtores. Atualmente, 50% da safra de uva é destinada para produção de suco. Claro, é um produto um pouco mais caro, no mercado, que outros sucos ou outras bebidas, mas ele tem um apelo de saudabilidade muito forte. Então, o consumidor percebe que vale a pena pagar um pouco mais por um suco que traz um retorno benéfico para a família. Tem ainda potencial de crescimento.

Ano passado a Garibaldi lançou uma linha de sucos e espumantes biodinâmicos. São produtos bem de nicho,  ele são direcionados a restaurantes?
O suco biodinâmico temos uma produção maior, então ele está disponível para o varejo, o consumidor. Já o espumante tem uma produção mais limitada. É um espumante com público bem definido, e tem um mercado específico para venda. O brasileiro ainda não tem o hábito de consumir biodinâmicos, assim como os produtos orgânicos. Isso tem aumentado, mas aos poucos. E tem potencial de exportação também, principalmente para a Ásia. Estamos buscando esse mercado.

Vinícola Garibaldi – Cooperativa da Serra Gaúcha, criada em 1931/divulgação

As exportações têm crescido com o reconhecimento no exterior dos vinhos e espumantes feitos no Brasil?
Nós somos uma cooperativa com 420 famílias associadas. Buscamos sempre remunerar melhor essas famílias. E para manter essas pessoas na atividade, tentamos nos especializar naquilo que fazemos. Produzimos vinhos, sucos, claro, mas nosso foco em exportação são os espumantes. Nos últimos anos, investimos muito na reconversão de vinhedos, para termos a matéria-prima para esse tipo de produto. Investimos, também, na nossa capacidade de produção e na automação de processos. A tecnologia existe, está disponível no mundo todo, mas a matéria-prima não, temos que produzir aqui, e esse é o nosso diferencial em relação aos concorrentes. Temos uma vocação de uvas brancas para espumantes, então trabalhamos com os associados na reconversão dos vinhedos para produzir aquelas variedades específicas que o mercado demanda.

Como o senhor vê a questão vinho importado versus o nacional?
Esse conceito de que o importado era melhor ocorreu muito no fim dos anos 1990, com a liberação do mercado para os importados. Realmente, tivemos dificuldades de competir naquela época. Hoje, com relação à qualidade, não se discute mais. O setor investiu muito nas últimas décadas. Assim como há vinhos importados de grande qualidade e outros de nem tanta qualidade, temos assim também produtos nacionais. Ainda existe um pouco de preconceito, mas principalmente quando se avalia o custo. Você avalia produtos similares no mercado e percebe diferença de preços entre o nacional e o importado. Os vinhos da América do Sul, principalmente, têm um custo de produção menor. Por conta de acordo que existe com o Brasil, o vinho chileno entra muito competitivo aqui. A competição ocorre devido ao preço, ao custo, e não no que diz respeito à qualidade.

Tem algum mecanismo que poderia ajudar o produtor nacional, como redução de impostos?
Essa é uma demanda recorrente nossa, mas governo nenhum quer perder receita. E, nos últimos anos, tivemos aumento do IPI, um imposto federal. Houve uma alteração no cálculo e o imposto, na média, que era de 5% passou para 10%.

Como ficou 2020 para a vinícola, em termos de desempenho, e qual a expectativa para 2021?
Ano passado, no nosso planejamento, a meta era crescer 20% em 2020. Apesar do susto da pandemia a partir de março, mantivemos o planejamento e acreditamos que vamos cumpri-lo, apesar de tudo. Haveria, inclusive, possibilidade de ampliar esse crescimento, mas por falta de insumos não conseguiremos. Principalmente vidro, papelão e embalagens, as indústrias não estão atendendo aos pedidos. E 2021 ainda é uma incógnita, porque se fala em segunda onda, então não sabemos o efeito prático que isso terá no dia a dia. Mas, somos otimistas. A safra de uva 2021 está se desenhando como de boa qualidade, porque a previsão é de clima mais seco no verão. Anos mais secos são os de melhores safras, geralmente.

Entrevista: Cristiano Vieira
Fotos: Dandy Marchetti