O alerta da Peste Suína Africana (PSA)

COMPARTILHAR

A Peste Suína Africana (PSA), que vem dizimando criações de suínos no Sudeste Asiático, acendeu o alerta sobre as dificuldades da gestão sanitária em meio à globalização. Conforme levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, a doença já resultou em quase oito milhões de animais sacrificados.

Controlar a doença na região tem sido uma tarefa árdua, mas, por enquanto, o continente americano ainda é o único sem registros da PSA. O Brasil é quarto maior exportador de carne suína do mundo. Uma eventual entrada da PSA no País poderia acarretar prejuízos acima de US$ 5 bilhões. Por isso é importante que o Brasil esteja prevenido contra a entrada do vírus no País.

Pesquisadores do Cepea indicam que trabalhar a cultura das notificações entre os produtores rurais brasileiros é desafiador, mas muito necessário. Imprescindível também seria a criação de um sistema de indenização, público-privado, para dar suportes técnico e financeiro para os produtores em possível situação de crise. No Rio Grande do Sul já existe um modelo similar: o Fundo de Defesa Sanitária (Fundesa), criado para justamente auxiliar os produtores em caso de emergências sanitárias.

O Brasil tem muito a perder com as doenças que acometem rebanhos, perdas que vão além da produção e das transações comerciais, que causam impactos socioeconômicos importantes e que podem ter efeitos de longo prazo na imagem do País. O país mal se recuperou dos estragos causados em 2017 pelo embargo norte-americano à nossa carne devido à presença de pequenos caroços na carne causados pela aplicação da vacina contra febre aftosa.

Por aqui, o vírus foi identificado em suínos de subsistência, em Paracambi, no Rio de Janeiro, no ano de 1978. Os animais haviam sido alimentados com restos de alimentos de um voo proveniente de Portugal e foram contaminados. Depois, o Brasil foi considerado zona livre da doença.

A analista da Embrapa Suínos e Aves Danielle Gava informa que, caso ocorra um surto no país, as ações de controle da doença incluem o abate sanitário rápido de todos os suínos; a eliminação adequada de carcaças e limpeza e desinfecção completas das instalações; a designação da zona infectada, com controle de movimentação e trânsito dos suínos; e uma pesquisa detalhada, com rastreamento de possíveis fontes de infecção.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a PSA tem avançado na Ásia. Foram registrados aumentos de suínos descartados na Indonésia, que passou de 28 mil para 42 mil animais. Também foram identificados 14 novos focos da doença na Coreia do Sul. No total, são 1.645 focos da doença espalhados pela Ásia.

Em outros países afetados, a situação também é crítica. O Vietnã continua tendo a pior condição em termos de número de animais levados ao abate sanitário, com 5,96 milhões. Segundo o Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural do país, a epidemia atingiu 667 distritos em 63 províncias.

Quando a doença chegou na China ficou evidente a catástrofe sanitária. Segundo informações da Embrapa, os chineses têm o maior rebanho de suínos (430 milhões de cabeças, mais da metade da população de suínos do mundo), a maior produção (54 milhões de toneladas de carne no ano passado, mais que a soma dos outros nove maiores produtores mundiais), o maior consumo (55 milhões de toneladas de carne, 18 vezes maior que no Brasil, quinto no ranking mundial) e a maior importação (1,56 milhão de toneladas). Hoje, são 169 focos espalhados em 32 províncias, incluindo Hong Kong. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Agricultura e Assuntos Rurais do país, desde a identificação da doença, 1,193 milhão de animais foram eliminados em território chinês.

Em termos de segurança sanitária, de acordo com a FAO, os Estados Unidos são referência, com uma forte cultura de biossegurança entre os produtores e um serviço sanitário com sistema de monitoramento e de ação rápida em casos de crise quando são identificados focos de doenças.

O Serviço de Inspeção Sanitária de Plantas e Animais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (APHIS/USDA) desenvolveu um estudo sobre potenciais impactos de uma eventual introdução da PSA nos Estados Unidos.

Os resultados indicam que o aparecimento da doença por lá geraria uma perda estimada, inicialmente, entre US$ 6 bilhões e US$ 8 bilhões. No caso de um surto de grande magnitude, o prejuízo poderia chegar a US$ 12 bilhões.

As causas dos focos no continente asiático
A grande magnitude da PSA em diversos países asiáticos resulta de vários fatores, como elevada densidade de granjas; muitos dos países da região carecem de controle da movimentação e do abate de animais e intensa circulação ilegal de animais entre países da própria região.

Danielle Gava
Analista da Embrapa Suínos e Aves

Também não existem mecanismos de compensação aos produtores. Por isso, muitos deles vendem os animais quando identificam sintomas da doença — o que acaba espalhando o vírus. Um fator que agrava a situação de disseminação da doença é que as granjas têm muita água no solo e, ao se enterrar animais abatidos infectados, o vírus contamina a água.

A peste suína africana (PSA) é uma doença altamente contagiosa, causada por um vírus composto por DNA fita dupla, pertencente à família Asfarviridae. Ele não atinge o homem, sendo exclusiva de suínos domésticos e de javalis.

O vírus tem o potencial de se espalhar rapidamente. A principal via de transmissão é pelo contato direto entre suínos infectados ou através da ingestão de produtos de origem suína contaminados com o vírus. Outro modo de contaminação é por carrapatos, quando estes sugam o sangue de suínos infectados e depois se alimentam de outros animais.

Não existe uma vacina ou tratamento eficaz. A prevenção em países livres da doença depende de políticas de importação rigorosas, garantindo que nem os suínos vivos infectados nem os produtos de origem suína oriundos de países ou regiões afetadas pela PSA sejam introduzidos em áreas livres.