Nova gestão implementa mudanças na Embrapa

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Com uma reforma administrativa em curso e mudanças ainda a caminho, o novo presidente da Embrapa, Celso Moretti, começa a implantar um visível modelo de gestão no órgão vinculado ao Ministério da Agricultura. Com menos de seis meses no cargo, mas com ampla experiência em outras atividades de diretoria da Embrapa, Moretti teve a tarefa de reduzir a estrutura e os cargos em comissão, coordenando um plano de demissão voluntária que teve a adesão de 1,3 mil funcionários. Por outro lado, tem conquistado novas parcerias com o setor privado e até mesmo no exterior, para seguir com amplo trabalho de pesquisa e tecnologia agrícola desenvolvidos pela estatal.

“Há pouco, por exemplo, assinamos um contrato com uma empresa francesa público-privada que estuda a dormência na macieira, envolvendo a Embrapa Uva e Vinho, com o Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica da França (Inra, na sigla em francês)”, comemora Moretti.

Sobre a recente polêmica de que a estatal teria cortes no orçamento, apesar da importância do agronegócio em toda a economia nacional, Moretti afirma que os recursos para 2020 estão assegurados e poderão ter até um pequeno incremento. Ele afirma que os números apresentados acabaram gerando uma confusão, com mal-entendidos inclusive dentro da Embrapa.

“Isso criou um pânico geral. O que aconteceu é que 55% do orçamento continuará vindo do Tesouro Nacional, em entorno de R$ 2 bilhões, e estão garantidos outros R$ 1,78 bilhão via Fonte 944, que é uma novidade em 2020, não apenas para a Embrapa, mas para diferentes empresas públicas”, informa Moretti. Os recursos dessa fonte são contingenciados na sanção do orçamento e só são liberados com a aprovação de outros projetos de lei de abertura de créditos suplementares, ou especiais, e pela maioria absoluta do Congresso.

O presidente explica que tem razões para acreditar que 2020 poderá contar até com um “crescimento pequeno” nas receitas. Aposta no bom trânsito da ministra Tereza Cristina no governo, assim como no peso do agronegócio para o PIB e a força da Frente Parlamentar da Agricultura (FPA) no Congresso.

“Essa fonte 944 prevê que o Tesouro Nacional emita títulos e capte recursos, e com o parlamento aprovando, os recursos são encaminhados às estatais. O orçamento não está fechado, e temos expectativa de ter um até um pequeno crescimento vegetativo”, diz Moretti.

Entre as mudanças administrativas já iniciadas estão cortes de estruturas administrativas que teriam atividades sobrepostas. Ele se refere a 15 unidades de atendimento central que foram reduzidas para cinco unidades.

O futuro para a Embrapa será de muito trabalho. Em 2030, a população mundial será de 8,5 bilhões de pessoas e 50% da classe média global estará no sudeste asiático. “Nosso País é o único no mundo que tem condições de contribuir nesse cenário”, ressalta.

“Tínhamos uma série de sombreamentos, sobreposições que precisavam ser atacadas. Apenas estamos adotando melhorias de gestão, inclusive aplicando o ERP (Enterprise Resource Planning ou Sistema Integrado de Gestão Empresarial), já utilizado por grandes empresas em todo o mundo.

Também houve redução de custos com a reforma administrativa de uma estrutura específica com 16 escritórios espalhados pelo Brasil. Das 16 sobraram 14, sendo que algumas unidades que existiam nas regiões absorveram os trabalhos. Moretti diz que a economia gerada foi de R$ 9 milhões em cargos comissionados.

“Existe um certo espaço para cortar, mas com uma folha de pessoal que alcança 80% do orçamento, ainda estamos abaixo da média de muitas estatais. E nosso principal ativo são os cérebros. Por isso esse nível de comprometimento com pessoal. Cérebros são a fonte principal, o maior insumo da pesquisa e desenvolvimento”, alerta Moretti.

Outra fonte de economia para os próximos anos foi a adoção do Programa de Demissão Incentivada, ficou acima do número esperado de adesão, em 1,1 mil – alcançou exatos 1.311 colaboradores. A economia esperada em três anos será de R$ 598 milhões, diz o presidente da Embrapa.

Em 50 anos, o Brasil passou da posição de importador de alimentos para a de líder em produção agrícola, o que despertou em vários outros países o desejo de repetir em seus territórios a experiência brasileira, informa o presidente da Embrapa, Celso Moretti.

De acordo com ele, o que outros países desejam é buscar autonomia e segurança alimentar a partir de parcerias com a Embrapa, a empresa que realiza – em cooperação com universidades e empresas privadas — pesquisas científicas, tecnológicas e de inovação, proporcionando assim a liderança brasileira em alimentos; fibra; bioenergia; rebanhos bovinos e suínos.

Ele vai além: “no ano passado, para cada um real investido na Embrapa foram devolvidos 12 reais para a sociedade. Ou seja, vale a pena o País investir em ciência, tecnologia e inovação agropecuária porque o retorno é líquido e certo”, informa Moretti.

Ao que tudo indica, o futuro para a Embrapa será de muito trabalho. Conforme Moretti, em 2030, a população mundial será de 8,5 bilhões de pessoas e 50% da classe média global estará no sudeste asiático. “Nosso País é o único no mundo que tem condições de contribuir nesse cenário”, ressalta.

Mas destaca que isso só será possível se a Embrapa e os institutos de pesquisa e universidades continuarem inovando, em parceria com o setor privado, por meio de investimentos sólidos. “O Brasil está em 13º lugar do ponto de vista de geração de ciência e de conhecimento, mas está em 65º em inovação”, completa.

Sindicato de trabalhadores acredita em manutenção do orçamento
Assim como o presidente da Embrapa, Celso Moretti, o presidente do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Instituições de Pesquisa Agropecuária e Florestal (Sinpaf), Carlos Henrique Garcia, espera que a regra para 2020 seja ao menos a manutenção dos recursos destinados à Embrapa. Os temores de que haveria cortes, avisa Garcia, até o momento são “boatos”.

“Não há nada oficial sobre isso. A Embrapa tem um importante papel social e na economia, e a todo momento se alardeia esse resultado da ciência e da pesquisa agropecuária. Então, falar em desmobilizar o que está dando certo é querer andar para trás”, alerta Garcia.

Sobre a saída voluntária de servidores, o presidente do Sinpaf afirma que isso já era esperado, pois muitos desses funcionários já tinham desejo de deixar a Embrapa. Agora, Garcia ressalta que as atenções se voltam para o futuro de curto prazo. Diz que é importante acompanhar se a empresa vai repor essas vagas com a abertura de uma seleção pública.

“Como normalmente nesses programas atuam profissionais com mais tempo de carreira, e por isso com salários maiores, a substituição por outros servidores para os mesmos cargos, em início de carreira, seguirá tendo impacto positivo na redução dos custos com pessoal”, completa Garcia.

Reconhecimento internacional e mais presença privada
O reconhecimento mundial ao trabalho da Embrapa, hoje, é um fato. Em evento na Federação da Agricultura do Estado no final de novembro, por exemplo, o trabalho da instituição foi destaca por três dos 18 embaixadores da União Europeia que estavam em missão pelo Rio Grande do Sul. Em sua fala, o embaixador da Irlanda no Brasil, Seán Hoy,  mencionou a instituição como um das riquezas do agronegócio brasileiro.

Ao falar da sustentabilidade do agronegócio, e dizer que o Brasil não precisava repetir erros do passado europeu, falou da integração lavoura, floresta e pecuária, como um exemplo de preservação, e destacou o trabalho da instituição em seu discurso.

O trabalho de pesquisa da Embrapa feito por meio de parceiros com o setor privado já é uma constante

“Aqui vocês uma importante instituição de pesquisa, de classe mundial: a Embrapa. E com apoios como da Embrapa Brasil condições de aumentar sua produção sem comprometer suas florestas,” elogiou Hoy.

O  trabalho de pesquisa da Embrapa feito por meio de parcerias com o setor privado já é uma constante. A ideia de ter mais integração com empresas, associações e instituições é tanto desenvolver produtos e soluções mais próximas do que espera o mercado quando aumentar os recursos para pesquisa.  Anualmente, a Embrapa assina entre 350 a 400 contatos com o setor privado, desde pequenas  empresas de sementes e hortaliças, como Isla e Feltrin, no Rio Grande do Sul, até grande conglomerados como a Bayer, explica o presidente da Embrapa, Celso Moretti

”Temos boa parte da carteira de projetos que já é financiada pelo setor privado. E vamos fazer isso mais e melhor. Então, temos a recepção passiva de parcerias como uma situação ativa. Voltei recentemente de uma missão na Europa e no Oriente Médio, por exemplo. Especificamente no Catar, eu identifiquei oportunidades para captar recurso do Fundo Soberano do país”, conta.

Outra proposta internacional de trabalho  é na pecuária. Moretti explica que na península estão investindo na produção de leite, com a importação de vacas holandesas, que funcionara  muito bem apenas em regiões mais frias e climas mais amenos. Não no deserto com 50 graus, ressalta  Moretti.

“Apresentamos a eles o gado Girolando, hibrido de holandês, inglês e indiano. É uma alternativa mais adequada para reduzir custos e seguir produzindo de forma mais adequado. Onde entra Embrapa? Vamos fazer uma parceira e cooperação entre a Embrapa, empresas brasileiras e o fundo soberano para o desenvolvimento desse rebanho com apoio técnico”, comemora o presidente da Embrapa.

O Brasil domina a tecnologia agropecuária em clima tropical e imensas oportunidades no mundo, ressalta o pesquisador, mas  durante muito se ficou olhando sempre para dentro, avalia. Moretti destaca, ainda, que a Embrapa tem autonomia para estabelecer contratos com instituição de qualquer lugar do mundo. Há pouco, por exemplo, foi assinado contrato com uma empresa francesa público-privada que estuda a dormência na macieira, envolvendo a Embrapa Uva e Vinho e o  Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica da França (Inra, na sigla em francês).

“Em 2017 estive em Israel, que exporta muita tecnologia, inclusive agrícolas, de irrigação e outras. Lá me disseram isso: dominamos tecnologias em  clima tropical, e além de produzir alimentos,  o Brasil tem tudo para ganhar o mundo também em tecnologia agrícola”.