No comércio exterior, boas notícias

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De janeiro a abril deste ano, as exportações do agronegócio somaram US$ 30,42 bilhões, ligeira alta de 0,2% em relação aos US$ 30,35 bilhões exportados no mesmo período de 2018. Ainda que tímido, o resultado mostra que, para o agronegócio, o comércio exterior segue firme apesar de temores quanto a política internacional do novo governo e o estremecimento das relações entre China e Estados Unidos.

A simples notícia, ainda no ano passado, de que o Brasil poderia mudar a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém acirrou os ânimos no mercado interno. O Ministério da Agricultura e produtores de carne bovina e de frango receavam que a decisão provocasse retaliação comercial de países do Oriente Médio, com efeitos nas exportações brasileiras para a região.

Antonio da Luz – Farsul Foto: Gerson Raugust

Nada disso ocorreu. Para o economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz, é preciso ressaltar que o Brasil produz não apenas para seu mercado, de 200 milhões de pessoas, mas para um contingente de 1 bilhão de pessoas no mundo, representados por grandes países importadores, como a China.

Os números impressionam, mas poderiam impactar ainda mais. Segundo o economista, para quem é responsável por tudo isso, em uma cadeia que inclui não só o produtor, mas também indústria e poder público, é bastante desafiador. Há uma série de questões que devem ser observadas desde o processo produtivo até ad relações comerciais do Brasil com seus parceiros.

Luz concorda que o produto brasileiro, no mundo inteiro, é visto como bom e ganhou essa confiança a partir de um trabalho construído durante décadas pelo agronegócio local. “Nem sempre conseguimos ter preço bom, porque temos custos logísticos altos, infraestrutura deficiente. Mesmo assim, conseguimos competir lá fora”, salienta ele.

Os números recentes confirmam essa tendência. Até o fim de 2018, a Arábia Saudita era o maior comprador de carne de frango do Brasil, com US$ 800 milhões. Está sendo superada pela China, que aumentou os embarques do frango brasileiro devido à incidência de peste suína por lá.

Quando se analisa a balança comercial do Brasil com Israel e os países árabes, a diferença é enorme. Em 2018, o Brasil vendeu US$ 321 milhões para os israelenses (23% deste total foi carne bovina, 18% soja, entre os principais produtos). Para um grupo de 14 países do Oriente Médio, o agronegócio nacional exportou US$ 14,2 bilhões ano passado.

Portanto, o prejuízo seria bem maior caso houvesse retaliação dos países árabes, mas os embarques de carne bovina e de frango têm aumentado. Conforme dados da Associação Brasileira de Frigoríficos (Abrafrigo), até maio deste ano, o País exportou 694,3 mil toneladas de carne bovina, alta de 18% frente ao mesmo período de 2018. Com exceção da China, no topo, a lista dos maiores compradores tem Egito (com 60,6 mil toneladas), Irã (41,7 mil toneladas) e Emirados Árabes Unidos (40,7 mil toneladas).

Para a carne de frango, o cenário também é otimista. De acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), no acumulado de janeiro a maio, as vendas alcançaram volume de 1,659 milhão de toneladas, saldo 3,6% superior ao obtido no mesmo período do ano passado, com 1,601 milhão de toneladas.

Novamente, a China encabeça o ranking, com 208 mil toneladas (alta de 13%), seguida por Arábia Saudita (195 mil toneladas), Japão (164,5 mil toneladas) e Emirados Árabes Unidos (157,9 mil toneladas).

ABPA – Francisco Turra

Essa fome chinesa pelo frango brasileiro deve aumentar. O país asiático já eliminou mais de 25% do seu plantel de suínos pela ocorrência de peste suína africana. “Foram enterradas, no mínimo, 12 milhões de toneladas de frango, com perspectiva de chegar a 16 milhões”, revelou, em seminário no Rio Grande do Sul, o presidente da ABPA, Francisco Turra.

Exportações de frango

A estimativa é de que, apenas para atender à demanda da China, serão necessárias mais oito milhões de toneladas de carne de frango. Uma grande oportunidade para os criadores brasileiros e de outros países. “O Brasil precisa preservar a credibilidade e a condição sanitária para ganhar esse mercado, a exemplo do que aconteceu com a avicultura no episódio da gripe aviária em 2006, quando o país alcançou o primeiro lugar no comércio mundial e não perdeu mais a posição”, lembra Turra.

Com a Venezuela, poucos negócios
As relações entre Brasil e Venezuela no campo diplomático, que seguem tensas nos últimos meses, também tiveram um forte recuo no plano comercial nos últimos dez anos.

Em 2008, ainda no governo do ex-presidente Lula, a Venezuela chegou a ser um dos principais parceiros comerciais do Brasil, com importações de US$ 5 bilhões. Contudo, a partir da crise que os venezuelanos atravessam desde 2015, houve acentuada queda.

Ano passado, a Venezuela comprou do Brasil US$ 576,94 milhões, 88,7% menos que em 2008 e apenas 1,64% de tudo o que o Brasil vendeu na América do Sul no ano passado. Os produtos básicos responderam por 42,1% de tudo o que o Brasil exportou para a Venezuela. A principal compra foi de arroz em grãos, seguida por açúcar e soja.

O resultado coloca a Venezuela na 51ª posição no ranking dos países importadores de produtos brasileiros. Neste ano, não foi diferente: de janeiro a abril, o Brasil comercializou com a Venezuela US$ 220 milhões, com destaque para o arroz (32% do total).

Exportação celulose.
Fotos: André Kasczeszen

Soja representa 37,9% das exportações
De acordo com o Ministério da Agricultura, os cinco principais setores exportadores do agronegócio, no primeiro quadrimestre do ano, foram complexo soja (37,9%); produtos florestais (15,8%); carnes (15,3%); café (5,7%); e cereais, farinhas e preparações (5,1%).

Juntos, eles representam 79,8% do valor total exportado em produtos do agro no período. A soja continua a brilhar: o complexo da oleaginosa respondeu por US$ 11,52 bilhões em vendas. Em volume, as exportações de soja em grãos foram recordes, com 26,32 milhões de toneladas (alta de 12%).

O segundo principal segmento exportador foi o de produtos florestais. As vendas externas se elevaram de US$ 4,64 bilhões entre janeiro e abril de 2018 para US$ 4,82 bilhões no mesmo período neste ano (+3,7%). O principal produto exportado é a celulose, com US$ 3,01 bilhões (+8,5%), cifra recorde da série histórica.