Milho: preços em alta e safra menor

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Fotos: Itamar Aguiar/ Palácio Piratini

O milho começou 2020 com os preços pressionados no mercado interno, em função da demanda aquecida e expectativas de estoques mais apertados na temporada 2019/2020. Além disso, o clima adverso (falta de chuvas e calor) no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina aumenta a possibilidade de perdas nas lavouras de milho de primeira safra, fato que colabora com as altas de preços.

Segundo levantamento da Scot Consultoria, na região de Campinas-SP, a saca de 60 quilos estava cotada em R$ 51,00, sem o frete, no mês de fevereiro. Cotação 25% mais cara que o mesmo mês do ano passado. No Rio Grande do Sul, também houve alta: a saca de 60 kg pulou de R$ 26,00 em fevereiro de 2019 para R$ 42,00 um ano depois.

Para o curto e médio prazo, o viés é de elevação para os preços do milho no mercado brasileiro. Uma das causas será a quebra na safra gaúcha, cujo impacto final ainda não foi completamente medido. Mas, dados divulgados em fevereiro pela Fecoagro-RS indicavam que a safra no Estado, antes estimada em 5,9 milhões de toneladas de milho, deverá ficar em pouco mais de 4 milhões de toneladas – perda de 30%.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a primeira safra de milho 2019/20 deva atingir 26,6 milhões de toneladas, 3,8% a mais que na temporada anterior, resultado do aumento de 1,1% na área e da expectativa de crescimento de 2,7% na produtividade. O consumo interno é estimado em 68,13 milhões de toneladas, quantidade 6,6% superior ao da temporada passada e 12,8% acima da média das últimas três safras. Esse cenário se deve às maiores procuras por parte do setor pecuário e de novas usinas produtoras de etanol de milho do Centro-Oeste.

A soma da produção do milho verão ao estoque de passagem – estimado até fevereiro pela Conab em 11,53 milhões de toneladas – resulta em suprimento de 38,15 milhões de toneladas para o primeiro semestre. Este volume é equivalente a 56% do consumo doméstico no ano. Como comparação, na temporada passada, o volume dos estoques iniciais somado à produção do milho primeira safra respondeu por 65% do consumo interno. Ou seja, agora, o consumo interno deverá absorver percentual maior da produção de milho segunda safra.

Para a segunda temporada, por enquanto, a Conab mantém as estimativas de área da temporada anterior e a perspectiva de produtividade média de 5,5 t/ha. Com isso, a produção do milho segunda safra 2019/20 é estimada em 70,9 milhões de toneladas, redução de 3,1% frente à anterior. Caso as estimativas da Conab se concretizem, a produção total de milho deverá atingir 98,4 milhões de toneladas – há consultorias privadas, entretanto, projetando um pouco mais, até 100 milhões de toneladas.

No contexto mundial do milho, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima que a produção alcance 1,11 bilhão de toneladas, redução de 1,04% em relação à temporada anterior. Essa diminuição é decorrente da menor produção nos Estados Unidos. O consumo deve somar 1,133 bilhão de toneladas, queda de 0,87%.

Milho brasileiro no exterior
Nas exportações, o USDA projeta aumento de 0,2%, indo para 172,3 milhões de toneladas. Por enquanto, a expectativa é de que o Brasil se consolide como segundo maior exportador, com 39,5 milhões de toneladas, seguido pela Argentina, com 33,5 milhões, e Ucrânia, com 30,5 milhões. Para os Estados Unidos, esperam-se que 48 milhões de toneladas sejam embarcadas.

Ano passado, o Brasil encabeçou o ranking: terminou 2019 com 44,9 milhões de toneladas comercializadas no exterior, um novo recorde, com aumento anual de 88% após ter colhido uma safra histórica e contado com boa demanda externa, de acordo com dados publicados pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

RS contra o déficit no cereal
Aguardado pelos produtores gaúchos, o Programa Estadual de Produção e Qualidade do Milho (Pró-Milho RS) foi lançado em fevereiro. O objetivo é reduzir o déficit de aproximadamente dois milhões de toneladas de milho no Rio Grande do Sul e aumentar a renda dos produtores rurais. O anúncio do governo ocorreu durante a cerimônia da 9ª Abertura Oficial da Colheita do Milho no Rio Grande do Sul, realizada na Empresa Agrícola Chiapetta.

Geraldo Sandri Presidente da Emater RS

O Rio Grande do Sul responde por 6% da produção nacional de milho. Com 777 mil hectares de área plantada no Estado, a projeção inicial da Emater/RS-Ascar para esta safra, feita antes do período de estiagem, apontava para produção de 5,9 milhões de toneladas de milho. O volume é insuficiente para alimentar as cadeias produtivas de aves, suínos e bovinos, responsáveis por 10% do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado.

O Pró-Milho tem, basicamente, os seguintes eixos: produção; qualidade; crédito e comercialização. O presidente da Associação dos Produtores de Milho do RS (Apromilho) Ricardo Meneghetti, destaca dois aspectos do Programa. O primeiro deles, diz respeito à iniciativa do governo do Estado em aproximar todos os segmentos da cadeia produtiva do milho e conciliar seus interesses. “O governo não tem dinheiro, mas colabora para colocar frente a frente todos os elos da cadeia produtiva do milho e isso é o que precisamos”, conta Meneghetti.

Outro ponto, que vinha preocupando o setor produtivo e que foi contemplado pelo Pró-Milho, diz respeito à qualidade do grão. “A piora da qualidade não se dá na produção, mas no recebimento, secagem e armazenagem, por isso é fundamental financiamento para silos secadores”, disse o presidente da Apromilho. Segundo ele, “a Emater está conduzindo isso com maestria”.

“Este programa, junto com a modernização da legislação ambiental, vai diminuir a burocracia e vai dar a resposta aos agricultores que precisam investir nas suas propriedades”, destacou, na ocasião, o secretário da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr) Covatti Filho. O presidente da Emater/RS, Geraldo Sandri, garantiu o apoio da Instituição na implementação do Pró-Milho. “A Emater ajudou a construir o Programa e agora ajudará a colocá-lo em prática”, assegurou Sandri.

Sobre a estiagem no Estado, desde janeiro a Emater-RS organizou uma rede com 12 técnicos responsáveis, um em cada regional, para receber as informações dos seus municípios diariamente e enviá-las para serem compiladas pela Gerência de Planejamento (GPL). Estes serão os dados oficiais sobre a quebra da safra no Estado, segundo informou o presidente da instituição, Geraldo Sandri.