Safras de verão começam a tomar forma

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É em agosto, ainda no inverno, que os produtores precisam começar a pensar a safra de verão 2020, projetando o plantio futuro, pesquisando e comprando insumos e tentando entender como devem se comportar os mercados interno e externo em termos de preços e de demanda. A soja é o carro-chefe da safra e das preocupações.

Atualmente, é sobre a oleaginosa que pairam as maiores incertezas em termos de preços. O arroz enfrenta um cenário de crise que já não é novo e pode levar a uma nova retração da área semeada. Por sua vez, o milho tem boas perspectivas e está em expansão. Independentemente do grão, o produtor, porém, já está fazendo os cálculos e se preparando para o ciclo 2019/2020.

No caso da soja, as cotações do dólar no Brasil, a produção norte-americana e as incertezas quanto os rumos da guerra comercial entre os Estados Unidos e a China estão gerando uma instabilidade histórica em termos de preços e mercado. Se os Estados Unidos entrarem em um acordo com o gigante asiático, uma das prováveis moedas de troca será a compra, pelos chineses, dos elevados estoques de soja dos Estados Unidos. Se um consenso não for alcançado, a liquidez da soja brasileira aumentará. Mas, no momento, não há muitos estímulo para que seja ampliada significativamente a área semeada, avalia o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Rio Grande do Sul (Fecoagro-RS), Paulo Pires.

“Temos custos elevados dos insumos e as margens de lucro estão muito reduzidas, mas o produtor seguirá plantando. Em termos de área, teremos uma safra normal, creio. O grande desafio é o custo de produção”, avalia Pires.

Além dos valores diretamente envolvidos com a safra, com a compra de sementes, adubo e defensivos agrícolas, Pires destaca que o produtor muitas vezes ainda está arcando com os investimentos feitos em maquinário, por exemplo. Mas, mesmo aplicando recursos em tecnologia para produzir mais, as margens de lucro vêm encolhendo.

“O maquinário hoje tem um custo alto e o produtor está com muitos compromissos financeiros para pagar. Ele comprou muita coisa, as parcelas estão vencendo e os ganhos são limitados”, alerta o presidente da Fecoagro.

Pires destaca ainda que a nova safra terá financiamento via Plano Safra com juros elevados. Nos moldes atuais, diz ele, os juros do Plano Safra estão acima da taxa Selic, o que, no final das contas, encarece a produção. “Já houve períodos em que a Selic era de 15% ao ano e o juro agrícola chegava a 4%”, lembra Pires.

Atualmente, com a Selic em queda, o caminho é inverso. O Plano Safra tem juro próximo de 8%, enquanto a taxa Selic está em 6% ao ano, com tendência de queda para até 5%,segundo estimativas do mercado.

Custos de produção
De acordo com a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), o custo de produção da soja no Rio Grande do Sul está em torno de R$ 50,00 a saca de 60 quilos. Já a cotação da saca está em torno de R$ 70,00. Com as margens cada vez mais apertadas, se acionou o sinal vermelho no setor.

Elmar Konrad – Vice-Presidente da Farsul Foto: Gerson Raugust

Para Elmar Konrad, vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), se os preços da soja não reagirem, a cultura poderia se aproximar, no futuro, dos mesmos efeitos da crise que se abateu sobre a orizicultura.

Para o analista da Safras & Mercado, Luiz Fernando Roque, a safra de 2020 é a mais difícil da história para fazer projeções, especialmente pela disputa comercial entre Estados Unidos e China e todas as implicações decorrentes disso, com o câmbio. Mas, ele avalia que, depois da queda nos preços registrada no primeiro semestre, os valores começaram a reagir e os prêmios pagos nos portos brasileiros também. Além disso, o dólar também se valorizou no início de agosto.

Soja – Foto: Tony Oliveira

“Eu não acredito em um acordo comercial entre China e Estados Unidos, então a tendência é positiva para a soja brasileira. Mas, tudo pode mudar com um simples post de Donald Trump no Twitter”, alerta Roque.

O analista avalia, no entanto, que há espaço para queda do dólar no Brasil até final do ano, o que não é bom para as exportações. Também há outro fator a ser considerado no mercado internacional: os elevados estoques de soja nos Estados Unidos tendem a pressionar, para baixo, os preços. Os norte-americanos têm hoje armazenados cerca de 28 milhões de toneladas, bem acima das cerca de 10 milhões de toneladas de soja registradas em períodos normais.

“Além disso, vale ressaltar que, se hoje o Brasil pode ganhar com a guerra comercial, o mesmo não vai acontecer se isso perdurar por dois, três anos. Aí teremos uma crise mundial e todos perderão”, pondera Roque.

No cenário brasileiro, os percalços incluem as dívidas com o Funrural e possível retomada da taxação sobre as exportações com o fim da Lei Kandir. Levando tudo isso em conta, Roque não acredita que o produtor gaúcho irá ampliar significativamente a área semeada no próximo ciclo, como fez ao longo dos últimos anos.

 “Talvez o produtor não vá investir tanto em tecnologia como vinha fazendo. Também deve segurar o ritmo de expansão da área plantada, que já foi de 3,5% em média nos últimos cinco anos. Na próxima safra deve ficar abaixo de 1%. Mas essa ainda é uma estimativa inicial”, explica o analista.

Mesmo assim, o Brasil deverá exibir novamente a faixa de campeão mundial de produção de soja mais uma vez. Com mais de 120 milhões de toneladas colhidas no último ciclo e a safra norte-americana encolhendo para 105 milhões de toneladas, o Brasil se consolidará novamente com o maior produtor de soja do mundo.

“Nós até já empatamos com os Estados Unidos em 2018, passando por muito pouco. Neste ano nos consolidamos como o maior produtor mundial do grão. E como lá há um grande estoque, os produtores podem se desestimular e reduzir o tamanho da área na próxima safra norte-americana”, finaliza Roque.

Arroz é o maior desafio do Estado
Além de amargar anos de concorrência desigual com arroz importado do Mercosul, especialmente do Paraguai, os orizicultores gaúchos tiveram grandes perdas na safra passada, com as enxurradas que afetaram a Fronteira Oeste, agravando ainda mais a situação de quem já estava endividado. Com custo elevado e preços deprimidos, o cenário para semear uma nova safra não é estimulante, diz Pires, da Fecoagro. “Talvez um dos maiores desafios do Estado hoje seja o do arroz. Mais do que o trigo e o leite”, avalia o presidente da Fecoagro.

Pires explica que, como o arroz já tem alta produtividade no Rio Grande do Sul, o único caminho para melhor se rentabilizar é reduzir o custo, o que não é simples. Além de não ter muita margem para operar com custos menores, não há espaço para elevar os preços no varejo.

“O Paraguai entra com o preço muito competitivo, o que não deixa muito espaço para o preço subir internamente”, diz Gabriel Viana, analista da Safras & Mercado.

Viana lembra ainda que, com quebra na safra passada, a provável marca do ciclo 2019/2020 será o aumento da produtividade, mas semeada em uma área ainda menor do quem em 2018/2019, que já foi a menor da história. Para o futuro, avalia o analista, a melhor perspectiva para o arroz é ganhar o mercado mexicano.

“Ainda faltam algumas definições. É um mercado já aberto, mas não efetivado. E ainda teremos de começar a importar feijão do México para que o acordo seja válido. Mas, é esse o maior suporte que temos para arroz brasileiro, hoje, como perspectiva de futuro”, analisa Viana.

Apesar das perdas no plantio na Fronteira Oeste neste ano, que poderia ter elevado os preços, isso não ocorreu. De acordo com o levantamento de preços pagos ao produtor feito pela Emater, o valor pago pela saca caiu entre 2018 e 2019, de R$ 43,21 em agosto do ano passado para R$ 42,41 em agosto deste ano.

A necessidade de promover a rotação de culturas é outro aliado do milho, que precisa ser semeado de forma intercalada com a soja

“O produtor que não teve perda, até conseguiu bons preços, mas ainda abaixo do esperado. O ideal seria que o valor da saca tivesse alcançando uma cifra mais próxima de R$ 50,00”, diz o analista.

Milho tem ambiente favorável
As expectativas de preços mais elevados para o milho, estimulados pela alta demanda para alimentação animal, trazem um cenário bastante favorável ao grão. Além da retração da safra norte-americana, prejudicada pelo clima, as exportações de carnes suínas e de frango para a China, que teve seu rebanho suíno devastado pela Peste Suína Africana, ajudam a aquecer o mercado por aqui. O maior problema, porém, diz Paulo Pires, é que a maior parte da safra brasileira ocorre distante dos locais onde estão as principais regiões da suinocultura e avicultura.

Milho – Foto: Wenderson Araújo

“O milho, no Brasil, é muito mal localizado, e o frete encarece o grão para quem precisa do uso para alimentação animal”, avalia Pires, lembrando que esse encarecimento do grão pelo frente não é um ganho para o agricultor.

A necessidade de promover a rotação de culturas é outro aliado do milho, que precisa ser semeado de forma intercalada com a soja, ressalta Pires. E no Rio Grande do Sul o período de plantio é bastante amplo. Em agosto já há produtores semeando, como a região do Alto Uruguai, e pode ir até dezembro, com ocorre na região dos Campos de Cima da Serra.

Paulo Pires, Presidente da Fecoagro – Crédito: AgroEffective

“Existe uma conscientização muito forte de que o milho é necessário para a rotação de culturas”, explica Pires, o que ajuda a manter o grão com uma produção constante e que, no próximo ciclo, deverá se manter em torno de 100 milhões de toneladas.

 

Demanda por crédito sobe 23%
A safra 2019/2020 teve início com forte aumento das contratações de crédito rural em relação a julho de 2018. O total financiado em julho deste ano foi de R$ 16,5 bilhões, com aumento de 23% em relação ao mesmo período do ano passado. Os dados são do Ministério da Agricultura.

Do total contratado, R$ 11 bilhões foram para custeio e R$ 2,7 bilhões para investimentos. A contratação de pequenos e médios produtores somou R$ 4,48 bilhões para custeio (+40%) e R$ 906 milhões para investimentos (+34%).

Quase todos os segmentos estão com forte alta. Os desembolsos para investimentos tiveram alta de 35% e para industrialização, de 42%. Também é intensa a demanda por crédito na agricultura familiar: o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) começou o novo ciclo com 34% mais pedidos que no ano anterior.