Contra a desinformação, defensivos entram na pauta

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Defensivos, agrotóxicos ou agroquímicos, a nomenclatura varia, mas se refere geralmente ao produto químico utilizado para combater pragas e doenças nas lavouras. Constantemente questionados quanto à sua utilização na agricultura e os efeitos sobre a saúde humana, os defensivos em 2019 continuam no centro do debate.

O governo federal, nos últimos meses, acelerou a liberação de novos produtos, atraindo a ira de quem é contrário aos defensivos. O fato é que havia um represamento na análise, que começou a ser agilizada neste ano.

O debate acalorado coloca, ainda, o Brasil como maior consumidor de agrotóxicos do planeta. Entretanto, quando se analisa a utilização por hectare, o panorama muda e o País fica atrás de tradicionais produtores de alimentos como Itália e Portugal.

De tanta informação desencontrada, como peneirar o que é verdade? Analisando friamente os dados levando em conta variações como clima, culturas, solo e área. As interpretações são muitas, neste caso.

“Os defensivos agrícolas ganharam importância devido ao seu papel na produção mundial de alimentos. Foi a partir do uso dos defensivos que os agricultores conseguiram evitar, com maior eficiência, o ataque de pragas e, dessa forma, garantir uma produção de alimentos maior e mais equilibrada”, explica Mario Von Zuben, engenheiro agrônomo e diretor executivo da Associação Nacional de Defesa Vegetal (ANDEF).

Sem eles, não haveria condição da agricultura alimentar toda a população mundial, pois os prejuízos causados por pragas poderiam causar perdas que vão de 9,5% a 40% da produção – de acordo com estudo do Cepea – ESALQ/USP – o que teria um impacto financeiro muito grande no agronegócio.

O dirigente da Andef alerta, também, que a eficácia dos produtos registrados no Brasil e sua segurança para os seres humanos e o meio ambiente são atestadas pelos órgãos nacionais responsáveis pelos setores da agricultura, da saúde e do meio ambiente (Ministério da Agricultura, Anvisa e Ibama), que avaliam a viabilidade de uso dos defensivos agrícolas de acordo com as peculiaridades e regulamentações do País.

Mário Von Zuben, Diretor-Executivo da Andef

O clima tropical potencializa a ocorrência de pragas, doenças e plantas daninhas, uma vez que as condições climáticas favoráveis ocorrem o ano todo. “Por um lado, tem um aspecto positivo, pois nos permite fazer mais de uma safra por ano, mas aumenta a ocorrência dos problemas fitossanitários, exigindo maiores esforços no manejo. Há, ainda, proliferação de plantas daninhas que competem com os cultivos agrícolas por água, luz e nutrientes do solo atrapalhando o pleno desenvolvimento dos alimentos”, declara Von Zuben.

É correto afirmar que, quando se analisa apenas o consumo, o Brasil lidera no mundo, com a comercialização de 600 mil toneladas de defensivos por ano (2017). Pode parecer muito, mas deve levar em conta diversas variáveis.

O Brasil aparece apenas na 44º posição em um ranking da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) sobre uso de defensivos agrícolas. Segundo os dados da entidade, o consumo relativo no país foi de 4,31 quilos de defensivos por hectare cultivado em 2017, os dados mais recentes.

Entre os países europeus que utilizam mais defensivos que o Brasil, aparecem Países Baixos (9,38 kg/ha), Bélgica (6,89 kg/ha), Itália (6,66 kg/ha), Montenegro (6,43 kg/ha), Irlanda (5,78 kg/ha), Portugal (5,63 kg/ha), Suíça (5,07 kg/ha) e Eslovênia (4,86 kg/ha).

Os números constam do sistema FAOSTAT, o banco de dados da FAO que fornece estatísticas de 245 países desde 1961 sobre alimentos e agricultura. Logo após o Brasil aparecem a Alemanha, em 47º lugar, a França, em 48º e a Espanha, em 49º.

Pelo critério de consumo de defensivos em função da produção agrícola, o Brasil aparece em 58º lugar, com uso de 0,28 quilos de defensivo por tonelada de produtos agrícolas. No balanço, foram utilizados os valores de produção de grãos, fibras, frutas, leguminosas, raízes e nozes e o consumo total de defensivos disponíveis no portal de estatísticas da FAO.

Nesse ranking, estão na frente do Brasil países como Portugal (0,66), Itália (0,44), Eslovênia (0,36), Espanha (0,35), Suíça (0,34), Países Baixos (0,29) e Grécia (0,30). Em 59º lugar aparece a França, com uso de 0,26 quilos de defensivos por tonelada de produtos agrícolas.

Sem proteção, perdas importantes nos grãos
Estudo divulgado pelo Centro de Pesquisa Econômica Aplicada (Cepea), vinculado à Universidade de São Paulo (USP), revela que não tratamento de pragas pode causar imensos prejuízos em culturas importantes economicamente como o milho e a soja.

No caso do milho, o não controle da lagarta Spodoptera reduz a produção nacional em 40% no primeiro ano de convívio e, consequentemente, a menor oferta aumentaria os preços do milho em 13,6% na média nacional. O não controle do percevejo reduziria a produção em 17,4% e aumentaria os preços do milho em 5,9%; por fim, o convívio com a cigarrinha causaria a redução na produção de 6,6%, e o aumento nos preços do cereal seria de 2,2% no Brasil. São três das principais pragas que afetam o cereal no País hoje.

Para a soja, os resultados da pesquisa também são preocupantes. Conforme o Cepea, deixar de tratar a ferrugem asiática pode resultar em queda de 30% na produção da oleaginosa. Essa redução na oferta, por sua vez, ocasiona uma elevação nos preços da soja em grão de aproximadamente 22,9% – neste caso, os valores do óleo de soja ao consumidor responderiam com aumento de 10,6%.

Em ambos os casos, os efeitos seriam observados sobre o abastecimento interno e sobre os preços dos produtos agrícolas e de seus derivados. Preços de produtos de origem animal, cuja ração também pode conter a soja e o milho, igualmente sentiriam impactos. Nesse sentido, os aumentos dos preços da matéria-prima seriam repassados aos produtos finais no varejo, como carnes, farinhas e óleos vegetais, afetando a toda a população.

Resistência aos agrotóxicos
Assim como o uso excessivo ou inadequado de antibióticos causa resistência de algumas bactérias aos medicamentos, no caso dos defensivos acontece situação similar. É comum as pragas resistirem a pesticidas e outros produtos após certo tempo.

Com a resistência, segundo dados do Sindicato Nacional de Defesa Vegetal (Sindiveg), todos saem perdendo: o agricultor que não consegue controlar as pragas; a indústria, que perde anos de pesquisa; e o consumidor final dos alimentos, que perde ou tem dificuldade de acesso ao alimento e outros produtos agrícolas como fibras e combustíveis.

Quando uma praga se torna resistente a um defensivo, a indústria tem o desafio de entender as causas e as soluções disponíveis, e também o de desenvolver novos princípios ativos. Mas o processo costuma demorar.

O objetivo de “fazer a fila andar” no Brasil é justamente para aprovar novas moléculas de defensivos, menos tóxicas e ambientalmente corretas, e assim substituir os produtos mais antigos. Atualmente, são cerca de 2 mil produtos na fila para serem avaliados e o prazo legal para a liberação é de quatro meses. Há produtos que estão aguardando liberação há mais de oito anos.

O fato de haver mais marcas disponíveis no mercado não significa que vai aumentar o uso de defensivos no campo. O que determina o consumo é a existência ou não de pragas, doenças e plantas daninhas. Os agricultores querem usar cada vez menos em suas plantações, pois os defensivos são caros e representam 30% do custo de produção.

Guilherme Antonio Costa, Presidente da Comissão Codex Alimentarius

Segundo o presidente da Comissão Codex Alimentarius, Guilherme Costa, o Brasil exporta seus produtos agrícolas para 160 países e atende a todos os critérios de qualidade estabelecidos pelos importadores. “Há todo um trabalho de controle que é exercido pelo setor privado e um trabalho de verificação muito bem feito que é exercido pelo governo no sentido de atender a essas legislações internacionais”, diz Costa.

O Codex Alimentarius foi criado em 1963 pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Atualmente, 189 países fazem parte da entidade. A comissão é responsável por definir padrões internacionais para a produção, controle, verificação e comercialização de alimentos.

Aplicação correta e uso de drones
Um dos desafios do setor de defensivos agrícolas é garantir o emprego correto dos produtos no campo porque foram desenvolvidos para combater as pragas, doenças e plantas daninhas nas lavouras, seguindo as recomendações de rótulo e bula.

A indústria enfatiza que as recomendações de aplicação dos produtos são claras e devem ser utilizadas nas culturas agrícolas somente com a autorização de um engenheiro agrônomo, que prescreve a receita agronômica, uma exigência legal desde 1989 para a compra de todo e qualquer agrotóxico.

A aplicação aérea é uma atividade importante para a agricultura de larga escala no Brasil. Aproximadamente 24% da área plantada no país é pulverizada por aviões, totalizando oito culturas.

O uso de drones na pulverização de defensivos possibilita aplicação mais segura, eficiente econômica

Outro método que tem sido muito utilizado é a pulverização por meio de drones. O método pode substituir o pulverizador costal (pendurado nas costas) e possibilita aplicação mais segura, eficiente e econômica.

O Ministério da Agricultura pretende normatizar a atividade. A ideia é permitir a aplicação aérea de agrotóxicos em áreas onde aviões agrícolas não conseguem chegar, em função de segurança operacional e de voo (obstáculos físicos como árvores, rede elétrica) e em áreas onde as máquinas agrícolas têm dificuldade de aplicação (solos encharcados, áreas de declive como os cafezais).

Tipo de defensivo (2017)
– herbicidas 60%
– fungicidas 15%
– inseticidas 15%
– acaricidas 2%
– tratamento de sementes 1%
– outros 7%

Uso por cultura (2017)
– soja 52,2%
– cana-de-açúcar 11,7%
– milho 10,6%
– algodão 6,7%
– fruticultura 3,3%
– horticultura 3,1%
– café 2,8%
– arroz 1,9%
– feijão 1,4%
– outras 6,3%

Pulverização
Cultura / área plantada (milhão hectares) / Percentual da área pulverizada

Algodão
Cultura: 1,4
Área plantada (milhão hectares): 36%

Arroz
Cultura: 2,4
Área plantada (milhão hectares):33%

Laranja
Cultura: 0,8
Área plantada (milhão hectares): 29%

Soja
Cultura: 25
Área plantada (milhão hectares): 27%

Cana-de açúcar
Cultura: 8,4
Área plantada (milhão hectares): 25%

Milho
Cultura: 11,4
Área plantada (milhão hectares): 15%