Manejo diferenciado é alternativa em época de estiagem

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De tempos em tempos, quando ocorre um novo episódio de estiagem no Rio Grande do Sul, como o do início  deste ano, o produtor rural percebe o quanto importante é a irrigação.

Levantamento realizado pela Câmara Setorial de Equipamentos de Irrigação da Associação Brasileira de Máquinas (Abimaq) mostra que, em 2019, a área irrigada no Brasil era de 6 milhões de hectares. No Rio Grande do Sul, cerca de 1,4 milhão de hectares têm irrigação, menos de 8% do total utilizado na agricultura.

É um investimento que pode ser elevado mas que, dependendo da área coberta e da cultura, deve ser adotado. Em 2019, o programa estadual Mais Água Mais Renda, que incentiva a expansão das áreas irrigadas no Estado, recebeu apenas 165 projetos, cobrindo uma área de 3.500 hectares. Seis anos atrás, em 2014, ocorreu o auge do programa, com 715 pedidos e uma área irrigada de 21 mil hectares.

Agora, a perspectiva da Secretaria Estadual de Agricultura e Desenvolvimento Rural é de que aconteça um aumento de até 400% nos pedidos de irrigação, devido aos estragos causados pelo verão quente e muito seco registrado no início de 2020 no Sul do Brasil.

E os estragos não foram poucos. De acordo com a FecoAgro-RS, a colheita gaúcha de milho no ciclo 2019/2020, que era estimada em 5,8 milhões de toneladas, deve ficar pouco acima de 4 milhões de toneladas devido à estiagem – uma perda de 30%. O impacto também foi grande no fumo. A principal região produtora, em Santa Cruz do Sul, deve registrar uma redução de 20% na safra deste ano.

Muitos produtores estão investindo em estratégias de manejo de solo que podem amenizar os impactos do déficit hídrico nos cultivos de grãos de verão. São alternativas para quem ainda não pode dispor de sistemas de irrigação mecanizados.

A falta de chuvas afetou mais o milho em função do estágio das lavouras que atravessavam o desenvolvimento vegetativo e a floração. Em São Gabriel, onde a área de soja triplicou nos últimos 10 anos, a semeadura estava suspensa por falta de umidade no solo, que persiste desde o mês de novembro.

Contudo, as lavouras que foram semeadas suportaram bem a estiagem, mesmo em solos mal drenados e pouco profundos. Com a soja entrando no período reprodutivo, a estimativa é manter o nível de perdas em 15%. Para o engenheiro agrônomo do escritório municipal da Emater/RS, Renato Barreto, a prática de cobrir o solo com aveia no inverno pode ter ajudado a amenizar os efeitos do clima adverso. “Muitos produtores utilizam o inverno para a engorda do gado, rapando a lavoura e deixando pouca cobertura para o verão. Iniciamos um trabalho de conscientização que mostra os resultados agora, num momento difícil para a soja”, explica Barreto.

Segundo a Embrapa, em teoria, uma planta consome entre 5 a 7 mm de água por dia, valor que pode variar em função do ambiente, como calor/frio, radiação solar disponível e capacidade de armazenamento de água no solo, entre outros. Em Passo Fundo, por exemplo a chuva de 47mm que caiu em dezembro passado supriria as necessidades da planta por apenas uma semana. “Esta é a maior estiagem nos últimos dez anos. Ainda mais expressiva do que o verão de 2013, última estiagem registrada no Rio Grande do Sul, quando choveu 66,4 mm em dezembro”, conta o analista do laboratório de meteorologia da Embrapa Trigo, Aldemir Pasinato.

Enraizamento forte auxilia a planta
Frente aos altos custos para implantar a irrigação artificial, alguns produtores gaúchos passaram a investir nos cuidados com o solo para combater antecipadamente a deficiência hídrica. As técnicas incluem um manejo diferenciado no plantio, entre outras medidas.

Uma das soluções que vem dando resultados é a aplicação de fertilizantes minerais à base de cálcio e enxofre. Em Bossoroca, na região das Missões, o produtor de milho e soja Marco Aurélio Hentz, encontrou, no próprio solo, uma solução para enfrentar a falta de chuvas no período.

“Investi no sulfato de cálcio granulado para a soja e tive um resultado excelente com 8 sacas a mais por hectare, então decidi repetir o investimento no milho. Além de não enfrentar problemas com a estiagem, ainda colhemos a melhor safra de milho dos últimos anos”, afirma Hentz, que conseguiu uma média de 150 sacas/hectare.

Segundo os especialistas em solo, o sucesso desse tipo de fertilizante está no enraizamento das plantas, como destaca o engenheiro agrônomo e especialista em solo, Eduardo Silva e Silva.

“O sulfato de cálcio atua no aumento da porosidade do solo, promovendo sua descompactação e, consequentemente, um maior enraizamento das plantas. Raiz mais profunda, planta mais bem nutrida”, resume.

De acordo com Silva, logo após a germinação, as raízes precisam atingir grandes profundidades e a planta deve apresentar um alto vigor inicial, portanto, investir nessa fase pode trazer diversos benefícios ao produtor. A partir da ajuda do cálcio e do enxofre, o solo fica descompactado e permeável, permitindo que as raízes atinjam água e nutrientes encontrados no solo e responsáveis pelo desenvolvimento da planta.

Silva também é diretor técnico da SulGesso, empresa catarinense líder no fornecimento de sulfato de cálcio no Sul do Brasil – ele lembra que o sulfato de cálcio atua nas camadas mais profundas do solo. “Quanto maior a densidade do sistema radicular, maior a área de contato com o solo. Isso reduz significativamente os efeitos negativos à planta, como por exemplo, a redução da atividade fotossintética e diminuição do crescimento, entre outros sintomas, causados pelo estresse hídrico”, completa.

Rotação de arroz e soja na fronteira
Em Rosário do Sul, na Fronteira-Oeste, alternativas de manejo de plantio também têm ajudado produtores a reduzirem os impactos da seca. Jeferson Parreira é presidente da Associação dos Arrozeiros de Rosário do Sul e também cultiva soja. São 70 hectares de arroz e 170 hectares com a oleaginosa.

Ele já aplica a rotação de arroz e soja, uma técnica que vem ganhando espaço em áreas importantes do Rio Grande do Sul. A contribuição dessa rotação são muitas: redução de plantas daninhas, fertilidade do solo e, claro, maior rentabilidade.

Parreira confirma que o investimento na irrigação por pivô é elevado e só se justifica em topografias menos acidentadas com áreas maiores. “Aqui são áreas pequenas, fica inviável esse investimento”, avisa.

Arroz e soja têm custos elevados de produção. Na soja, por exemplo, tem fertilizante importado, que depende da variação cambial. “Outra coisa que aumenta o custo são as pragas novas, que criam resistência ao manejo constante de fungicidas”, explica. O arroz, além do gasto alto com herbicidas, principalmente, tem o plantio desestimulado devido ao preço baixo.

Parreira comenta que a soja tem ocupado área do arroz na Metade Sul gaúcha. “O nosso problema, aqui é a falta de chuva na fase de enchimento do grão, coisa que não ocorre na parte Norte do Estado, tradicional produtora de soja”, diz.

Julio Vasconcelos Agroponto Fertilizantes

O engenheiro agrônomo Julio Vasconcelos, da Agroponto Fertilizantes, ressalta a importância de se fazer a adequação química do solo, principalmente no caso do arroz, cujo solo é compactado pela mecanização.

“Isso gera o pé grande, termo que usamos para este solo compactado até 30 centímetros de profundidade. Então fazemos um trabalho com uma haste ali, que ajuda depois a água a se infiltrar”, explica Vasconcelos.

Ele informa ainda que depois é preciso fazer calagem, com correção do alumínio. O mineral impede o crescimento da raiz, deixando menos nutrientes ao alcance da planta. “Também precisamos elevar os níveis de fósforo e potássio, além de tratar a parte biológica da soja com inoculação”, avisa o engenheiro agrônomo.

Para a lavoura de Parreira, a técnica deu certo. O produtor plantou a soja no fim de novembro do ano passado, e depois realizou a descompactação do solo. Em dezembro, choveu apenas 24 milímetros na região de Rosário do Sul, mas a soja dele, com a raiz três vezes maior do que a parte aérea, conseguiu se desenvolver adequadamente.

Agricultores pedem prorrogação de Proagro e Seguro Rural Levantamento realizado pela Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) mostra que o Proagro e o Seguro Rural registraram 6.719 comunicados por perdas pela seca no Rio Grande do Sul. Os pedidos dos produtores se concentraram nos prejuízos do milho (3.662), que representaram 54,5% do total de comunicados do Proagro ou Seguro nas três culturas mais afetadas – milho, soja e uva.

Já a soja e uva somaram 3.057 avisos de pedidos de seguro ou Proagro.  O levantamento considerou apenas os avisos em função da seca que assola o Rio Grande do Sul para as três principais atividades com mais solicitações de pedidos de seguro ou Proagro.

No estado gaúcho, de acordo com o ministério, há 103.314 contratos de Proagro para a safra 2019/2020, com valor segurado de R$ 4,64 bilhões. Desse total, o milho corresponde a 40.917 operações, com produção segurada de R$ 1,06 bilhão; a soja, 53.794 operações com valor segurado total de R $3,1 bilhões; a  uva, 1.355 operações que garantem importância segurada de R$ 61,5 milhões e as outras culturas representam 7.248 operações (produção segurada de R$ 412,1 milhões), conforme dados do Banco Central.

No Rio Grande do Sul, 41% da área de soja, 50% de milho e 60% de uva têm mitigadores de riscos de Proagro ou Seguro Rural. A área plantada de milho no estado foi de 791,4 mil hectares com 46% financiada com crédito rural. Dos 5,9 milhões de hectares plantados de soja, 38% foram com financiamento do crédito rural.

O Programa de Subvenção ao Prêmio de Seguro Rural (PSR) apoiou também a contratação de 7.505 apólices dos produtores de uva em 27,9 mil hectares, que representa 59% da área do estado para a cultura.