Incentivo aos ovinos

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Está pronto, para sanção presidencial, o projeto que cria a Política Nacional de Ovinocapricultura. O objetivo é desenvolver raças mais produtivas e aumentar a rentabilidade dos rebanhos de ovinos (ovelhas) e caprinos (cabras).

O Projeto de Lei da Câmara (PLC) nº 107/2018 foi relatado na Comissão de Agricultura e Reforma Agrária (CRA) pelo senador Lasier Martins, que destacou o potencial da atividade para geração de emprego e renda junto à agricultura familiar.

Proposta pelo deputado Afonso Hamm (PP-RS), a iniciativa pretende promover a geração de emprego e renda em âmbito local; a sanidade e segurança alimentar; o bem-estar animal; a desburocratização e a simplificação de procedimentos regulatórios e administrativos; a redução de disparidades regionais; e a elevação da produtividade do trabalho.

O rebanho brasileiro, hoje, é de cerca de 26,4 milhões de cabeças. Deste total, 16 milhões são ovinos e 10,4 milhões caprinos. O Brasil possui apenas 1,3% do rebanho mundial, sendo a China e Índia, com 18% e 9,5% da produção, respectivamente, os maiores produtores.

Há diversas frentes de atuação, como regularizar o abate e o comércio de produtos derivados como carne, lã, couro e laticínios, e o estimular o processamento industrial, familiar e artesanal desses produtos.

Historicamente, a ovinocultura ocupa posição de destaque na pecuária do Rio Grande do Sul. Apreciada no churrasco, a carne de ovelha é valorizada no mercado de proteínas. “A carne de ovinos é fonte de desejo do consumidor, é quase uma carne gourmet. Nossa produção hoje não dá conta da demanda”, explica o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (ARCO), Edemundo Gressler.

Com um rebanho hoje de 3 milhões de cabeças, a ovinocultura gaúcha vive uma fase distinta do apogeu das décadas de 1960 e 1970, quando o número de ovelhas nos campos do Rio Grande do Sul chegava a 12 milhões de cabeças. “Era o tempo dos grandes lanifícios, atividade que gerava muita renda para o produtor. Com a entrada dos tecidos sintéticos e a popularização do jeans no vestuário, isso mudou radicalmente”, lembra Gressler.

Com isso, as raças produtoras de lã, aos poucos, foram cedendo espaço para as raças com aptidão para produção de carne. “Obviamente que as raças de lã também produzem carne, e isso melhorou muito também com nosso trabalho de melhoramento genético”, explica o presidente da ARCO.

Edemundo Ferreira Gressler – Foto/divulgação

Segundo ele, hoje a ARCO tem 29 raças de ovinos registradas em todo o Brasil. No Rio Grande do Sul, são 15 raças encontradas quando se analisa o rebanho existente. A mais criada nos campos gaúchos, responsável por 80% do rebanho, é a corriedale.

Originária da Nova Zelândia, a corriedale chegou ao Sul na década de 1930 e tem aptidão para produzir lã e carne, com equilíbrio de 50% para carne e 50% para lã. “Muitos desses animais vieram do nosso vizinho Uruguai. Pela proximidade e também por identificação cultural, os criadores gaúchos optaram pelo corriedale”, relata Gressler.

Quem segue produzindo lã não tem do que reclamar. Apesar da concorrência com outras fibras, a lã fina ainda é muito valorizada na indústria têxtil. “Claro que temos um caminho para percorrer na questão de produzir lãs melhores. Temos raças excepcionais, mas há também a preocupação de qualificar o rebanho para produzir mais carne”, explica o presidente da associação.

O consumo brasileiro de carne ovina é de apenas 400 gramas/ano por habitante. Na Nova Zelândia, chegou a 42 quilos per capita em 2018. Quando se compara com outras proteínas, a diferença também é enorme: o brasileiro consome, me média, 44 quilos de carne de frango por ano, 35 quilos de carne bovina e 15 quilos de suína.

Produção menor que a demanda
Para o senador Lasier Martins, mesmo com o baixo consumo, a produção nacional é insuficiente e as importações de carnes ovinas, predominantemente do Mercosul (Uruguai), têm sido necessárias para o suprimento da demanda, cuja tendência é crescente.

Senador Lasier Martins Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

E o mercado é promissor. Pesquisa divulgada pela Embrapa confirma essa realidade. Nela, verificou-se que 25 milhões de brasileiros, 12% de consumidores do País, nunca sequer experimentaram a proteína oriunda de ovelhas, carneiros ou cordeiros.

Mesmo quem já comeu, boa parte não criou hábito de consumo. Dos entrevistados que admitiram consumo ocasional, 27% revelaram comer esse tipo de carne algumas vezes por ano e 35% consumiram alguma vez na vida.

Há, ainda, a produção de leite de cabra. Com maior digestibilidade e menor percentual de gordura, o produto pode ser encontrado na forma de queijos, iogurtes, bebidas lácteas e sorvetes feitos com leite de cabra.

Trata-se de um produto que mobiliza uma cadeia de 18 mil produtores e gera uma produção de 35 milhões de litros por ano no País. Por ter melhor digestibilidade que o leite bovino, costuma ser indicado por médicos e nutricionistas para públicos específicos, como pessoas com intolerância ao leite de vaca

No caso da carne, segundo a Embrapa, os motivos do baixo consumo vão desde a pouca disponibilidade do produto no mercado até a falta de costume e inexistência de cortes mais apropriados para o preparo no dia a dia, como acontece com outras carnes, como a de frango e a bovina. Não existe hoje, no varejo, cortes de ovinos prontos à disposição do consumidor, como ocorre com a carne ovina.

Neste sentido, a própria Embrapa tem trabalhado no desenvolvimento de cortes de ovinos e produtos que possam atrair o consumidor. Inspirados em processados suínos, pesquisadores criaram linhas de produtos inéditos no mercado: presuntos crus defumados e não defumados, copas, mortadelas, hambúrgueres e até bacon, já nominado de oveicon, tudo feito a partir de carne ovina. Os produtos devem chegar ao mercado consumidor nos próximos anos.