Futuro da agricultura em estudo

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FOME NO MUNDO - Em 30 anos a população mundial será de 9,8 bilhões de pessoas e será necessário produzir 50% a mais de grãos e dobrar a produção de carnes

Em 30 anos, a população mundial alcançará 9,8 bilhões de pessoas – destas, cerca de 5 bilhões viverão em centros urbanos. O aumento da população, sua crescente urbanização e a maior expectativa de vida (envelhecimento), associados a fatores como mudanças climáticas, degradação ambiental, novas tecnologias na agricultura e alteração nos hábitos de consumo alimentar, vão impactar diretamente o fornecimento de alimentos.

Conforme o estudo Megatendências para o Desenvolvimento da Agricultura e dos Sistemas Alimentares, será necessário produzir 50% a mais para atender ao crescimento da população, enquanto o mercado de carnes precisará dobrar sua capacidade. As fontes utilizadas no levantamento são a agência de risco Fitch, por meio de sua subsidiária Fitch Solutions (Inglaterra), e o Rabobank (Holanda).

No Brasil, o material foi distribuído pela Embrapa. “Um dos destaques nas análises é que os sistemas agroalimentares globais mudarão dramaticamente até 2050, tendo em vista a complexidade dos fatores envolvidos”, analisa o pesquisador Mário Seixas.

Nos dias atuais, a segurança alimentar é relativamente estável, uma vez que o mundo consegue produzir mais alimentos do que se consome, apesar de populações no Sul da Ásia e na África Subsaariana ainda permanecerem subnutridas ou desnutridas. “Nesse caso, o problema está relacionado a políticas públicas ineficientes”, esclarece o pesquisador. “Contudo, nas próximas décadas, teremos episódios de interrupção significativa do fornecimento de alimentos e consequente aumentos de preços”, avisa.

Neste cenário, apesar das dificuldades, China, Brasil e Índia continuarão a expandir sua agricultura. A produção de grãos geneticamente modificados deve aumentar na China, especialmente de milho, enquanto a Índia investirá nas leguminosas secas, como ervilha, lentilha e grão-de-bico. Estados Unidos, Brasil e Europa continuarão sendo as fornecedoras agrícolas mais importantes no cenário internacional.

A questão climática é fonte de preocupação. De acordo com estimativas do relatório, a elevação das temperaturas reduzirá a produtividade e o rendimento de muitas culturas no mundo. Inundações e secas serão cada vez mais frequentes, o que irá prejudicar os sistemas de produção e distribuição de alimentos.

No campo da política internacional, o estudo revela que nos próximos anos o protagonismo entre os países irá se alterar. A China, segunda economia mais dinâmica do globo, tenderá a liderar o processo de globalização, podendo substituir, a longo prazo, os Estados Unidos, se as atuais medidas protecionistas avançarem. O documento, fundamentado nas previsões da agência de risco Fitch, traz a previsão, inclusive, da criação de um “fundo monetário asiático”, totalmente desvinculado do FMI. “O Brasil poderá fazer o mesmo para a América Latina”, diz o relatório.

Um dos destaques é o envelhecimento da população e o aumento dos consumidores idosos. A população global se expandirá em quase 2 bilhões nas próximas décadas até 2050, com as pessoas vivendo mais e com taxas de natalidade caindo, ocasionando uma rápida e contínua tendência de crescimento da população com idade de 65 anos, ou mais. Esta faixa etária crescerá em termos totais – dos atuais 611 milhões de pessoas para 1,5 bilhão em 2050.

China e Índia puxam consumo global de alimentos
Até 2050, conforme o relatório, serão 5 bilhões de consumidores com maior poder de compra, resultado do aumento das classes médias na China e Índia. Juntas, elas representarão 59% desse segmento em âmbito global. Mais consumo e mais necessidade de produção de alimentos resultam em maior utilização de água e energia. O Sul da Ásia e a África serão as regiões mais sujeitas a estiagens e às alterações climáticas nos próximos anos.

Consumidores mais jovens continuarão críticos em relação a transgênicos, porém propensos a consumirem outros tipos de produto, por exemplo a chamada carne sintética, de origem vegetal. “A proteína baseada em vegetais será parte do futuro da indústria de alimentos. Empresas tradicionais de carne poderiam se tornar investidores significativos”, ressalta o pesquisador da Embrapa. O relatório destaca ainda que, até 2050, a dificuldade de aceitação de produtos transgênicos será maior nos mercados da União Europeia.

Mais conscientes, os consumidores também exigirão sistemas alimentares sustentáveis e novas leis de rotulagem. “A rotulagem mais rigorosa será consequência da epidemia de obesidade e de outras doenças relacionadas à alimentação não adequada”, afirma Seixas. Essa conscientização do consumidor com relação à saúde também influenciará na formação de novos nichos de mercado e produção de bebidas de mais qualidade. “Os esforços para redução de desperdício e perdas de alimentos deverão continuar”, diz.

A biotecnologia e recursos genéticos (vegetais, animais e microbianos), a hiperconectividade (essencial na expansão da agricultura de precisão, com os consequentes aumentos de produtividade) e a readequação do uso da mão de obra agrícola vão influenciar a agricultura e os sistemas alimentares do futuro.

“O uso de tecnologia no campo tem apresentado ótimos resultados. A simples introdução de GPS em máquinas colheitadeiras, por exemplo, consegue aperfeiçoar o deslocamento dos tratores, economizando combustível. À medida que o conceito de Internet das Coisas avançar para o meio rural, a produtividade deve aumentar consideravelmente”, conta Luis Augusto Ferreira, diretor-presidente da Associação Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

As agtechs, startups especializadas em criar soluções para o agronegócio, também se somarão à agricultura de precisão para impulsionar os negócios no mundo. Na América Latina, os destaques ficam com Brasil e Argentina, que estão adotando as agtechs como estratégia para o desenvolvimento de tecnologias digitais no campo.

O continente asiático superará outros continentes em termos de adoção das agtechs, devido à avançada infraestrutura tecnológica. A China, em particular, deve adotar plenamente o conceito das agtechs em um horizonte de cinco anos, incentivada pelo massivo apoio público governamental.

Por outro lado, a África tem o menor potencial de uso de máquinas e tecnologias na agricultura pelos próximos 10 a 15 anos, pelo menos. Embora existam, atualmente, iniciativas envolvendo empresas multinacionais de máquinas agrícolas, esse investimento no continente africano ainda é escasso.

Menos custos com a Internet das Coisas (IoT)
O uso da Internet das Coisas (IoT) poderá promover uma redução do uso de agrotóxicos e insumos por hectare, bem como dos custos de produção. A agricultura de precisão facilitará a detecção de surtos de doenças precoces na pecuária e permitirá o uso mais racional de rações. As empresas de insumos, a partir de sistemas conectados, oferecerão produtos personalizados aos produtores, reduzindo a intermediação de fornecedores.

GPS para rastreamento de veículos e sensores instalados em silos de armazenamento ajudarão a reduzir perdas na cadeia de suprimento. Os dados das propriedades rurais e de toda a cadeia ficarão armazenados na computação em nuvem, o principal aplicativo habilitado pela IoT.

Ásia e Estados Unidos são os maiores protagonistas da computação em nuvem, mas a expectativa do estudo é que até 2050 Oriente Médio e África registrem fortes taxas de crescimento dessa estratégia, especialmente os estados do Golfo, devido ao crescimento econômico com a comercialização do petróleo.