Frango: crescimento saudável

COMPARTILHAR

Saborosa, nutritiva e com custo acessível, a carne de frango há muito tempo conquistou o paladar dos brasileiros. Com um consumo per capita de 43 quilos por habitante anualmente, praticamente o mesmo dos Estados Unidos, o Brasil tem na avicultura um dos principais negócios de proteína animal, responsável por produzir 13,1 milhões de toneladas ano – cerca de 4,5 milhões são destinadas ao exterior, com mercado em 150 países.

Entretanto, a desconfiança do consumidor frente a cortes cada vez maiores e mais suculentos, teoricamente resultados de frangos abatidos com um tempo menor de criadouro, juntamente com uma ideia de que a ave comprada no supermercado passa por processos artificiais de crescimento aumentou com o passar dos anos. Como pode um frango com 40 dias atingir o tamanho ideal para abate sem o uso de hormônios, por exemplo?

Zootecnista e professor da Universidade Federal de Lavras (UFLA), de Minas Gerais, Antônio Gilberto Bertechini é taxativo: tudo não passa de um mito. As razões são várias. Os hormônios só são produzidos para mamíferos, sendo que o de crescimento é um peptídeo, ou seja, uma proteína semelhante à insulina. A insulina, depois de aplicada, é degradada no estômago e perde a eficácia. “Assim, caso existisse hormônio de crescimento para frangos, deveria ser aplicado diariamente via injetável para ter resultado, o que seria impossível”, explica ele – por uma simples questão matemática: o Brasil produz seis bilhões de frangos por ano, não haveria como administrar o hormônio em cada um deles.

Outro fato é que o frango de corte é abatido em tenra idade, quando não existem receptores para hormônios, e, sendo assim, não funcionariam os hormônios mesmo que aplicados. Quanto aos antibióticos, estes, às vezes, são empregados com finalidades específicas para controle de alguma enfermidade.

Conforme o zootecnista, os antibióticos aprovados para uso em frangos não são absorvidos, e, portanto, não ficam acumulados no tecido. “É permitida a utilização de outros produtos, como probioticos, prebioticos e ácidos orgânicos, que não são antibióticos, mas têm efeitos semelhantes e são mais aceitos pela comunidade internacional”, explica.

Para a Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), usar hormônios na produção é inviável do ponto de vista financeiro. Essas substâncias somente estão disponíveis para pesquisas de laboratórios devido ao custo elevado – algo incompatível com a reduzida margem de lucro da avicultura. Caso fossem utilizados, não haveria tempo para que fizessem efeito, já que o ciclo de produção é de 42 dias, enquanto a substância demoraria pelo menos 60 dias para apresentar algum resultado.

De acordo com a instituição, a suposta presença de hormônio em frangos é um mito usado para justificar o crescimento e o menor tempo de abate dos frangos comerciais. Pesquisas mostram que a seleção genética é responsável por 90% da eficiência no ganho de peso.

A crença, em parte, também ocorre devido à comparação entre o desenvolvimento de um frango caipira, criado solto e que não possui aptidão genética para ganho de peso, com um frango geneticamente selecionado para ganho de peso. Segundo a indústria, este último recebe ração balanceada e todos os cuidados para que se desenvolva bem e o mais rápido possível.

As evoluções nas áreas da genética e da nutrição (com base em dieta balanceada e eficiente), além do manejo nutricional e sanitário, resultam em uma ave que requer aproximadamente 1/3 do tempo e 1/3 do total de alimento de uma ave desenvolvida na década de 1950, por exemplo.

O professor Bertechini destaca que muito se avançou na questão genética das aves. Há 30 anos, a produção de frango demorava um período maior (64 dias) e gerava um animal com peso menor (1,6 kg). Hoje, em linhagens de alto desempenho, a avicultura consegue um frango com 3 kg em apenas 42 dias de idade. “Os trabalhos de melhoramento, nutrição e manejo continuam e ainda conseguiremos melhorar um pouco esses índices”, destaca.

Ele vai além: quando o tema é avicultura de corte, a pesquisa está “200 anos à frente dos conhecimentos em relação à nutrição humana, por exemplo”. Para o zootecnista, a difusão de conceitos errados sobre a produção de frangos ocorre por que falta conhecimento nas áreas médicas e de nutrição humana a respeito do tema.

Normas rígidas na produção
E mesmo que alguns insistam em afirmar que a utilização de hormônios ocorre, o Ministério da Agricultura possui normas rígidas que regulam a aplicação de medicamentos para uso em avicultura. Por meio do Programa Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes (PNCRC), com análises sobre a ocorrência de resíduos nos produtos, o ministério fiscaliza a produção de proteína animal em todo o Brasil.

Desde a implantação do PNCRC, nunca foram constatadas ocorrências de utilização de hormônios. Existe também monitoramento das fábricas de rações pelo ministério. As rações, por sua vez, têm permitidas em sua composição milho, farelo de soja, sal, suplementos vitamínicos, fosfato bicálcico e, eventualmente, algum promotor de absorção – nenhum destes itens passar para a carne a ponto de causar alguma contaminação para o consumo humano.

Bertechini explica que a avicultura brasileira é altamente capacitada. Dados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) mostram, também, a importância do segmento. Entre produtores, funcionários de empresas e profissionais vinculados direta e indiretamente ao setor, a avicultura reúne mais de 3,5 milhões de trabalhadores.

Cerca de 350 mil deles trabalham diretamente nas plantas frigoríficas. No campo, são mais de 130 mil famílias proprietárias de pequenos aviários, que produzem em um sistema totalmente integrado com as agroindústrias exportadoras. Tudo isso contribui para que o Brasil seja o segundo maior produtor mundial de carne de frango, atrás apenas dos Estados Unidos e à frente da China.

A ciência tem muito a contribuir para o aumento da produção. Segundo pesquisa da Embrapa, no melhoramento genético de frangos, a tendência é para o desenvolvimento de genótipos mais adaptados às condições ambientais disponíveis, com maior resistência genética às anomalias e distúrbios esqueléticos e de conformação, ganho em peso e em eficiência alimentar.

Essas melhorias deverão ser facilitadas com o uso crescente da seleção genômica e de outras ferramentas auxiliares do ponto de vista estatístico, de manejo, de alimentação, de controle de doenças, tanto em pesquisas quanto em produção em larga escala.

A exemplo do que existe na França e outros países, ocorre uma tendência de diversificação do material genético para produtos diferenciados. Atualmente, já existem genótipos específicos para produção de frangos coloniais/orgânicos e para frangos tipo industrial.

A avicultura brasileira – 2015
Produção anual de carne – 13,4 milhões de toneladas
Exportação – 4,5 milhões de toneladas
Principais estados – Paraná (32,4%), Santa Catarina (16,2%) e Rio Grande do Sul (14,1%)
Consumo per capita – 43 quilos por habitante

No mundo

Maiores produtores – 2015
– Estados Unidos: 17,9 milhões de toneladas
– Brasil: 13,1 milhões de toneladas
– China: 13 milhões de toneladas