Francisco Turra – Operação Carne Fraca: um espetáculo de horror

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Presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) – entidade que representa as cadeias produtivas de aves e suínos em todo o país, segmentos do agronegócio responsáveis por R$ 80 bilhões em produção anual – Francisco Turra lamenta a repercussão violenta e negativa da Operação Carne Fraca, ocorrida em março deste ano. No episódio, as fraudes cometidas por um pequeno grupo de frigoríficos (cinco em um universo de quase 2 mil no Brasil inteiro) descobertas pela Polícia Federal causaram um terremoto no mercado interno e externo da carne brasileira – seja ela bovina, suína ou de aves. A divulgação precipitada, segundo as entidades do setor, aliada à falta de conhecimento técnico, resultou em um “espetáculo de mentiras e absurdos”, segundo afirma Turra. De um prejuízo inicial com países recusando embarques e o consumidor interno reticente com a qualidade da carne, após quatro meses de um intenso trabalho de articulação entre entidades, empresas e governo, parece que o mercado está voltando ao normal. Na entrevista, o gaúcho de Marau, aos 74 anos, com passagens pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e Ministério da Agricultura, além de mandatos parlamentares, conversa sobre a carne do Brasil (que tantos mercados ganhou no exterior) e destaca a excelência do agronegócio produzido no País.

A repercussão da operação Carne Fraca foi exagerada?
Não apenas exagerada. Foi deturpada.  Os absurdos que nasceram a partir dos equívocos da divulgação da operação pela Polícia Federal tiveram consequências catastróficas para o país.  Parte da imprensa, de maneira absolutamente sensacionalista, se apegou aos erros cometidos na divulgação da PF e transformou a repercussão da Operação em um espetáculo de mentiras e absurdos.

Por que isso ocorreu, na avaliação da ABPA? A amostra de frigoríficos investigada era muito pequena, como se viu.
Amostras pequenas, falta de conhecimento e ausência de técnicos envolvidos na investigação são apenas alguns dos motivos. Era uma operação que tinha uma boa finalidade – extirpar operações corruptas em questões burocráticas e documentais.  Ao contrário disto, se transformou em um espetáculo de horror e desinformação.  Não havia profundidade técnica para as afirmações que foram feitas em 17 de março, conforme a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF), que criticou duramente os resultados da Operação.

Como o senhor reagiu no momento, quando soube do caso?
Imediatamente, a ABPA assumiu posicionamento de esclarecimento e defesa do setor.  Sabemos da qualidade e da competência do trabalho desenvolvido pelo Brasil, e tínhamos certeza de que se tratavam de questões pontuais, como de fato eram. Iniciei uma articulação setorial junto ao governo, com o presidente Temer e o Ministro Blairo Maggi. Começamos uma das maiores ações articuladas pelo setor privado e pelo governo em defesa do agronegócio. Foram semanas de intenso trabalho diplomático, esclarecimento público e defesa setorial.

Passados quatro meses do caso, o Brasil já está com seus mercados no exterior abertos novamente?
Ainda temos cerca de 2% dos mercados com embargos e bloqueios no mercado internacional.   O cenário é melhor em relação à situação imediatamente após a divulgação da Operação, mas ainda falamos de prejuízos ao País como impactos diretos.  A imagem internacional do Brasil ficou manchada, e estamos trabalhando para recuperá-la.

É esperada uma queda na balança comercial deste ano, como queda nas exportações de proteína animal devido ao episódio?
Os impactos foram grandes, mas o Brasil ainda é o maior exportador mundial de proteína animal. E há escassez global de oferta de proteínas, especialmente pelo fato de que grandes consumidores, como a China, estão reduzindo sua produção. Os indicadores nos mostram que, mesmo diante desta tempestade, devemos encerrar o ano com números positivos.

No caso dos suínos e aves, como a ABPA reagiu às acusações sobre qualidade da carne?
Foram infinitos contatos com o grande público, e a imprensa se mobilizou neste sentido.  Realizamos uma grande coletiva de imprensa na segunda-feira seguinte à divulgação dos fatos, que ocorreu em uma sexta-feira, esclarecendo ponto por ponto sobre cada questão levantada em relação à qualidade. Os esclarecimentos que apresentamos orientaram a pauta da semana na imprensa nacional em torno do tema.

Esse episódio todo mostrou que ainda é preciso fazer um trabalho de imagem da carne produzida no Brasil, tanto para o mercado interno quanto para o exterior?
Na verdade, o episódio retraiu os avanços que tínhamos obtido com um grande trabalho que já era executado pela ABPA e pelo setor. Estávamos em uma etapa de reconhecimento de origem de qualidade, que vinha se construindo com grande sucesso. O Brasil já era reconhecido internacionalmente como produtor de cárneos de altíssima qualidade. Infelizmente, tivemos que dar alguns passos atrás para reconstruir esta confiança internacional. A cadeia produtiva terá que investir muito para retomar a imagem que construímos ao longo de décadas de trabalho e investimentos.

A fiscalização sanitária hoje, no Brasil, é eficiente? O que se pode melhorar?
Temos um excelente sistema de fiscalização, mas é claro que temos pontos a aprimorar.  É um trabalho que o Ministro Blairo vem, juntamente com as secretarias do ministério, atuando para verificar os pontos que devem ser melhorados dentro do sistema de auditoria fiscal agropecuária do Brasil.

O Brasil faz um esforço permanente para conquistar novos mercados para nossa carne no exterior, tanto bovina quanto suína e de aves. A ABPA, como entidade, acompanha este processo? Como contribui?
Atuamos em conjunto com o Governo Federal para negociar a abertura de novos mercados, realizar painéis contra bloqueios injustificados e expandir os negócios. A ABPA é a representação setorial, por isto, em todas as negociações está envolvida, desde o início das negociações, prospecção e levantamento de entraves, até a conclusão dos trâmites para viabilização dos embarques.

O País tem um projeto de se tornar um dos maiores players do agronegócio nos próximos anos, mas, na prática, já é. Este trabalho depende de safras cada vez maiores, por exemplo, ou de competir de igual para igual no mercado internacional?
Depende de muitos fatores, como o incremento de nossos índices de produtividade, de nossos ganhos em custos de produção e competitividade, mas, principalmente, da melhoria de nossa capacidade de gerar valor agregado. Este é o caminho para que nossa produção gere mais empregos e rentabilidade para o Brasil.

O principal custo de produção de suínos e aves ainda é a ração animal, que depende do preço do milho? Houve alta expressiva no preço do grão ano passado. Isso chegou a causar pressão nos preços finais dos cortes?
A composição de custos do setor é complexa, mas podemos dizer que o milho e a soja estão entre os grandes pesos na conta da produção. Em 2016, vivemos um momento extremamente delicado: o milho atingiu altas históricas, engolindo parte de nossa competitividade; a oscilação do câmbio reduziu a rentabilidade dos negócios internacionais; e a crise econômica impactou diretamente no consumo interno de produtos.Apesar dos pontos desfavoráveis, as exportações mantiveram ritmo elevado e atingimos recorde histórico em volumes de embarques, o que reduziu a pressão interna sobre a oferta de produtos. Neste contexto, conseguimos equilibrar eventuais perdas setoriais.

O Sul é a região com maior participação na produção de suínos e aves, notadamente RS e SC. Como o senhor vê a importância dessas cadeias para o agronegócio dos Estados?
O setor de proteína animal é uma cadeia com papel decisivo no contexto socioeconômico do Sul. Dezenas de municípios e diversas regiões produtoras tem na avicultura e na suinocultura o seu grande motor econômico. São atividades que geram renda e desenvolvimento, com centenas de milhares de famílias envolvidas diretamente.  Indiretamente, uma infinidade de empresas fornecedoras atua nestas gigantes cadeias produtivas, contribuindo, de forma definitiva, para o desenvolvimento da região Sul.

A crise econômica parece dar sinais de enfraquecer…o senhor acredita que 2017 pode terminar com aumento no consumo interno de carne suína e aves?
Acredito que teremos um ano mais sólido para o setor. Podemos ver, sim, um melhor consumo per capita de proteínas, mas acredito especialmente na retomada da confiança.  Vivemos um período bastante conturbado nestes últimos tempos, com uma crise política que se alastrou na maior crise econômica da história. Os sinais indicam uma retomada da produção e do cenário positivo, o que deve influenciar todos os elos de nossa economia.  Neste cenário, veremos a retomada, também, da confiança do consumidor, o que deve gerar números positivos para toda a economia.
Entrevista: Cristiano Vieira

Foto:Antonio Cruz/Agência Brasil