Febra aftosa: O Rio Grande do Sul e o status sanitário

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Vacinação contra a aftosa - Crédito: Fernando Dias/ Seapi

Os próximos meses serão decisivos para a pecuária do Rio Grande do Sul. Uma auditoria do Ministério da Agricultura no Estado, caso tenha um desfecho positivo, pode marcar o início do processo de retirada da vacina contra febre aftosa. Com isso, em um prazo de dois anos, o Rio Grande do Sul pode receber o certificado de zona livre sem vacinação e aumentar as receitas com vendas de carnes.

Atualmente, o Brasil é considerado zona livre de aftosa com vacinação. Apenas três países da América Latina são considerados livres de febre aftosa sem vacinação pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE): Chile, Guiana e Peru.

Há uma exceção: no Brasil, o estado de Santa Catarina, desde 2006, tem o status de livre de aftosa sem vacinação. Isso garante acesso a mercados que pagam melhor pela carne, tanto suína quanto bovina ou de aves.

O Ministério da Agricultura implementou um cronograma que pretende erradicar a vacinação em todo território nacional até 2023. Alguns estados estão adiantando este processo – como o Paraná. A última campanha de vacinação do rebanho bovino e bubalino ocorreu em maio deste ano naquele estado, com índice de cobertura de 99%, considerado o melhor dos últimos anos. O último foco de febre aftosa no Paraná foi em 2006. A expectativa é de que os paranaenses sejam declarados zona livre sem vacinação a partir de maio de 2021.

Nos últimos anos, o Estado reforçou os cuidados com o trânsito de animais e a fiscalização sanitária. Hoje existem 32 Postos de Fiscalização do Trânsito Agropecuário (PFTA) nas divisas com os estados de Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e São Paulo, e um posto em fase de construção na rodovia BR-116, divisa com São Paulo.

Conforme dados da Secretaria da Agricultura do Paraná, o novo status sanitário permitirá dobrar as exportações de carne suína, das atuais 107 mil toneladas para 200 mil toneladas por ano caso o Estado consiga chegar a apenas 2% do mercado potencial, liderado por Japão, México e Coreia do Sul, que pagam mais pelo produto com reconhecida qualidade sanitária.

No Rio Grande do Sul, a última auditoria feita pelo Mapa ocorreu em novembro de 2017 e apontou 32 inconformidades, entre questões técnicas e administrativas. Essas situações foram corrigidas e devem ser agora verificadas para auditoria do ministério em setembro.

Um dos elementos mais importantes para garantir o status sanitário do Rio Grande do Sul foi a criação do Fundo de Desenvolvimento e Defesa do Saneamento Animal (Fundesa) em 2005. O objetivo é propor e apoiar o desenvolvimento de ações de defesa sanitária animal, além de garantir agilidade e rapidez na intervenção em casos de eventos sanitários e posterior indenização dos produtores. Com um saldo de R$ 90 milhões em recursos, o fundo é composto por nove entidades – entre elas, a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), a Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), o Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados (Sindilat) e a Associação dos Criadores de Suínos do RS (Acsurs).

Rogério Keber , Presidente do Fundesa

“Temos hoje, no Rio Grande do Sul, um controle efetivo do sistema, com todas as propriedades rurais georreferenciadas, com seus pontos de risco identificados. Os técnicos são permanentemente capacitados. Recentemente, autorizamos um convênio com a Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, para um treinamento sobre as movimentações de animais em nível intraestadual”, explica Rogério Kerber, presidente do Fundesa.

Ele destaca que todos os setores produtivos, em parceria com a Secretaria Estadual de Agricultura e a superintendência regional do Ministério da Agricultura, têm desenvolvido iniciativas para melhorar a estrutura do sistema de defesa sanitária animal.

Foi criado o Sistema de Defesa Agropecuária (SDA), em que todas as propriedades e os animais existentes estão cadastrados, além de informação das inspetorias veterinárias regionais. “Hoje temos um controle, em tempo real, das Guias de Trânsito Animal (GTAs) emitidas”, relata Kerber.

Atualmente, entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina existem seis corredores sanitários. Os produtos de origem animal provenientes do estado gaúcho têm hora para entrar ou hora para sair nestes corredores. O roteiro dos caminhões e das cargas só pode ser percorrido em rodovias de Santa Catarina previamente informadas. “Isso tudo decorre do fato de Santa Catarina ter um status sanitário superior ao nosso”, explica o presidente do Fundesa.

Vacinação de quase 100% do rebanho
No Rio Grande do Sul, a primeira etapa de vacinação contra febre aftosa de 2019, realizada em maio, teve cobertura de 99% do rebanho de bovinos e búfalos, de acordo com levantamento realizado pela Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (SEAPDR). A meta inicial era atingir 90% do plantel, estimado em 12,5 milhões de animais.

Este ano a vacina teve alterações na formulação, com redução na dosagem de aplicação, de 5 para 2 ml – a vacina passou a ser bivalente, permanecendo a proteção contra os vírus tipo A e O (removido tipo C) e as apresentações comercializadas agora serão de 15 e 50 doses. A composição do produto também foi modificada com intuito de diminuir os nódulos.

De acordo com estudo realizado ano passado pela secretaria, não há vírus de febre aftosa circulando no estado gaúcho. Apenas em 2018, foram fiscalizadas 18.122 propriedades rurais, totalizando 1.053.527 animais, além de 9.967 agropecuárias que vendem a vacina contra a febre aftosa.

O sucesso de Santa Catarina
Com o certificado internacional de área livre de febre aftosa concedido há 12 anos, Santa Catarina se tornou o maior produtor de suínos do Brasil, o segundo maior produtor de aves e o quarto maior produtor de leite – o agronegócio responde, hoje, por 63,7% das exportações catarinenses.

Posto de Fiscalização Sanitária em Santa Catarina. Foto: Hermes Susin

Um ano antes da certificação, em 2006, Santa Catarina exportava 184 mil toneladas de carne suína, faturando US$ 310 milhões. Em 2018, esse número saltou para 326,3 mil toneladas e trouxe US$ 608,4 milhões em receita para o estado vizinho.

Na carne de frango, também os resultados são vistosos. O setor lidera as exportações de Santa Catarina, faturando mais de US$ 1,8 bilhão no último ano, com 1,08 milhão de toneladas embarcadas. Com o reconhecimento da OIE – Organização Mundial de Saúde Animal -, Santa Catarina teve acesso a grandes compradores de carnes como China, Hong Kong, Estados Unidos e Coreia do Sul. Hoje, as carnes suína e de frango produzidas no estado são vendidas em mais de 140 países.

Os cuidados são redobrados. A Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) mantém 63 barreiras sanitárias fixas nas divisas com Paraná, Rio Grande do Sul e Argentina, que controlam a entrada e a saída de animais e produtos agropecuários.

Para que os produtores tragam ovinos, caprinos e suínos criados fora de Santa Catarina, é necessário que os animais passem por quarentena tanto na origem quanto no destino e que façam testes para a febre aftosa, exceto quando destinados a abatedouros sob inspeção para abate imediato.

O RS possui controle efetivo sobre seus rebanhos, com todas as propriedades georeferenciadas e seus pontos de risco identificados

Status superior qualifica o setor de carnes
Mais do que abrir mercados, a evolução no status sanitário do rebanho bovino é importante por qualificar ainda mais um segmento que já tem obtido resultados muito bons. A produção de carnes premium tem conquistado paladares exigentes, resultado de um conjunto de fatores como a excelente genética, o manejo adequado e a profissionalização do setor.

“Acreditamos que é uma evolução natural. Não somos contra, evidentemente, o que nos preocupa é saber se estados que estão antecipando a retirada da vacina, como o Paraná e agora o Rio Grande do Sul, estão preparados. Mas tudo indo bem, logo teremos os três estados Sul como zona livre sem vacinação e com segurança”, informa o presidente da Associação Brasileira de Angus (ABA), Nivaldo Dzyekanski.

Nivaldo Dzyekanski, Presidente da ABA

A ABA apresenta, na Expointer deste ano, a primeira exposição da raça Ultrablack do Brasil. A Ultrablack é uma raça sintética caracterizada por, no mínimo, 80% de sangue Angus e 20% de sangue zebuíno. Entre as metas da associação está a criação de um selo de certificação da Carne Ultrablack dentro do programa Carne Angus Certificada. “A Ultrablack é mais uma opção para o uso do sangue Angus para produção de carne premium no Brasil, principalmente para regiões mais quentes como o Brasil Central e o Sudeste”, explica Dzyekanski.

Simone Bianchini, Presidente da ABCD

Na mesma linha, a presidente da Associação Brasileira de Criadores de Devon (ABCD), Simone Bianchini, pondera que a medida é benéfica para o setor, principalmente na comercialização de genética. “Hoje, é possível vender touros do Rio Grande do Sul atravessando o território catarinense, mas é restrito. Também há impedimento de participação de animais em feiras e eventos de exposição, devido a questões sanitárias. Então, com essa evolução do status sanitário dos três estados do Sul teremos um melhor intercâmbio de reprodutores”, destaca Simone.

A ABCD criou, há dois anos, o programa Carne Devon Certificada. Desde maio de 2017, mais de três mil animais, entre novilhos inteiros e castrados, foram abatidos com Selo de Certificação pelo Frigorífico São João, totalizando 787.603 quilos. Por questões sanitárias, essa carne é restrita para venda em Santa Catarina.

E maio passado, 99% dos rebanhos gaúchos foram vacinados contra a aftosa

Em agosto deste ano, a ABCD fechou parceria com o Frigorífico Famile, de Pelotas, para a produção de carne Devon certificada no Rio Grande do Sul. A meta inicial é o abate de 100 cabeças por mês. “Foram meses de negociações. Para a ABCD é um passo muito importante, afinal, é o Rio Grande do Sul que tem o maior rebanho Devon e o maior número de criadores do Brasil. Então, nada mais justo do que ter disponibilidade de carne Devon certificada perto de casa”, completa Simone.

A febre aftosa e os impactos econômicos
Causada por um vírus da família Picornaviridae, gênero Aphtovírus, a febre aftosa é muito contagiosa e acomete naturalmente animais biungulados (casco partido) domésticos e selvagens como, bovinos, bubalinos, caprinos, ovinos e suínos. A doença pode dizimar criações inteiras. Os produtos derivados de animais infectados, geralmente, estão contaminados e podem ser considerados de maior ou menor riscos de infecção, dependendo do grau de processamento.

O OIE -Organização Mundial de Saúde Animal classifica as doenças animais de acordo com sua repercussão econômica, social e de saúde pública. A febre aftosa encabeça a lista, pois possui um potencial de difusão rápido. Gera consequências graves para o comércio internacional, fechando fronteiras de países inteiros para o trânsito de carnes e de animais.