Entre uma estiagem e outra, poucos avanços e muitas perdas

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Seguro rural e irrigação apenas amenizam os incalculáveis prejuízos dos produtores, que ainda precisam avançar no cuidado com o solo, alertam especialistas

Foram poucos meses e muitos os danos, entre a estiagem que desidratou a safra gaúcha de 2019/2020 e aquela que já compromete a colheita 2020/2021. Ainda que o governo do Rio Grande do Sul tenha avançado com aberturas de postos artesianos e açudes, o ritmo não foi suficiente para garantir reserva hídrica em um ano em que a chuva se tornou escassa já em outubro. E como um problema deste porte não se resolve em pouco tempo, os danos nas lavouras do Estado se repetem.

Paulo Pires, presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro/RS), diz que, do ponto de vista financeiro, o que o produtor pode fazer neste ciclo foi reforçar o seguro rural e assim evitar o risco de perder totalmente o que foi aplicado na lavoura. Apenas em sinistros pagos no seguro agrícola foram R$ 1,2 bilhão até setembro deste ano, o que apenas ameniza as incalculáveis perdas diretas para o produtor e para a economia gaúcha como um todo.

A outra ação, fortemente estimulada pela Fecoagro e Emater, por ser algo mais perene e efetiva, foi o alertar para a importância dos aspectos agronômicos das lavouras no combate aos adversos efeitos climáticos. Uma defesa que as duas entidades e praticamente todas as lideranças rurais propagam há anos – e que certamente teria reduzidos os de prejuízos antes e os de agora. Falamos do plantio direto e dos cuidados com o solo.

“Há muito somos parceiros de todas as iniciativas de preservação e conservação do solo. O produtor que usou bem a palhada do inverno, fazendo com que a terra tenha condição de retenção de umidade, vai ao menos ter uma situação melhor em relação a quem não tratou isso como prioridade. A irrigação é necessária, mas muito mais complexa e cara”, sintetiza Pires.

No agronegócio, as dificuldades e exigências legais para adoção de sistemas de irrigação são queixas recorrentes. Pires diz que os órgãos do meio ambiente não ajudaram neste momento mais crítico no sentido de flexibilizar regras.

“Não estamos falando em quebrar regras de preservação de meio ambiente, mas em conciliar o interesse social de produção com o interesse do equilíbrio da natureza. Uma sugestão seria inserir reserva de água nos APPs. Reservatórios e açudes não atrapalham e são inseridas na natureza de uma forma equilibrada”, alega Pires.

“O que aconteceu no Estado neste ano é horrível. Em setembro e outubro, meses que mais chove, em geral, praticamente não tivemos chuva. Assim como novembro também foi de escassez” (Paulo Pires)
Crédito: Nestor Tipa Júnior AgroEffective Divulgação

Ainda assim, é fato que a irrigação tem seus limites, custos elevados e depende das condições climáticas e de chuvas suficientes para se fazer uma reserva. Além disso, destaca a Fecoagro, é preciso energia para bombear água até os pivôs – outra área carente no meio rural. A topografia também precisa ser favorável, e nem sempre é viável. Bons exemplos, no entanto, existem aqui no Rio Grande do Sul, relata Pires.

“Em São Luiz Gonzaga uma ação envolvendo o setor público e privado, com o sistema financeiro financiando fortemente, se aumentou muito a área irrigada. Na região das Missões temos agora o maior parque de irrigação do Estado, de cerca de 30 mil hectares”, calcula o executivo.

Apesar de ter pivôs e sistemas de aspersão, a falta de água armazenada igualmente traz problemas para a região. Pires diz que quase a totalidade dos reservatórios estão com carência de água devido estiagem precoce de 2020. “O que aconteceu no Estado neste ano é horrível. Em setembro e outubro, meses que mais chove, em geral, praticamente não tivemos chuva. Assim como novembro também foi de escassez”, lamenta Pires.

Poços artesianos
Mesmo quem buscou investir em poços artesianos tem esse benefício limitado, diz Pires. Ele avalia esta como uma alternativa específica para poucos produtores, somente de determinadas regiões e, forma geral, um projeto caro. O futuro, diz o executivo da Fecoagro, também passa por investir mais em previsão meteorológica e em decisão a partir das condições do tempo dia a dia.

“O produtor deve jogar melhor com a questão da previsão do tempo, principalmente no caso da soja. Não pode ter pressa. Se não houver umidade suficiente, o produtor não pode se desesperar e plantar. Ele tem que plantar somente com umidade no solo para que a planta tenha bom desenvolvimento”, alerta o presidente da federação das cooperativas agrícolas.

Rogério Mazzardo, engenheiro agrícola e gerente técnico da Emater/RS, também destaca que medidas de mitigação da estiagem requerem um planejamento prévio. E que tampouco se consegue minimizar seus danos às vésperas de uma ocorrência.  Como o Estado foi duramente afetado entre o final de 2019 até maio de 2020, os danos tem um prolongamento quase ininterruptamente, lamenta Mazzardo.

“Ocorreram precipitações depois de maio, claro, mas em algumas regiões elas não foram satisfatórias para recuperar mananciais. O que os agricultores têm de pensar quando se fala em minimizar danos da estiagem é um planejamento que contemple a melhoria da qualidade do solo e trabalhar com rotação de cultura, sempre”, reforça Mazzardo.

Outro ponto de atenção é o escalonamento de plantio, com variedades adaptadas e dentro do zoneamento agroclimático de cada região e período, acrescenta o agrônomo.

“Temos passado constantemente essa orientação: faça escalonamento, trabalhe com variedade adequada para cada época e use plantas de cobertura. Se plantar no cedo, adote sementes adequadas. Se vai precisar adiar, uso sementes que depois vão resistir melhor ao plantio tardio”, detalha o gerente técnico da Emater/RS.

Sobre o escalonamento, Mazzardo detalha que no milho, por exemplo, cujo plantio iniciou em agosto e termina no fim de janeiro, se tem uma janela ampla de plantio. Se o produtor for plantar no final, não pode usar sementes de ciclo tardio, pois possivelmente vai sofrer os efeitos de uma geada e comprometerá a qualidade do grão.

“Na soja, se vai iniciar o plantio a partir da segunda quinzena de outubro e até o fim de dezembro. Então se o produtor plantar uma variedade precoce ou muito precoce em novembro ou em dezembro, corre o risco de ela não crescer e nem produzir. Para cada período há uma variedade com o ciclo adaptado àquela região, dentro do zoneamento agroclimático”, acrescenta Mazzardo.

Assim, com escalonamento por período e variedades que são recomendadas se minimiza os efeitos de uma possível estiagem. Ao plantar de uma única vez a lavoura e com somente uma variedade, acrescenta o agrônomo, se faltar chuva vai afetar a área inteira no florescimento e enchimento do grão, por exemplo. E fatalmente a perda será grande.

“Por outro lado, se uma parcela estiver em crescimento vegetativo e outra em maturação, se terá percentuais de perda menores. Minimiza o risco, certamente”, finaliza o representante da Emater.

RS investe para melhorar previsão climática
O Rio Grande do Sul está recebendo 20 novas estações meteorológicas nos municípios, como as instaladas no mês de novembro em São Borja, Bossoroca e Jaguari. As estações vão melhorar o monitoramento agroclimático do Estado, disponibilizando uma informação mais segura para o produtor do Rio Grande do Sul, segundo Flávio Varone, meteorologista da Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr). Além de estiagem, também será útil para prever o excesso de chuvas, granizo e geadas, por exemplo.

Até última semana e até dezembro, de acordo com o governo, deverão ser 20 estações espalhadas no Estado, gerando dados diversos sobre umidade, temperatura, vento, chuva, radiação, entre outros. Com isso, o Rio Grande do Sul terá nos próximos meses um sistema próprio – o Sistema de Monitoramento e Alertas Agroclimáticos (Simagro) -, que vai gerar informação de tempo e clima próprios.

“Vamos gerar produtos para todos os municípios do Rio Grande do Sul. São 497 ao todo. Vamos gerar, além do índice de aplicação do 2,4-D, os mais diversos produtos como monitoramento da ferrugem da soja, algum produto para o arroz, a oliveira, a uva, entre outras culturas”, detalha Varone.

Atacar o problema em diferentes frentes
A estiagem de 2019/2020 levou mais de 390 prefeituras a decretar emergência no período, com problemas desde a falta de água para consumo humano até o baque nas receitas dos municípios, já que boa parte tem o PIB lastreado pelo setor primário.

As perdas na atividade agropecuária atingem todas as culturas e criações, porém, sendo cruciais naquela tidas como carros chefes das economias locais, tais como a soja com diminuição na produtividade superior a 50%, além de prejuízos imensos na produção de milho e na produção leiteira.

Com isso, a secretaria de Agricultura do Estado assegura ter adotado um amplo cronograma de trabalho, que abarcou projetos para ampliar e qualificar o acesso e uso de água na área rural, para consumo próprio, ou produção de alimentos e criação de animais. Em 2019, de acordo com relatório da pasta, foram implantadas duas redes de água em assentamentos de Santana do Livramento, beneficiando 95 famílias, com investimento de R$ 900 mil.

Também em Tupanciretã foi implantado rede de abastecimento de água, beneficiando 30 famílias de assentados. Já em 2020 foram licitadas sete obras que contemplam poços e rede de distribuição de água para atender aproximadamente 500 famílias assentadas da reforma agrária. O investimento previsto é 6,5 milhões com ênfase no município de Santana do Livramento, as obras estão em fase inicial de execução, na mobilização de equipamentos.

Ainda segundo a secretaria, no mês de outubro deste ano foi liberado R$ 1 milhão para execução de duas redes adutoras com potencial para abastecer aproximadamente 450 famílias. E está previsto convênio para repasse de mais R$ 7,5 milhões do INCRA. No quadro abaixo, veja outras ações da secretaria no combate aos danos da estiagem.

 A ÁGUA NO CENTRO DAS ATENÇÕES
Ações da Seapdr no combate aos danos da estiagem

Poços Tubulares Profundos
Em 2019 e 2020 a secretaria percorreu o interior do Estado, perfurando e revestindo poços tubulares profundos. Em 2019, foram perfurados 37 poços e realizadas 2 limpezas, atendendo a aproximadamente 2.730 famílias. Em 2020, até outubro, foram perfurados 69 poços e realizadas 7 limpezas, atendendo a aproximadamente 5.320 famílias, distribuídas em diversas regiões do território gaúcho. Até o final deste ano, projetamos perfurar mais 86 poços tubulares profundos.

Programa de Apoio à Ampliação da Infraestrutura Rural
Em 2019 foram construídos 551 micro-açudes, beneficiando 551 famílias em 73 municípios. No ano de 2020, até o momento, foram construídos 289 micro-açudes, atendendo 289 famílias em 29 municípios. A edição 2020 tem 999 projetos aprovados, separados em 34 lotes já contratados, sendo que sete estão em execução no momento.

Programa Segunda Água
A meta é prover acesso à água, visando à produção agrícola no meio rural junto às famílias em situação de vulnerabilidade social para segurança alimentar e hídrica, por meio da construção de micro-açudes, cisternas, sistemas de irrigação, assistência técnica e capacitação de produtores rurais. Os recursos são oriundos de Convênio firmado entre o Ministério da Cidadania e o Estado. Em 2019 e 2020 foram construídos 557 açudes para irrigação e piscicultura, beneficiando 557 famílias, em municípios da Região Sul e no Vale do Rio Pardo. Também foram entregues 339 kits de irrigação por gotejamento para aquelas famílias que desenvolvem o cultivo de hortaliças. Nestes dois anos estão sendo investidos de R$ 3,2 milhões.

Programa Mais Água Mais Renda
O Programa Estadual de Expansão da Agropecuária Irrigada, Mais Água Mais Renda (PMAMR) tem como objetivo incentivar e facilitar a expansão da irrigação, promover o acúmulo de água na propriedade através da construção ou regularização dos reservatórios, e ter a segurança na produção agropecuária.

Em 2019 e até setembro de 2020 foram aprovados 377 projetos, equivalentes a um acréscimo de 9.632 hectares de novas áreas irrigadas, atreladas a um total de 244 hectares de área alagada, envolvendo a construção, ampliação e regularização de 314 reservatórios hídricos.

Relativo à subvenção prevista no início do Programa como incentivo para os agricultores implantarem projetos de irrigação, em 2019 e 2020, foram repassados aos produtores R$ 2,4 milhões, beneficiando 337 agricultores em 137 municípios.

Desde o início do Programa, os 3.498 projetos repercutiram numa área irrigada implantada de 91.100 hectares, duplicando a área irrigada de sequeiro no estado. Por sua vez, a área total de reservatórios alcançou 1.950 hectares de área alagada.

Programa Sementes Forrageiras
Incentivo a aquisição e implantação de sementes forrageiras de inverno e verão. Em 2019 foram investidos R$ 2,2 milhões no programa. Em função da estiagem e do Coronavírus, os vencimentos das parcelas passaram de 28/02/2020 para 30/11/2020. Para 2020 o Estado ampliou os recursos disponíveis para R$ 6,6 milhões. Ao total, 126 entidades apresentaram demanda para o Programa, beneficiando 16 mil produtores de leite e pecuaristas familiares. Os recursos estão sendo aplicados ao longo do ano, à medida que as entidades efetuam a execução dos seus projetos com a aquisição de sementes forrageiras de inverno e verão.
FONTE: SEAPDR