Energia solar: limpa e atrativa

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Deficiência histórica nas lavouras de todo o Brasil, a infraestrutura de energia, aos poucos, começa a melhorar. Mesmo com as distribuidoras aumentando a rede de fornecimento, ainda falta energia de qualidade, principalmente nas áreas rurais dos municípios mais distantes. Uma alternativa que veio para ficar é a energia solar, cujos painéis captam a luz do sol e a transformam em força para o agronegócio.

Rodrigo Sauaia Presidente da Absolar

De acordo com Rodrigo Sauaia, presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), a energia fotovoltaica, por conta de três fatores, se tornou hoje viável e está cada vez mais próxima do pequeno produtor rural. O primeiro fator foi uma diminuição mais consistente do preço da energia solar fotovoltaica. “Na última década, houve uma redução do preço dessa tecnologia em mais de 75%. Por conta disso, ela está se tornando cada vez mais acessível e competitiva para o pequeno agricultor.”

Para Sauaia, o segundo ponto seria o continuado processo de alta das tarifas de energia, superior à inflação. Os consumidores estão buscando formas de reduzir os gastos – uma das maneiras é gerando energia na própria propriedade.” Por fim, o terceiro fator é o acesso ao crédito, com diferentes linhas de financiamento disponíveis para a área rural.

A energia fotovoltaica possui várias aplicações no campo. “Estamos acostumados a pensar em energia solar como forma de acender lâmpadas, mas também é possível aplicar em monitoramento, cercas elétricas, telecomunicação, bombeamento de água, irrigação, refrigeração, tanques de aeração e processo produtivo, entre outros”, explica o presidente da Absolar.

Tanto em residências, fazendas ou empresas, a energia solar pode ser aproveitada de duas maneiras. A primeira, já bastante popular no Brasil, usa o calor do sol para aquecer a água, o que reduz o custo da conta de energia por eliminar o uso dos chuveiros elétricos. A segunda, com o uso dos painéis fotovoltaicos, converte a luz do sol em energia elétrica, possibilitando a redução da conta de energia em até 95%.

A produção de energia solar também conhecida é pelo termo geração distribuída, que significa a produção descentralizada de energia no próprio local ou nas proximidades de onde é consumida. No Brasil, a partir da criação da Resolução Normativa 482/2012 da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) estabeleceu-se o sistema de compensação de energia. Isso possibilitou que cada consumidor de energia passasse a ser um potencial gerador da própria energia. A Geração Distribuida utiliza fontes renováveis de energia, como o sol e o vento.

Barbara Rubim
Vice-Presidente da Absolar

Conforme Bárbara Rubim, vice-presidente da Absolar, a energia solar ganhou espaço no campo por meio de dois movimentos recentes. Um diz respeito ao surgimento de linhas de financiamento específicas para o setor a partir de 2015, ajudando o produtor rural a implementar o sistema. “Se olharmos hoje, o produtor rural é o segmento mais contemplado com condições de investir em sistemas fotovoltaicos. Apenas o Pronaf Mais Alimentos tem linhas com juros de 4 a 6% ao ano”, explica.

O segundo ponto, na visão de Bárbara, é que o consumidor começou a perceber as vantagens de dispor de uma fonte de energia limpa e democrática. À disposição de qualquer um, o calor solar independe de estruturas maiores para sua geração. Bastam as placas nas propriedades rurais e algumas adaptações de infraestrutura. E a perspectiva de crescimento é alta. Por exemplo, a região brasileira que recebe menos sol é 25% melhor que o melhor local da Alemanha, onde existem mais de 1,5 milhão de instalações de sistemas solares fotovoltaicos.

Um sistema fotovoltaico pode ser instalado rapidamente em telhados ou em solo. Os custos de operação e manutenção são muito baixos e envolvem a limpeza dos painéis no período seco de 2 a 3 vezes por ano. Além disso, as garantias dos equipamentos de primeira linha são de 25 anos de geração, o que torna o sistema um investimento seguro e rentável.

Um dos usos mais intensos diz respeito à irrigação. As bombas para puxar água geralmente estão localizadas em áreas com custos altos e não confiáveis ​​tanto para o uso de combustível quanto para a energia elétrica da rede.

Os sistemas fotovoltaicos são econômicos para o abastecimento remoto de água do gado, para aeração das lagoas e para pequenos sistemas de irrigação. Investir na agricultura de bombeamento solar, de acordo com a Absolar, pode reduzir os custos com energia na irrigação e também criar segurança energética para o futuro, uma vez que a vida útil do sistema de energia solar pode fornecer energia de baixo custo por mais de 25 anos.

Hoje, considerando o total de geração distribuída em operação no Brasil, 12% já vem do consumidor rural. Ele só fica atrás dos consumidores comerciais e residenciais em uso da tecnologia.

Em janeiro deste ano, de acordo com a Absolar, o País atingiu a marca histórica de 2 gigawatts (GW) em geração distribuída solar fotovoltaica de potência instalada. São 171 mil sistemas solares fotovoltaicos conectados à rede e mais de R$ 10 bilhões em investimentos acumulados desde 2012, espalhados pelas cinco regiões do Brasil. Na matriz energética nacional, a energia distribuída já representa 2% do total – em 2015, esse percentual era de apenas 0,2%.

Apesar da marca atingida, o presidente da Absolar, Rodrigo Sauaia, destaca que ainda é pouco para um país das dimensões do Brasil, que necessita de um marco regulatório para dar maior segurança ao investidor, e “que desfaça a insegurança jurídica que paira sobre o mercado”, afirmou, em nota. A energia eólica, por exemplo, já conta com 15 GW instalados, mas começou a ser implantada em 2005, bem antes da energia solar, que foi regulamentada em 2012.

As vantagens para o agricultor
Em Maquiné, próximo do litoral gaúcho, a empresa Elysia instalou painéis fotovoltaicos em uma propriedade rural com o objetivo de atender à 100% da demanda energética do local. Na média mensal, os moradores terão uma redução de 91% na despesa com energia elétrica.

Em uma estrutura montada no solo da propriedade, ocupando cerca de 60 m², foram instalados 30 painéis solares policristalinos. Esses equipamentos estão conectados a dois inversores solares da WEG, empresa parceira da Elysia. Essa composição dos componentes deu vida ao sistema fotovoltaico de 10,2 kWp de potência, que tem capacidade de geração média mensal de 1.200 kWh/mês.

Apenas no primeiro, a economia nos gastos com energia elétrica será de R$ 13 mil, conforme a empresa. Este valor poupado pode, inclusive, ser investido na ampliação produtiva da propriedade rural – isso também inclui aporte em novas tecnologias do campo. O retorno do investimento deve acontecer em até 5 anos.

Também numa propriedade rural do interior de Paraí, próximo de Passo Fundo, os sistemas fotovoltaicos estão resultando em menos gastos para o produtor Vanderlei Lunardi. Ele adquiriu a tecnologia com o objetivo de qualificar a produção leiteira na propriedade de 17 hectares. Tem cerca de 40 vacas produzindo 33,5 mil litros por mês, volume que é inteiramente adquirido pela Cooperativa Santa Clara.

“Fiquei sabendo sobre a energia solar em uma palestra da Emater a qual compareci. Veio um técnico avaliar tudo e decidimos pela implantação”, lembra Lunardi. Com sala de ordenha, resfriador e bomba para água, entre outros equipamentos, a conta mensal de luz, em média, era de R$ 2 mil.

Os painéis e a instalação da rede interna foram feitos em outubro de 2019 – em dezembro, a conta já havia caído para R$ 300,00. Lunardi buscou uma linha de financiamento via Pronaf. O total investido chegou a R$ 108 mil. O pagamento será feito em dez anos, com uma parcela mensal de R$ 1,4 mil.

Taxar ou não taxar o sol?
No início de 2020, a energia solar fotovoltaica ficou no centro de uma polêmica envolvendo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e o presidente Jair Bolsonaro. A agência pretendia terminar com subsídios concedidos ao setor por considerar que os usuários de energia solar utilizam parte das redes de distribuição comuns, já prontas, e não pagam mais por isso.

Essa medida resultaria em uma oneração a mais para o setor de energia solar, o que gerou a expressão sobre “taxar o sol”, usada por Bolsonaro.

A polêmica começou em 2012, na verdade. Uma medida da Aneel daquele ano diz que o consumidor ou produtor rural pode tanto consumir quanto injetar na rede de distribuição a energia elétrica produzida por ele. Essa diferença entre o que ele consome e o que produz a mais se transforma em crédito e pode ser usado para o abatimento de uma ou mais contas de luz do mesmo titular.

Até aí, tudo bem. Entretanto, a proposta oferece benefícios para incentivar a produção própria de energia elétrica, como a isenção do pagamento de tarifas pelo uso da rede elétrica e também do pagamento de outros componentes da conta de energia. Em contrapartida, esses incentivos oferecidos a quem produz energia própria são cobrados de todos os consumidores, inclusive dos usuários ‘comuns’ que recebem a energia somente da distribuidora.

A Aneel propôs, então, uma revisão da norma, reduzindo gradualmente esses subsídios para a energia solar. Tanto o governo federal, por meio do presidente Bolsonaro, quanto as lideranças do Congresso Nacional, como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, se posicionaram contra. O assunto agora será definido por um projeto de lei, ainda em elaboração, que deverá ter novas regras para o setor.

De acordo com a Absolar, que defende as regras antigas, elas são essenciais para garantirem o crescimento do sistema. Projeções da entidade indicam que a fonte solar fotovoltaica deverá gerar mais de 120 mil novos empregos aos brasileiros em 2020, espalhados por todas as regiões do País.

Os novos investimentos privados no setor poderão ultrapassar a cifra de R$ 19,7 bilhões este ano, somando os segmentos de geração distribuída (sistemas em telhados e fachadas de edifícios) e centralizada (grandes usinas solares).

“A solar fotovoltaica é a fonte renovável mais competitiva do País, sendo uma forte locomotiva para o desenvolvimento econômico, social e ambiental, com geração de emprego e renda, atração de investimentos, diversificação da matriz elétrica e benefícios sistêmicos para todos os consumidores brasileiros”, finaliza Rodrigo Sauaia, presidente da Absolar.