Elmar Konrad, “A falta de energia é um fator limitante para a irrigação”

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Elmar Konrad Vice-Presidente da Farsul

Para o engenheiro agrônomo e vice-presidente do Sistema Farsul Elmar Konrad, a sustentabilidade da agricultura passa por um maior planejamento da propriedade rural. Atualmente, o Rio Grande do Sul enfrenta um novo episódio de estiagem, cujas perdas na safra atual ainda não estão totalmente quantificadas, mas devem impactar fortemente o milho, por exemplo. Konrad, que também preside o Sindicato Rural de Ibirubá, fala, em entrevista, sobre a produção de grãos no Estado e os reflexos da seca deste verão, além de ressaltar a importância de sistemas de irrigação na agricultura. Contudo, o principal empecilho para aumentar a irrigação é um velho conhecido dos gaúchos: a deficiência de energia elétrica de qualidade no interior do Estado.

A estiagem de 2020, que está impactado fortemente a safra atual, pegou o produtor de surpresa?
Sem dúvida. Nas últimas décadas, tivemos apenas outras duas secas: no ciclo 2004/2005 e depois 2011/2012. De lá para cá, vimos com safras normais e médias excelentes de soja e milho, igualando nossos resultados com os do Brasil. Realmente, não estávamos mais habituados com essas quebras de colheita.

Nesta safra, quando começou o problema climático?
Outubro do ano passado já foi um mês “errado”, digamos assim, mas olhando os resultados hoje, até favoreceu, e logo explico. O zoneamento da soja permite o plantio no Rio Grande do Sul de 20 de setembro a 31 de dezembro. Mas, olhando um histórico tanto para a Metade Sul quanto para o Norte gaúcho, o melhor período para o plantio da soja é 20 de outubro. Então plantamos, mas o que ocorreu no fim de outubro? Uma precipitação de até 500 milímetros em muitas regiões. Em Cacequi, por exemplo, caíram 444 milímetros, quando o normal seriam 212, segundo dados oficiais da Emater. Foi mais ou menos esse excesso de água no Estado inteiro, ainda no ano passado. Então, a soja estava recém-plantada e tomando 100 milímetros de água num dia, mais 100 em outro. Por melhor que seja a variedade, a semente, não há soja que resista, porque a umidade em excesso ocasiona o aparecimento de fungos. E a planta também fica sem ar, porque o solo encharcado reduz o ar disponível.

Como ficou esse produtor, então?
Quem tinha seguro para o plantio e para o replantio recebeu indenização total dos custos. Então, fica um alerta: além do seguro para produção, em si, é necessário também um seguro para o replantio. Aquelas áreas perdidas tiveram uma nova semeadura, com sementes de boa tecnologia e mais adubação. Ganhamos, também, 30 dias de um novo ciclo, pois fomos replantar em 30 de novembro — é aquela soja que aguentou essa estiagem toda de agora que se deu melhor. Quem não fez o replantio, em dezembro já teve pouca chuva e muito calor. Dezembro foi cruel: 40 milímetros em muitos municípios e temperatura beirando 42 graus. Houve, então, uma perda maior para aquela soja plantada em outubro e que não teve replantio.

Para ter irrigação é necessário conjugar três fatores:
O primeiro, topografia; o segundo, energia; e o terceiro, claro, a água.

Para quem plantou em novembro o resultado ainda é satisfatório?
Sim, porque pegou um pouco de chuva em janeiro deste ano. Voltando lá atrás, na estiagem de 2004/2005, a seca durou o verão inteiro, foi muito pior. Aquilo derrubou a produção, pois tivemos uma média de 10,9 sacas de soja por hectare. No milho a média foi de 20,6 sacas por hectare. Ano passado a média da soja chegou a 53 sacas por hectare, então veja a diferença. Em 2011, também, foi forte a estiagem, mas como já tínhamos sementes de soja com tecnologia mais resistente, os prejuízos foram menores. A biotecnologia nos permitiu esses resultados, também com controle de ervas daninhas.

A perda maior neste ano será no milho?
Verdade. A previsão da Emater neste ano é de uma quebra de 20% a 30% no milho, enquanto para a soja a expectativa é uma redução de 10%. A área de soja plantada hoje está em 5,9 milhões de hectares – em 2004, eram 3,7 milhões de hectares com a cultura. Um crescimento substancial da soja no estado do Rio Grande do Sul.

A redução no cereal será mais severa em alguma região?
Sim, ali na região de Ibirubá, Não-Me-Toque, a perda no milho foi grande. Tem propriedade com quebra de 100% no milho. O que foi plantado em agosto do ano passado escapou da estiagem, mas foi pouco porque o pessoal tem receio de ainda ocorrer alguma geada. A maior parte, contudo, foi semeada a partir de setembro e foi quem mais sofreu, porque a falta de água pegou o período crítico de floração do milho em dezembro.

Também a área com o milho reduziu bastante. A soja ocupa este espaço?
Esse aumento na soja decorre sim, em parte, do forte recuo verificado no milho. Ali por 2002, a área plantada com o cereal chegava a 1,4 milhão de hectares no Rio Grande do Sul. Hoje, são 771 mil hectares, caiu 50%. Essa preocupação com o desempenho do milho é um dos motes do programa Pró-Milho, lançado no início de fevereiro pelo governo do Estado. Precisamos atingir a autossuficiência no grão, uma preocupação também da Associação Nacional dos Produtores de Milho (Apromilho). A produção prevista nesta safra era de 5,9 milhões de toneladas de milho, mas agora, com a estiagem, muita gente do setor projeta um montante ali por 4,1 milhões de toneladas. A nossa demanda por milho é de 5,6 milhões de toneladas. Está faltando o grão, e vamos ter que trazer de outros locais.

Teremos alta no preço do milho?
Sim, pode voltar ao patamar de R$ 50,00 a saca, embora quem plantou já tenha fixado o preço lá no início, ao redor dos R$ 35,00. Com a quebra na safra e a valorização do milho, esse produtor será beneficiado. Mas, no geral, isso deve impactar as outras cadeias, como de aves, suínos, que dependem do grão para a ração. O milho fornece energia para os animais.

Dezembro foi cruel: 40 milímetros em muitos municípios e temperatura beirando 42 graus. Houve, então, uma perda maior para aquela soja plantada em outubro e que não teve replantio.

Essa redução da área com milho é por custo de produção elevado ou porque a soja tem mais mercado?
São diversos fatores. O milho é mais sensível ao clima. Por exemplo, no período reprodutivo do cereal, ali por dezembro, praticamente não choveu. Isso dá perda de até 70% na cultura. Com a soja não ocorre isso. E o custo do milho subiu muito nos últimos anos. A tecnologia evoluiu muito, sempre com o objetivo de buscar patamares produtivos maiores. Obviamente essa semente custa mais. Mesmo com a redução para 771 mil hectares plantados com milho, ainda se busca uma produtividade entre 80 a 100 sacas por hectares. Isso decorre também por que boa parte dessa área é irrigada, por isso mantém médias boas mesmo em períodos como o atual.

O produtor parou de investir em irrigação? Por quê?
Acredito que muito por causa das exigências ambientais para liberar uma área com irrigação. Agora o Estado tem um novo código ambiental, e esperamos que o licenciamento seja mais ágil. A ideia é que o produtor mesmo preencha tudo e apenas envie o documento. Mas, para ter irrigação é necessário conjugar três fatores: o primeiro, topografia; o segundo, energia; e o terceiro, claro, a água.

Isso esbarra na infraestrutura de energia deficiente no campo?
Claro, a falta de energia hoje é um fator limitante para a expansão da irrigação no Rio Grande do Sul. Principalmente na Metade Sul, onde produtores têm necessidade de um motor mais potente. A eletrificação rural, no Estado, teve como primeiro objetivo fornecer luz para as propriedades, mas é preciso mais força. E isso que dispomos de um diferencial importante no Rio Grande do Sul que são as cooperativas de eletrificação — elas desempenham uma atividade muito forte na distribuição e ampliação das redes. Ainda assim, não abrange todo o Estado. Novamente, cito a Metade Sul, uma região com grandes extensões e pouca disponibilidade de energia.

Como o produtor deve agir para quantificar seus prejuízos com a estiagem?
Enquanto Sistema Farsul, temos feito um trabalho intenso junto aos sindicatos do interior mostrando a importância de se fazer laudos e análise das perdas. Por exemplo, uma redução de 20% na safra já significa todo o lucro do produtor. Então, primeiramente, é feito um laudo e depois tem a homologação da Defesa Civil. Depois, com tudo previsto em lei, tem instruções normativas de crédito para flexibilizar os contratos, como alongamento do prazo de pagamento.

Temos visto um padrão nas estiagens que atingem o Estado, a cada oito anos, mais ou menos. A partir desta premissa, o produtor tem como se prevenir e investir em irrigação?
É cíclico. Muitos dizem, “bah, o produtor deve se organizar”, mas o produtor é um empreendedor nato. Às vezes é preciso trocar uma plantadeira, por exemplo, cuja tecnologia ficou obsoleta. Depois, ele decide investir para aumentar a área de plantio, realizando um arrendamento. Até por isso os valores de arrendamento ficaram inviáveis no Rio Grande do Sul, estão muito caros. Então, claro, o produtor pode ter tomado algumas decisões erradas neste sentido, deixando de pensar na irrigação como essencial para a continuidade do seu negócio. Mas, esperamos que este pensamento mude.

Por: Cristiano Vieira
Fotos: Divulgação